"Depois de ter havido Geringonça, pode haver sempre Geringonça"

O desempenho de António Costa e o sucesso e futuro da Geringonça foram tema de debate na última noite em mais uma edição da Circulatura do Quadrado. Numa noite em que também se analisou o acordo conseguido à esquerda para a nova Lei de Bases da Saúde, o comentário moderado por Carlos Andrade começou com um balanço feito por Jorge Coelho sobre a legislatura que agora termina.

As sondagens para as Legislativas de outubro - em especial a análise à possibilidade do PS atingir uma maioria parlamentar - e o acordo alcançado por PS, Bloco de Esquerda e PCP para a nova Lei de Bases da Saúde estiveram no centro da discussão de mais uma Circulatura do Quadrado.

Em jeito de balanço do quatro anos de Governo da Geringonça, Jorge Coelho classifica-os como bons. Partindo do exemplo da taxa de desemprego, o antigo ministro lembra que, no início da legislatura, esta se cifrava nos 12,6 e já "reduziu para menos de metade", sendo mesmo "uma das taxas mais baixas de sempre". A criação de "milhares postos de trabalho líquidos", as "contas mais sólidas", a diminuição do défice "de 3% para 0,2% - o mais baixo da democracia portuguesa" e a subida das pensões são também pontos destacados. "Não apareceu o diabo", concluiu Jorge Coelho.

De olhos postos em outubro, Pacheco Pereira acredita que depois de uma Geringonça... pode vir outra: "A grande inovação política dos últimos anos foi a Geringonça. A Geringonça é um ponto sem retorno."

Até porque, na ótica do social-democrata, devido à falta de "drama", o PS não vai conseguir alcançar a maioria absoluta.

"Há algum drama que vá polarizar as eleições? Não há. Existe alguma forte reação, a favor ou contra o primeiro-ministro? Não existe." Assim sendo, Pacheco Pereira arrisca vaticinar que este cenário se mantém até à data das eleições e, por isso, "a probabilidade de haver uma maioria absoluta é menor. Na realidade, para haver alguma maioria absoluta tem de haver alguma dramatização do processo eleitoral".

Com as cartas postas na mesa, Pacheco Pereira pensa que "o mais provável" é que em outubro "haja uma repetição" dos resultados de maio - ou seja, das Europeias.

Admite, no entanto, uma eventual "subida do PS" e que, mesmo não sabendo se "o PSD desce muito mais ou recupera um ou dois pontos", a diferença entre socialistas e sociais-democratas "será sempre muito grande". Já o CDS "tem uma crise que é difícil de superar", o PCP "na melhor das hipóteses pode esperar manter", o BE "subirá", tal como o PAN.

No caso específico do CDS, Lobo Xavier nota que "nem a própria Assunção Cristas" diz que vai ser primeira-ministra. "Para ser primeira-ministra é preciso ter os votos à direita conjuntos, do eleitorado à direita. Depois de ter havido Geringonça, pode haver sempre Geringonça. Não há nenhuma hipótese de se ter um primeiro-ministro nem ganhar eleições se não for em coligação ou com um entendimento forte."

Feita a análise ao que pode vir das mesas de voto em outubro, o painel de comentadores virou agulhas para a Lei de Bases da Saúde e para o recente acordo alcançado entre PS, BE e PCP, que deixa as PPP fora do texto.

Jorge Coelho vê o acordo como algo positivo, até porque permite ao PS terminar a legislatura em união com a esquerda. "O PS, o PCP e BE estão muito satisfeitos com o acordo, dá para que cada um diga que estão ali os seus objetivos."

Assim, dá "mais um folgo positivo" a "quem lidera a Geringonça", que é António Costa. "É um acordo que teve algo de muito positivo da parte de quem o desenhou, para que não houvesse uma rutura nos partidos que apoiam o PS e para que não houvesse também uma cedência naquilo que são princípios fundamentais."

Lobo Xavier vê, por seu lado, no acordo da Lei de Bases da Saúde a capacidade estratégica e a "tática política" de António Costa. Nos últimos "seis a oito meses" de António Costa, Lobo Xavier considera que o primeiro-ministro esteve "umas vezes à esquerda, outras vezes à direita". Exemplificando: "Antes de chegar a este hipotético acordo para a Lei de Bases da Saúde, todo o PS - incluindo o primeiro-ministro - esteve a dizer cobras e lagartos do PCP e do BE, especialmente deste último."

Por isso, Costa "deu luz verde" a essa troca de galhardetes porque "como quer os votos do centro e, de cada vez que vê o PSD fragilizado, quer comer uma fatia maior do centro" vai alternando entre mostrar-se "centrista e equilibrado" ou "e talvez tenha exagerado ao dizer mal do Bloco e da Geringonça, mas joga na possibilidade dos encontros com a esquerda". Esta é uma tática que, segundo o centrista, "dá às pessoas, mesmo às da direita, a ilusão de que António Costa é centro".

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