"Erro crasso. Ideia de ilegalizar o Chega é estúpida e irracional"

António Barreto, convidado da entrevista semanal TSF/DN, defende que o partido de André Ventura só deve ser ilegalizado se cometer crimes "por ação".

O sociólogo, escritor e antigo ministro, António Barreto considera "um erro crasso" o pedido de ilegalização do partido Chega.

Em agosto, dizia que o Chega não o assustava, no final do ano escreveu que se dá demasiado palco a André Ventura. Essa visibilidade foi o que lhe garantiu tantos votos? Surpreendeu-o o resultado de Ventura nas presidenciais?

Apenas por dois ou três por cento, não é propriamente uma surpresa, foi um pouco mais. Mas continuo a pensar muito seriamente no que disse. O Chega, por enquanto, é um conjunto de fantasias hipertrofiadas, fantasmas hipertrofiados. E vive muito do medo que os democratas e as esquerdas têm da direita e da extrema-direita, do fascismo, dessas coisas do passado. Mas também vive dos defeitos dos democratas e da esquerda. E cada vez que - na justiça, na educação, na saúde, na igualdade - as esquerdas ou os democratas cometem erros ou têm defeitos, o Chega aparece.

Isso explica o resultado?

Penso que sim. A eficácia eleitoral do Chega, até agora, deve-se em grande parte ao que os democratas e as esquerdas fizeram. Repare, qual foi o contributo político, a ideia nova, o projeto que entusiasma a população, o novo grande programa político, social e económico que trouxe ao país? É um zero absoluto. São ideias batidas, completamente banais, um capital de resmunguice e protesto enorme que faz demagogia e a tudo promete tábua rasa. Em vez de ideias, têm vassouras, varrem tudo. Este grupo de pessoas não me parece capaz de capitalizar entusiasmo político, esperança, expectativa ou coesão social. Vive de resmunguice e protesto - que é um capital importante - e dos defeitos dos democratas.

E faz sentido tentar ilegalizar o Chega ou isso só dará mais força a quem o segue?

É um erro crasso e absoluto. A democracia é o regime de todos, incluindo os não democratas. Se os democratas não entendem isto de uma vez por todas, continuarão a errar tanto quanto a extrema-esquerda ou a extrema-direita. O Chega só deve ser ilegalizado se cometer crimes - e crimes por ação, não por pensamento, ideias ou comício. A ideia de ilegalizar o Chega é totalmente estúpida e irracional.

E acredita que o acordo de governo nos Açores pode vir a acontecer também no governo da República? E, nesse caso, deve ser um acordo de papel passado?

Poder pode, eu gostaria que não acontecesse, que em Portugal nem esquerda nem direita dessem palco e cena a um partido como o Chega no governo, que não acontecesse de forma nenhuma.

Já aconteceu nos Açores.

Pode acontecer. É a vida.

Mas há indícios de que pode?

Bom, Rui Rio deu a entender que não era uma hipótese a pôr de parte. Tenho pena que ele tenha dito e pensado isso.

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