Em 2021 como em 2020: "Hoje em dia governa-se para os likes"

Paulo Portas afirma que "democracia está, em certo sentido, transformada numa gritaria", visando as redes sociais e repetindo uma ideia que já vinha da anterior convenção do MEL. Quem esperava ouvi-lo falar sobre o futuro da direita portuguesa saiu desiludido, apenas deixou uma farpa aos populismos tanto de esquerda, como de direita.

Paulo Portas chegou cedo, mas não começou a intervenção a horas. Porquê? Porque esteve numa pequena conversa, em privado, com Pedro Passos Coelho. Nenhum deles falou, mas o simbolismo (e, sobretudo, a imagem) está lá. Passos, que nega um regresso à política ativa ("Nada disso, nada disso..."), Portas, que nem responde aos jornalistas, mas vai analisando do púlpito que "a democracia está, em certo sentido, transformada numa gritaria".

E gritar não é aquilo que Portas vem fazer. Quem esperava ouvi-lo discorrer sobre a direita portuguesa veio ao engano. O antigo líder do CDS fez uma análise ao género daquela que tem vindo a fazer todas as semanas no espaço de comentário que tem na TVI. Desde logo, com a receita para o pós-pandemia: "Só sairemos desta crise, em particular uma economia como a portuguesa, com recurso aos instrumentos da globalização. A saber: comércio aberto, atração de investimento e promoção da inovação".

Ao longo de 40 minutos, Portas aponta os erros de uma União Europeia que se deixou ultrapassar na inovação, por exemplo, nas vacinas contra a Covid-19. Nota até que, ao nível da retoma económica, tanto os EUA como a China souberam dar a volta muito mais rapidamente do que a União Europeia, que vai, no curto prazo, ficar órfã de liderança, com a saída de cena de Angela Merkel.

Receita dada para o futuro - usar os investimentos da globalização -, com Paulo Portas a aproveitar para chamar a si a moderação. Afinal, o mundo não precisa de populismos: "Dos 12 piores casos no mundo [na gestão da pandemia], nove têm ou tiveram, durante o ano de 2020 e caminho de 2021, governos populistas ou de coligação com populistas à esquerda e à direita".

"Esta crise provou que os governos, direta ou indiretamente, populistas não sabem gerir situações complexas", aponta o histórico centrista.

E cá dentro como lá fora, ou vice-versa, Portas centra-se na internet para continuar o raciocínio no apelo à moderação. "As organizações das vanguardas nas redes sociais, no plano estritamente político, levam ao triunfo das opções mais extremas e à rarefação da moderação porque ninguém tem likes por ser moderado e ninguém é aplaudido por moderar um compromisso", sublinha.

Considerando que "a democracia está, em certo sentido, transformada numa gritaria onde não há nem longo prazo nem passado, é tudo um instante, uma indignação e uma emoção, apenas a última antes da próxima", não parece a Paulo Portas que desta forma se consigam garantir "condições de bom governo".

Se em 2020, nesta mesma convenção, o antigo vice-primeiro-ministro sublinhou que "governar para os likes está muito na moda" e que "governar às vezes gera likes, outras vezes não", em 2021 a coerência no discurso mantém-se. "Hoje em dia governa-se para os likes, não se governa para o sentido comum e para o interesse geral, hoje em dia, governa-se dependente da gritaria nas redes", destacou Portas já no fim da intervenção.

"Isso prejudica a capacidade de convivência numa democracia e perverte o essencial da convicção democrática. Eu quero oferecer uma solução melhor do que o meu adversário, eu não quero eliminar o meu adversário", conclui o antigo líder do CDS, que sobre partidos e política nacional nada disse. Pelo menos, diretamente.

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