"Desculpas" de Constâncio são de "homem pequeno e não de um homem grande"

Lobo Xavier mostrou-se muito crítico do discurso de Vítor Constâncio em relação ao empréstimo concedido a Joe Berardo.

Vítor Constâncio, os discursos do 10 de junho e a morte de Rúben de Carvalho foram os temas em destaque de mais uma edição da Circulatura do Quadrado . Pacheco Pereira, Lobo Xavier e João Soares, antigo ministro da Cultura, compuseram o painel de debate.

A análise aos episódios vividos com Vítor Constâncio ao longo da última semana deu 'pano para mangas'. O jornal Público revelou que o ex-governador do Banco de Portugal terá autorizado Joe Berardo a levantar 350 milhões da Caixa Geral de Depósitos e que omitiu esse facto perante a Comissão Parlamentar de Inquérito.

Em declarações à TSF, Constâncio garantiu que nem omitiu nem mentiu na comissão e explicou que "o Banco de Portugal como supervisor não tem competência nem fundamento para exigir o conhecimento prévio dos créditos que os bancos dão, nem muito menos mandar anular as operações". Já foi, entretanto, aprovada uma nova audição ao antigo Governador.

João Soares defende que Vítor Constâncio "não é homem para se meter numa moscambilha". Ainda assim, reconhece que "as explicações que deu estão aquém do que está em causa, claro que sim. É desejável que volte à comissão de inquérito. Há uma espécie de síndrome de Pôncio Pilatos nos antigos governadores do Banco de Portugal, todos eles lavam as mãos. E depois há ali também uns problemas de memórias".

Lobo Xavier destaca, por seu lado, a "tecnocracia que muitas vezes vai ao Parlamento e quer abusar do facto dos deputados não serem especialistas em determinados assuntos. E ainda sorriem ironicamente para os deputados, alegando que eles ignoram as coisas básicas do mundo jurídico ou do mundo empresarial".

Foi precisamente isto, defende centrista, que Vítor Constâncio fez "quando lhe perguntaram se conhecia a operação Berardo e disse, não só, que não a conhecia nem tinha interferido nela - o que não é verdade - como disse também que o BdP - disse ele, sorrindo ironicamente e com condescendência pela ignorância parlamentar - não tem a possibilidade de apreciar a priori as operações das instituições bancárias". O advogado refere que esta premissa não é verdadeira e que está na Lei hoje como já estava na altura.

"O BdP não só tinha esses poderes como, tendo esses poderes, não os usou e o Dr. Vítor Constâncio achou bem - porque não temos nenhuma notícia de que tenha achado mal - que o BdP tenha tido essa posição", criticou Lobo Xavier.

"Custa alguma coisa a uma pessoa com o trajeto e a responsabilidade do Dr. Vítor Constâncio dizer que a época era tumultuosa, que os tempos eram outros, que a regulação se fazia de uma forma mais diplomática - em alcatifa - e não era tão drástica nem tão agreste? Custava alguma coisa dizer que não se apercebeu das consequências? Julgo que não. Não custava nada também reconhecer o desastre em que tudo aquilo se tornou. Arranjar pequenas desculpas como 'ninguém me perguntou, portanto não falei' ou 'não estava na reunião, portanto não sabia' é digno de um homem pequeno e não de um homem grande, como eu esperaria que ele fosse", lamentou em conclusão.

As mensagens do 10 de junho

O discurso de Marcelo Rebelo de Sousa no 10 de junho também estiveram sob escrutínio do painel da Circulatura. O Presidente da República, defende João Soares, fez algo "no estilo dele" e "encontrou-se finalmente com um destino que ele achava que já não lhe batia à porta e não quer perder a oportunidade de ficar bem com os portugueses e com a história".

O ex-ministro da Cultura considera que Marcelo Rebelo de Sousa tem estado "muito bem" nesse papel e "tem prestado um grande serviço ao país". Sem "a inteligência e abertura" de Marcelo, defende o antigo governante, a Geringonça "não teria sido possível".

Já Pacheco Pereira entende que o Presidente da República quer "reequilibrar o sistema porque acha que a direita está fragmentada" e começou a fazê-lo neste 10 de junho. A conceção do dia, defende o social-democrata, estava destinada a colocar "temas e análises típicos da direita" e, por detrás deste conceito está, defende, "um enorme sentimento de impotência".

"Já perceberam que o Costa vai ganhar as eleições - não vamos discutir se por boas ou más razões - e que ninguém vai, tão cedo, ter força para contrariar a Geringonça. Essa impotência é depois traduzida num discurso entre o racional e o místico sobre Portugal, os problemas de Portugal que, em muitos casos, traduz pura e simplesmente essa impotência política", entende Pacheco Pereira.

Lobo Xavier rejeita o "plano conspirativo" identificado por Pacheco Pereira no discurso de Marcelo e defende, por seu lado, que "se o Presidente da República tivesse um plano, o plano era bom e refletia-se numa oratória reconhecível".

O centrista não identifica qualquer "marca de direita" no discurso de Marcelo Rebelo de Sousa e lembra que a escolha de João Miguel Tavares foi feita ainda antes da "anunciada crise da direita", quando as sondagens mostravam que a mesma poderia ter uma "retoma".

O adeus a Rúben de Carvalho

A morte do histórico comunista Rúben de Carvalho, que faleceu esta terça-feira, não ficou esquecida.

"Conheci-o e tratei-o sempre como Rúben Tristão de Carvalho. Era o último membro do Comité Central que tinha estado na cadeia, um homem que sabia muito, muito daquilo que não era suposto um comunista saber. Por exemplo, era um grande especialista de música americana - country e jazz -, das poucas pessoa que conhecia aquilo. Não sei se chegou a ir aos Estados Unidos para não ter de preencher a declaração para entrar", recorda João Soares.

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