Dos "espiões" ao "universo ultraconservador". Será este o tempo de "Chicão"?

Francisco Rodrigues dos Santos, mais conhecido por "Chicão", é o mais novo dos candidatos à liderança do CDS e traz consigo uma vontade de rutura e uma agenda ultraconservadora. Já foi destacado como um dos jovens europeus mais promissores pela Forbes, mas será um promissor líder para o CDS?

Ambição. Para o bem ou para o mal, esta é uma palavra que assenta que nem uma luva em Francisco Rodrigues dos Santos que, com 31 anos, se apresenta como o mais novo candidato a presidente do CDS-PP no congresso deste fim de semana. Na política por inspiração do avô, que foi autarca do PSD em Oliveira do Hospital, o candidato começou nestas lides em 2012, ano em que ingressou na Juventude Popular (JP), organização que lidera desde 2015.

E foi precisamente na liderança da JP que começou a ganhar visibilidade, seja pelas ideias e pela agenda que trouxe consigo, seja pelas polémicas em que se envolveu. Desde logo, serviu-lhe como montra internacional: a Forbes distinguiu-o , em 2018, como um dos mais promissores jovens abaixo dos 30 anos na Europa na categoria de direito e política. A justificação? Conseguiu ultrapassar a fasquia dos 20 mil militantes tendo, sob sua alçada, duplicado o número de filiados.

Filho de uma advogada e de um oficial do exército, a disciplina militar está presente desde tenra idade, pois foi interno no Colégio Militar onde fez o ensino básico e secundário. Para o ensino superior, decidiu-se pelo Direito na Clássica, em Lisboa, sendo hoje advogado numa sociedade da capital. E no eixo Carnide-Cidade Universitária, houve tempo ainda para uma paragem no Campo Grande: fez parte do conselho diretivo do Sporting de Frederico Varandas até dezembro, altura em que se demitiu para se focar na corrida à liderança do CDS.

Pelo caminho, ganhou experiência junto de outro centrista - Pedro Mota Soares - ao ter trabalhado como adjunto no Ministério do Emprego, Solidariedade e Segurança Social do governo de coligação PSD/CDS.

E se "ambição" é uma palavra que assenta que nem uma luva, "polémico" podia ser o seu nome do meio. Nos bastidores do CDS não faltam criticas à forma de agir de Francisco Rodrigues dos Santos onde lhe é apontada a veia de controlador.

"Ele espalha pela sala os seus espiões para ver quem bate palmas e quem não bate, quem troca mensagens com quem", diz uma fonte centrista à TSF. "Todas as pessoas que se manifestam contra ele têm telefonemas a seguir", acrescenta essa mesma fonte que prefere não ser identificada.

Aliás, são três as fontes que contam à TSF que esta prática se estende das ações públicas às redes sociais onde existe "uma tropa de combate, às vezes mesmo quando são críticas bem fundamentadas".

E se esta é uma prática que vem da liderança da JP, dentro do partido este modo de ação tem causado alguns anticorpos. "Falta-lhe experiência para perceber que uma coisa é uma organização de juventude, outra é o partido", dizem à TSF.

Defensor de um CDS como "a casa grande da direita popular, social, democrática, arejada e moderna", Francisco Rodrigues dos Santos deixou claro no último congresso que olha para o partido bem firme à direita: "Da direita que conquista o centro, que sabe imprimir-lhe rumo e conceder-lhe identidade e não do centro que toma conta da direita, a neutraliza e descaracteriza". "É este o lugar das novas gerações e este é o sentido que o partido tem de assumir", garantia à época o dirigente da JP.

Mais do que assumir o CDS como força da direita, Francisco Rodrigues dos Santos não tem pudores em afirmar-se contra o socialismo. Numa iniciativa comemorativa dos 44 anos da JP, sublinhava que o partido é "o contrapeso, negação e antítese" do socialismo. "Não se combate o fogo com champanhe e é preciso escolhermos os valores e irmos para o campo de batalha vencer esta guerra civilizacional", notava Chicão.

"A política em Portugal não é igual a uma pizaria onde a base é sempre a mesma - o socialismo - e só mudam os ingredientes, que é como quem diz os toppings, que são mais alaranjados ou mais rosé, mas que não servem nem satisfazem o apetite das necessidades do nosso país", disse o agora candidato mostrando o menu com que vai à luta nestas eleições.

Universo ultraconservador

Nos últimos anos, Francisco Rodrigues dos Santos tem vindo a ganhar destaque na comunicação social com posições conservadoras em relação aos temas ditos fraturantes. Do aborto ao casamento entre pessoas do mesmo sexo, passando pela eutanásia, o centrista ganhou espaço com esta agenda "que há muito tempo que não era do CDS".

