Do SEF à TAP. Passos Coelho regressa com ataques ao governo de Costa

Não são muitas as aparições públicas de Pedro Passos Coelho desde que deixou a liderança do PSD e, menos ainda, as críticas rasgadas ao governo. Antigo primeiro-ministro volta aos holofotes com farpas que vão do SEF à TAP, sem esquecer a educação ou a economia.

Enquanto o centro de Lisboa estava com um trânsito caótico de hora de ponta à sexta-feira, Pedro Passos Coelho, no seu estilo habitual, começava a discursar na Academia de Ciências de Lisboa a propósito de uma conferência do grupo CUF.

Com calma e a pesar as palavras, não deixou nada por dizer: "chega a ser chocante ver responsáveis políticos e governantes a cederem ao autoelogio e ao desafio arrogante, quando não ao puro passa-culpas, em vez de assumirem responsabilidades, tanto por fracassos como por verdadeiros escândalos que afetam a reputação externa do país e abalam a confiança dos cidadãos nas suas instituições".

Em mais de meia hora de intervenção, o antigo primeiro-ministro não deixa escapar os temas quentes da atualidade, com o caso do SEF à cabeça. Para Passos Coelho, "depois de meses de compreensível inação após os factos serem conhecidos e com autoridade do Estado seriamente abalada e confiança nas instituições públicas beliscada, tudo tem servido para procurar disfarçar o indisfarçável".

"A superior dificuldade em admitir as falhas graves incorridas ao não se ter atuado prontamente com inteligência e sentido de defesa do interesse público e a incompreensível relutância em defender o Estado da fuga à responsabilidades dos seus dirigentes que antes preferem lançar o opróbrio injusto sobre toda a força de segurança em causa, nomeadamente apontando para o seu esvaziamento funcional em vez da simples e pronta assunção de responsabilidades", nota o antigo chefe de governo.

Mas há mais: TAP. Desde logo com Passos Coelho a notar que "a fatura que o Governo se prepara para endossar vai ser suportada por muitos anos, por muitos governos e demasiados contribuintes a quem o Estado não vê hoje com respeito ou parcimónia".

Fazendo a defesa da honra, o social-democrata sublinha que "o Estado prepara-se, se em Bruxelas obtiver autorização, para canalizar o que lhe falta na saúde, na educação, na ciência ou na ajuda à economia, para injetar na TAP redimensionada, com milhares de despedimentos inevitáveis, menos aviões e menos atividade, sem no entanto explicar ao país que apenas o fará porque reverteu uma privatização que vários governos tentaram, mas só um conseguiu concretizar".

Já na educação, aludindo aos resultados do TIMMS (Trends in International Mathematics and Science Study) dos estudantes do 4.º ano de escolaridade em Ciências e Matemática, "é um dos casos lastimáveis de fuga às responsabilidades e da ausência de humildade para corrigir políticas que, manifestamente, se revelaram desadequadas".

O antigo primeiro-ministro vai mais longe lembrando que o facto de o governo de António Costa "ter preferido culpar" o Executivo de Passos ("e que já terminou funções há mais de cinco anos") por estes resultados, "além de ridículo, apenas serve para sublinhar como o populismo e o facilitismo podem animar o debate político, mas sempre acabam por desqualificar as políticas públicas e por impor um ónus sobre as gerações futuras que enfraquece o país e que acabará por gerar maiores desigualdades e injustiças económicas e sociais entre os portugueses".

São estes três exemplos - SEF, TAP e Educação - "que não teriam ocorrido nos termos em que ocorreram se os valores éticos e o exemplo cimeiro de responsabilidade tivessem ocupado um resultado de destaque".

Regresso à política ativa?

Não raras vezes, Pedro Passos Coelho é "lançado" por figuras do centro-direita para um regresso à cena política ativa. Não bastassem estes exemplos de críticas ao atual governo, atípicas desde que deixou a liderança do PSD, Pedro Passos Coelho assume (figurativamente ou não) uma responsabilidade para com as novas gerações. Mas já lá vamos...

Nesta sessão onde fez o rasgado elogio de Alfredo da Silva, fundador do grupo CUF, Passos nota que "o peso demasiado da nossa dívida pública e privada, bem superior em termos brutos a mais de 700 mil milhões de euros, apenas poderá ser progressivamente minimizado e constituir um menor travão às nossas ambições de crescimento se soubermos atrair muitos verdadeiros empreendedores como Alfredo da Silva, portugueses e estrangeiros".

E aí voltam as críticas implícitas ao governo socialista. "Não é crível que possamos ser bem-sucedidos neste desiderato apenas por nos acharmos os melhores do mundo ou merecedores inatos de todas as felicidades. Se não conseguimos fazer até aqui suficiente e sustentadamente, nestes últimos 200 anos, talvez seja útil ver melhor e com mais atenção o que fizemos de menos bem e o que devemos mudar para que o resultado seja diferente no futuro. Sem fugas à responsabilidade, sem desculpas ou passa-culpas infantis", sublinha Passos.

Até porque, nota o antigo governante, "se somos dos países mais antigos da política de coesão, seremos em breve, se tudo continuar como até aqui, o que mais distante se apresentará de todos os outros, incluindo os da coesão e daqueles em que as desigualdades de rendimento mais se apresentarão vincadas".

Questionando ironicamente "que Europa é esta que só prejudica Portugal em termos relativos", Passos dá o mote se não será "finalmente conveniente perguntarmo-nos que Portugal é este que não consegue fugir à cauda da Europa quando praticamente todos os outros conseguem". "A resposta terá de ser dada por nós próprios, olhando para dentro da sociedade portuguesa e mudando o que é preciso", sublinha.

Para Passos, "o conjunto das reformas e transformações que precisamos operar na dimensão interna e sobre as nossas instituições não podem deixar de ser comandadas e refletidas na nossa política externa, acabando com a duplicidade de estratégias e discursos, uns feito para inglês ver, outros para a exaltação inconsequente do faz-de-conta que somos fantásticos quando nem nos damos sequer ao trabalho de dar qualquer continuidade e sustentação ao esforço de mudar o essencial, talvez com medo da penalização mais imediata dos eleitores ou das clientelas políticas ou dos interesses instalados".

E o regresso ao palco da política ativa poderá ou não estar para breve? Bem, Passos assume uma responsabilidade para com as novas gerações. Desde logo, porque as novas gerações devem saber, na opinião do antigo primeiro-ministro, que "a continuarmos como até agora, só poderão contar cada vez menos com o Estado, simplesmente porque este não conseguirá estar à altura das suas responsabilidades".

No entanto, a chave está no modo como terminou a intervenção de mais de meia hora na Academia de Ciências: "É da nossa estrita responsabilidade moral não deixar as novas gerações sozinhas nesta tarefa e nesse esforço que será tanto maior quanto o peso do legado de omissões que temos eticamente o dever de evitar".

Estará Passos pronto para assumir essa "responsabilidade moral"? Agora resta esperar para ver, uma vez que, como é seu apanágio, não fez declarações à margem.

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