Berardo assegura que já pagou 231 milhões à banca a "troco de nada"

O empresário rejeita a ideia de ter ficado "com muitos milhões" dos contribuintes portugueses.

O empresário José Berardo garantiu esta segunda-feira que já pagou, quase só em juros, cerca de 231 milhões de euros à banca a "troco de nada", rejeitando a ideia de ter ficado "com muitos milhões" dos portugueses.

"Nem eu, nem nenhuma entidade entidade ligada a mim, alguma vez tivemos ao nosso dispor [...] dinheiro que tenha sido emprestado pela CGD [Caixa Geral de Depósitos], ou por outros bancos", assegurou José Berardo numa carta aberta ao presidente da Assembleia da República, Eduardo Ferro Rodrigues, a que a Lusa teve acesso.

O empresário indicou que todo o dinheiro foi perdido "por ter sido imediatamente usado na aquisição de ações" e acrescenta que já pagou à banca "cerca de 231 milhões de euros em troco de nada."

"E como se não bastasse o ataque ao meu património, tenho agora que defender-me do ataque ao meu bom nome", vincou numa carta com cinco páginas, em que considera que foram violados os seus direitos fundamentais na audição na comissão parlamentar de inquérito à Caixa Geral de Depósitos (CGD) em 10 de maio.

"É caso para dizer que a casa do povo fechou a porta à violação dos meus direitos fundamentais, mas logo abriu a janela a essa mesma violação", defendeu, referindo-se ao facto de o presidente da comissão de inquérito ter acedido ao seu pedido e ter mandado sair da sala as televisões e as rádios, acabando a audição por ser transmitida por várias estações, com sinal do Canal Parlamento.

Em 23 de maio, o empresário conhecido como Joe Berardo tinha admitido ter-se excedido durante a sua audição, ressalvando que não tinha a intenção de "ofender", e hoje afirmou que respondeu "no mesmo tom de desafio a perguntas também elas provocatórias, quando não vexatórias".

Para Berardo, a divulgação das imagens causou danos à sua honra pessoal, e faz com que a sua posição em vários processos judiciais que lhe foram movidos "dificilmente possa vir a ser apreciada com o necessário distanciamento", uma vez que os tribunais, "ainda que inconscientemente, não são imunes aos efeitos da opinião pública".

O empresário madeirense apelou ainda a Ferro Rodrigues que não permita que outro cidadão seja sujeito a semelhante situação e que exija aos deputados das comissões de inquérito "que não se desviem do seu fim de julgar atos políticos e de quem decide ser gestor de empresas públicas, aproveitando as mesmas para mera promoção partidária".

"Eu penitenciei-me dos meus excessos. Os excessos de outros intervenientes [...] foram mero brio parlamentar?", questionou.

No mesmo documento, Joe Berardo fez referência a declarações de Manuela Ferreira Leite ao jornalista José Alberto Carvalho, da TVI, dias após a comissão de inquérito, quando defendeu que as comissões parlamentares não têm poderes judiciais, mas apenas de avaliação política.

"Citei a Dra. Manuel Ferreira Leite quanto ao atual funcionamento das comissões de inquérito porque não ignoro que a minha credibilidade ficou afetada pela transmissão televisiva ilícita da minha inquirição e do aproveitamento comunicacional dos seus momentos menos felizes nos últimos meses", lamentou.

O empresário referiu ainda que nunca foi gestor público ou agente político, notando que "não aceita" que a comissão em causa faça julgamentos políticos ou que o "pressione" a revelar factos que não estejam "relacionados com atos dos gestores da CGD e dos responsáveis políticos e públicos pela supervisão da mesma".

Em 20 de abril, CGD, BCP e Novo Banco entregaram no Tribunal Judicial da Comarca de Lisboa uma ação executiva para cobrar dívidas de Joe Berardo, de quase 1.000 milhões de euros, executando ainda a Fundação José Berardo e duas empresas ligadas ao empresário.

O valor em dívida às três instituições financeiras totaliza 962 milhões de euros.

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