Freitas do Amaral, o fundador do CDS que quase chegou a Presidente da República

Foi o primeiro presidente do CDS, mas também passou pelo governo de Sócrates. Morreu Freitas do Amaral.

No ano em que Mário Soares era "fixe", Freitas do Amaral queria levar Portugal "prá frente". Naquela que foi a eleição presidencial mais disputada de sempre, em 1986, faltaram a Amaral poucas décimas para a vitória, mas a derrota não lhe traçou o futuro. A sua vida esteve sempre intimamente ligada à vida política.

Diogo Pinto de Freitas do Amaral morreu hoje aos 78 anos, vítima de uma doença oncológica. Estava internado desde dia 16 de setembro nos cuidados intermédios no Hospital da CUF, em Cascais.

Nascido na Póvoa de Varzim, de família vimaranense, em 21 de julho de 1941, doutorou-se em 1967 e ascendeu a catedrático em 1984. Foi conselheiro de Estado, Vice-Primeiro-Ministro, Primeiro-Ministro interino, duas vezes Ministro dos Negócios Estrangeiros e Ministro da Defesa Nacional.

No plano internacional, foi presidente da UEDC - União Europeia das Democracias Cristãs (1981-83) e presidente da Assembleia Geral da ONU (1995-96). De regresso a Portugal, foi cofundador e primeiro diretor da Faculdade de Direito da Universidade Nova de Lisboa.

Em 1986, Freitas do Amaral correu o país em campanha para as eleições presidenciais sob o slogan "prá frente Portugal", cantado, entre outros, pelo Coro de Santo Amaro de Oeiras e por Nicolau Breyner.

Foi a eleição para a Presidência da República mais concorrida de sempre. Depois do afastamento de Salgado Zenha e Maria de Lourdes Pintassilgo (respetivamente, com 20,88% e 7,38% dos votos), disputou-se pela primeira vez em Portugal uma segunda volta.

Amaral alcançou então 48,8% dos votos, não os suficientes para derrotar o socialista. Com 51,2% da votação, Mário Soares acabaria por tornar-se o 16.º chefe de Estado português, sendo depois reeleito em 1991 para um segundo mandato.

"Foi, de todas as campanhas eleitorais, a mais importante da democracia portuguesa", destacou Marcelo Rebelo de Sousa em junho deste ano. Dificilmente se voltará "a encontrar uma campanha tão importante para a vitalidade da democracia como aquela."

Por ocasião do lançamento do terceiro livro de memórias políticas de Freitas do Amaral, intitulado "Mais 35 anos de democracia - um percurso singular", que abrange o período entre 1982 e 2017, o Presidente da República recordou o seu "percurso singular" de intervenção política, afirmando que acentuou valores, ora de direita ora de esquerda, face às conjunturas, mas sempre "no quadro amplo" da democracia-cristã.

Como fundador e primeiro presidente do CDS, Freitas do Amaral foi um dos líderes dos quatro principais partidos políticos da Democracia portuguesa, em 1974 e anos seguintes, juntamente com Mário Soares, Francisco Sá Carneiro e Álvaro Cunhal.

O Partido do Centro Democrático e Social nasceu em 19 de Julho de 1974, "correspondendo ao apelo de amplas correntes de opinião pública, abrindo-se a todos os democratas do centro-esquerda e centro-direita": segundo a Declaração de Princípios assinada também por Adelino Amaro da Costa, Basílio Horta, Vítor Sá Machado, Valentim Xavier Pintado, João Morais Leitão e João Porto.

Já em janeiro de 1975, Freitas de Amaral foi eleito primeiro presidente do CDS, num muito exaltado I Congresso, no Palácio de Cristal, no Porto. O edifício chegou a estar cercado por populares, segundo o CDS, da extrema-esquerda, e foram sequestrados congressistas, incluindo membros das democracias-cristãs Europeias durante 15 horas.

Diogo Freitas do Amaral fez parte de governos da Aliança Democrática (AD), entre 1979 e 1983, mas foi-se afastando do CDS, partido de onde saiu definitivamente em 1992.

Já em 2005, aceitou ser ministro dos Negócios Estrangeiros no governo de José Sócrates, o que lhe valeu o desagrado do CDS, partido que tinha fundado. Na altura, sob liderança de Paulo Portas, o então secretário-geral Mota Soares justificou a decisão de retirar o retrato de Freitas do Amaral da entrada da sede do partido e enviá-la, por correio, para sede do PS, no Largo do Rato, em Lisboa, como meio de "combater a hipocrisia política" e criticar a lógica do "dá-me o teu apoio que eu dou-te um Ministério". O retrato haveria de regressar à sede centrista, em 2007, quando José Ribeiro e Castro (antigo diretor da campanha presidencial de Freitas, em 1986) liderava o CDS.

No terceiro livro de memórias escreve que a passagem pelo Governo liderado por José Sócrates lhe fechou a porta a outros convites: "Foi com a direita zangada comigo, e com Sócrates desiludido por eu ter saído do seu Governo pelo meu pé, que terminou, no verão de 2006, a minha carreira de homem público. Apesar de múltiplos serviços prestados ao país durante mais de três décadas, fiquei sozinho".

Sobre as memórias que eternizou em livro, o antigo histórico centrista garantiu não se tratavam de um ajuste de contas, mas sim um testemunho feito "à sua maneira", tal como cantava Frank Sinatra.

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