Europa, "como se vê, não estava preparada" para as consequências da guerra

Marcelo Rebelo de Sousa assinala que "temos vindo a tratar a pandemia (de Covid-19) como se tivesse acabado", apesar de não ser possível saber se está a caminho uma "minivaga", e alerta que a guerra "é outra" pandemia, também global.

O Presidente da República advertiu esta terça-feira que os "custos na vida das pessoas" derivados da guerra na Ucrânia "já começaram e vão continuar nos próximos tempos" e alertou que "não têm comparação problemas com guerra e sem guerra", destacando que a Europa e muitos países não estavam preparados para as consequências.

"Há uma coisa que se sabe: alguns custos na vida das pessoas já começaram e vão continuar nos próximos tempos. E quando dizemos próximos tempos, não sabemos o que são os próximos tempos. É verdade que muitos problemas já existiam, mas não têm comparação problemas com guerra e problemas sem guerra", advertiu Marcelo Rebelo de Sousa.

O Presidente da República falava aos jornalistas no Palácio de Belém, depois de ter assistido a um encontro entre o fotógrafo Alfredo Cunha e alunos do 11.º e 12º ano de uma escola de Ferreira do Alentejo, no âmbito do programa "Artistas no Palácio de Belém".

Na ótica de Marcelo Rebelo de Sousa, a guerra na Ucrânia, "além de ser um choque psicológico, político, diplomático", é também um "choque económico, financeiro e social" que, apesar de "não se saber como é que acaba" nem que "custos terá", terá impacto na vida das pessoas.

"Temos uma realidade de guerra com consequências que ninguém sabe medir. Neste momento as previsões foram todas suspensas, quer dizer: prever se isto vai crescer assim, isto vai ser assim, ninguém pode dizer", indicou.

Retraçando as diferentes crises económicas que se têm vivido em Portugal no século XXI, Marcelo Rebelo de Sousa afirmou que houve crises portuguesas, "crises internacionais com reflexos em Portugal", dando o exemplo da crise despoletada em 2008 nos Estados Unidos, e alertou que a crise provocada pela pandemia ainda "continua".

"Nós temos vindo a tratar a pandemia como se tivesse acabado - não sabemos se não haverá ainda uma minivaga, como havia nas outras gripes, entre o outono e o inverno - mas, a somar a isso, há mais uma outra, e esta é outra tem um problema é que, tal como a pandemia, é global", frisou.

Questionado pelos jornalistas se considera que os portugueses estão preparados para enfrentar as consequências da guerra, o chefe de Estado respondeu: "Para ser sincero, é como com a pandemia, ninguém estava preparado para esta guerra, no sentido de que era uma hipótese, era um cenário, não se sabia como, quando e se podia haver ou não podia haver".

"Para as consequências, a Europa, como se vê, não estava preparada, e muitos países do mundo não estavam preparados, quer na energia, no fornecimento energético, quer no funcionamento dos mercados, e sobretudo porque ainda se estava a fazer recuperação do tempo da pandemia", acrescentou.

Interrogado se considera que a União Europeia deveria preparar um novo programa de recuperação e resiliência, semelhante ao aprovado durante a pandemia, para responder ao impacto da guerra - uma proposta avançada pelo Presidente francês, Emmanuel Macron -, Marcelo Rebelo de Sousa respondeu que "a Europa está certamente neste momento já a ver como é que é possível, dentro das disponibilidades existentes, ir acompanhando a situação que se criou".

"Isso está a acontecer, aliás o ritmo de reuniões importantes, é um ritmo nunca visto, e as pessoas pensam 'é para aplicar sanções', não, é para resolver problemas também da resposta para os europeus. Isso está a acontecer permanentemente, só que a resposta tem de ir acompanhando os problemas, e os problemas vão mudando, não direi todos os dias, mas a um ritmo muito, muito acelerado", afirmou.

O Presidente da República abordou ainda os problemas que os Governos estão a encontrar, incluindo o português, no que se refere à substituição de "fornecimentos que viriam da Rússia ou da Ucrânia" por "outros fornecimentos", alguns deles "proibidos pelo direito europeu" que carecem de "autorização europeia para se poder importar".

"Há que encontrar, na energia, substitutos para -- felizmente não temos uma grande exposição, mas temos uma exposição -- aquilo que tem que ser substituído, e isto acontece em vários setores, e não é de um momento para o outro, porque envolve muitos países, não envolve só um país", afirmou.

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