Uma figura do partido, que prefere não ser identificada, lembra à TSF que o agora candidato a líder "tem ganho notoriedade pelas posições que toma", assumindo "um discurso assente na moral e nos bons costumes". "O tom, as referências, as formas de falar, são todos próprios de um universo ultraconservador", nota. E isso nunca foi negado, pelo contrário.

Numa mesma entrevista em 2016, ao jornal i, o líder da JP dizia que o aborto "devia ser criminalizado", mostrou-se "francamente contra a adoção por casais homossexuais" e considerou que a união entre dois homens ou duas mulheres não se devia chamar "casamento".

Noutro momento, defendeu a "educação para a abstinência sexual nas escolas" e, já no final da legislatura passada, foi dos mais ruidosos contra o despacho do governo sobre a aplicação de medidas sobre a identidade de género nas escolas (e que, vulgarmente, ficou conhecido como o "despacho das casas de banho").

Nas redes sociais, Francisco Rodrigues dos Santos publicou um texto em que descontextualizava a letra da lei para fazer valer a posição contra as medidas do governo, dizendo que o executivo queria transformar o ensino em Portugal na sua "rave privada". Na altura, o tema chegou mesmo à pré-campanha com Assunção Cristas, na SIC , a não querer responder sobre a posição de Francisco Rodrigues dos Santos.

Sobre eutanásia, a posição é, naturalmente, contra. Isso também foi vincado de forma veemente no último congresso: "Se nos perguntam se defendemos a vida, responderemos sim. Defendemos a vida do embrião ao idoso, dos mais saudáveis aos menos saudáveis, porque acreditamos que a solução para os que sofrem é cuidar, não é matar. Opomo-nos à eutanásia!", disse do púlpito.

E as ideias disruptivas não ficam por aqui. Em 2018, em declarações ao Público , Francisco Rodrigues dos Santos defendeu o corte do financiamento dos partidos com políticos corruptos nas suas fileiras. "Os partidos não terão uma atitude suficientemente ativa no combate à corrupção se um eleito seu for condenado e apenas perder o mandato - porque será substituído por outro da lista. É preciso passar a punir os partidos com a perda de financiamento", defendeu.

Tendo crescido na esfera pública com estas posições, "Chicão" chega à campanha interna dos centristas tentando moderar o discurso, lembrando, numa entrevista ao Público e à Renascença, que "a maior parte desses temas perderam a atualidade".

Centrando a mensagem nas ideias pró-vida e pró-família, Francisco Rodrigues dos Santos é visto nos corredores do partido como alguém "que mudou muito de há uns anos para cá" e que esta "tentativa de moderação não condiz com o próprio".

"Temos um Francisco antes e depois de ser candidato", diz fonte centrista à TSF, notando que isso também "está a gerar algum desconforto junto de apoiantes". Esta tentativa de moderação é vista, em algumas franjas centristas, como "um sinal de que já não é o presidente da JP", mas alguém que "poderá vir a ser o presidente do partido".

Espírito de combate

Se há coisa que as intervenções de Francisco Rodrigues dos Santos têm mostrado ao longo dos últimos tempos é que ele tem um grande "espírito de combate". Nos bastidores, fala-se do candidato como símbolo de uma "rutura" e de um "espírito aguerrido". Mas se há quem veja alguns pontos positivos nesta estratégia de "Chicão", há também quem considere que "a capacidade de trabalho e obsessão com os objetivos" tenham um lado negativo. A começar com a ideia de uma "ambição muito grande" e que se confunde com o próprio ego.

E esse, diz uma outra fonte, poderá ser o problema para Francisco Rodrigues dos Santos, porque "aliada a essa ambição" está "uma certa imaturidade". Sublinhando que o mais novo candidato desta corrida "deixou a sua marca em termos de liderança na JP", esta figura do CDS, ouvida pela TSF, considera que esta é uma "candidatura fora de tempo".

"O Francisco precisava de outra maturidade e de outro tempo que permitiriam que, daqui a uns seis, sete anos, tivesse uma capacidade que não tem hoje em dia", diz. Prevendo que, se Francisco Rodrigues dos Santos ganhar esta corrida, "será uma liderança curta", este militante do CDS nota que "este congresso pode retirar mais do que aquilo que lhe pode dar".

Certo é que, contra tudo e contra todos, o "ambicioso" Francisco Rodrigues dos Santos está na linha da frente e com capacidade para chegar à liderança do CDS. Se este é ou não o tempo dele, já não falta muito para se saber.

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