Francisco, o 'guerreiro' que não sonhou com Europa, mas leva urgências na bagagem

O eurodeputado do PAN está a representar o partido português que conseguiu um lugar pela primeira vez na história. Francisco Guerreiro recusa-se a fazer oposição sentado e garante que os Verdes vão fazer valer as suas ideias.

Francisco Guerreiro é, por esta altura, o homem que desperta mais curiosidade entre os portugueses que estão no Parlamento Europeu, o eurodeputado que está a representar um partido que chegou pela primeira vez à Europa.

Apesar da 'euforia' inicial devido à chegada à Europa, Francisco Guerreiro descreve-se como um "cidadão comum", realizado profissional e pessoalmente, mas a "mesma pessoa" do que antes da vitória histórica.

Agora, na altura de se mudar para Bruxelas, prepara-se para gerir a vida "de modo diferente", uma logística que tem de conciliar entre família e trabalho. "É um processo difícil, vou ficar afastado dos que mais amo, mulher e filhas... É obviamente complicado e o menos bom desta aventura", conta em entrevista à TSF, na semana em que tomou posse como eurodeputado.

É preciso "boa vontade, esforço e dinamismo" e uma forma ecologista de pensar e decidir: a casa tem de ser perto do Parlamento Europeu para "poder ir a pé, de transportes públicos ou de bicicleta".

O tema da casa ainda levou a risos, quando o eurodeputado do PAN foi questionado se seria mais difícil arranjar casa em Lisboa ou em Bruxelas. "Felizmente já tenho casa em Lisboa (risos), mas sim, o que vemos é que o mercado imobiliário está muito mais estruturado e não está tão volátil às pressões que existem em Lisboa com a pressão turística", justificou.

Ainda assim, foi mais longe, explicando que "são mercados muito parecidos e na prática em Lisboa e noutras urbes as pessoas sentem-se impelidas pelo mercado em si, por não haver uma grande regulação".

O que diria ao Francisco de há dez anos?

Em dez anos, muita coisa mudou. Mas o que diria o Francisco Guerreiro eurodeputado ao jovem de 24 anos de há uma década? "[Diria] Para fazer exatamente o que fez porque está a correr bem", atirou, com um sorriso, admitindo que está "bastante satisfeito" a nível profissional, "muito mais a nível familiar".

"Não ambicionava ser eurodeputado nem entrar na política. Fi-lo porque realmente vi um projeto que me agradava e que é diferenciador e fiz de tudo para poder ajudar o projeto e tenho-o feito ao longo dos últimos anos. Nunca tive grandes planos, um objetivo na vida senão tentar ajudar ao máximo as pessoas e a minha comunidade e isso foi-se fazendo, sempre fui uma pessoa muito ativa, mas na política pude fazê-lo de um modo mais concreto. Foi algo muito natural, as portas foram-se abrindo e o caminho foi sendo feito", conta.

O membro do PAN sente que está a "trabalhar para um bem mais" e define-o como a "maior crise climática" de sempre, reiterando que é preciso "tentar fazer com que cada vez mais pessoas percebam a urgência de alterarmos o nosso paradigma e de fazermos algumas alterações que têm mesmo de ser feitas porque são necessárias para conseguirmos travar este avanço muito substancial que tem havido de degradação do ambiente".

Conseguido o primeiro objetivo europeu - ter um representante -, Francisco Guerreiro prepara-se agora para "entrar na máquina de um modo positivo, tentando pôr um bocadinho de areia". "Somos só um no meio dos Verdes europeus e entre os 751 eurodeputados, mas cremos que vamos fazer um trabalho muito positivo", afirma, frisando que há muita necessidade de explicar às pessoas o trabalho que é feito em Bruxelas.

Dentro da família europeia, onde "falta bastante a área da proteção animal", o PAN pretende fazer um "trabalho muito profícuo" nessa questão. "Estamos cá para ajudar a reforçar os verdes nessa área", admite o eurodeputado.

A legislatura e a oposição (não sentada)

E para os próximos cinco anos, enaltece, "o mais urgente é o combate às alterações climáticas, que haja metas concretas e mais audaciosas para fazermos uma transição económica e social para um modelo realmente sustentável".

Porém, Francisco Guerreiro tem dúvidas do trabalho que está a ser feito. "Pelo que as famílias europeias aqui estão a fazer hoje, a votar nos partidos do costume, não nos parece que isso vá acontecer, sinceramente", alerta.

O reforço dos direitos humanos é outra das grandes bandeiras do partido. "A Europa como um polo de reforço do Estado de direito e que consiga influenciar democracias em todo o mundo, melhorando-as e tornando o processo democrático mais participativo, mais aberto e mais transparente", explica Francisco Guerreiro, acrescentando que a terceira área urgente é mesmo a "corrupção e transparência".

Com a chegada a Bruxelas pela primeira vez, e depois de já terem conseguido a eleição para um deputado para a Assembleia da República, o eurodeputado garante que se traz "sempre o peso do voto e a responsabilidade".

"É óbvio que cada vez mais pessoas percebem da urgência de conseguirmos concretizar essa transição. Não estamos sozinhos e muitas vezes não avançamos mais porque as restantes famílias não o querem e vivem num paradigma completamente diferente, é o paradigma do crescimento infinito, da exploração pela exploração e pelo desrespeito pelos mais basilares elementos da sustentabilidade. É muito difícil às vezes trabalhar, mas trabalhamos em consenso e tentar sempre acrescentar valor", explicou.

Porém, Francisco Guerreiro garante que vai levar para a Europa o que tem sido feito dentro de portas. "Não nos serve de nada passar cinco anos na oposição e não conseguirmos fazer nenhum tipo de travão. Vamos lutar pelas nossas causas, tentar implementar as nossas medidas e, na medida do possível, influenciar as outras políticas para que sejam o menos danosas possíveis", assegurou. "Não vamos ficar cinco anos sentados a fazer só oposição, isso é certo", reiterou.

Multiplicação, um hábito do PAN

E tal como André Silva tem feito no Parlamento, Francisco Guerreiro quer multiplicar-se pelos corredores europeus, fazendo com que se olhe para os Verdes como "uma força positiva de acrescento, que concretiza quando se quer fazer alterações". "Não queremos a retórica, queremos a ação e isso faz parte do nosso apanágio e da nossa dinâmica política", atirou o eurodeputado.

"Temos trabalhado muito, vamos reforçar o gabinete, a nossa comunicação, o nosso trabalho, porque vamos integrar-nos na comissão de agricultura, pescas e orçamento. Vai ser um trabalho muito exigente, mas tenho a certeza que com a equipa que vamos montar vamos conseguir dar resposta às necessidades e vamos tentar fazer diferente para que as pessoas percebam não só o trabalho que estamos a fazer, mas a importância de reforçarmos a Europa e de trabalharmos em conjunto para colmatarmos estes grandes problemas da sociedade", concluiu o deputado.

A aventura só agora começou, mas Francisco Guerreiro deixa escapar que os nervos não fazem parte da personalidade, nem antes nem durante a chegada ao Parlamento Europeu, e por isso está preparado para representar os ideais do PAN em Bruxelas e Estrasburgo.

A jornalista viajou a convite do Parlamento Europeu.

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