Mal pagos e sem condições: estudo revela insatisfação dos diplomatas portugueses

Diplomatas mostram-se frustrados com salários e falta de meios num estudo realizado ela Universidade Autónoma de Lisboa (UAL), onde metade da opinião pública inquirida defende que a classe diplomática portuguesa não é eficiente. Estudo defende menos embaixadas na Europa e mais na Ásia.

Um estudo exaustivo e em moldes inéditos sobre a estrutura diplomática portuguesa, "ensaiando certas hipóteses da sua possível reconfiguração", propõe menos embaixadas de Portugal na Europa mas mais na Ásia, considerando que "os novos tempos obrigam a redefinir as funções diplomáticas, além das tradicionalmente consagradas desde a Convenção de Viena de 1961".

Ponderados diversos fatores, o estudo da UAL, que é apresentado esta quinta-feira perante o ministro Augusto Santos Silva, admite a possibilidade de encerramento de "cerca de 20 embaixadas portuguesas, metade das quais na Europa", mas não deixa de referir que se trata de uma "dinâmica de redução/concentração/expansão", defendendo no velho continente "representações de tipo novo" e, ao mesmo tempo, "abrir novas embaixadas noutros continentes, designadamente na África subsariana, concretamente na Costa do Marfim e no Quénia, e na Ásia, por exemplo, no Cazaquistão, no Vietname ou no Sri Lanka". Embaixadas radiais (representações de âmbito regional), embaixadores políticos e temáticos (para a tecnologia, alterações climáticas ou cibersegurança, por exemplo) e Casas de Portugal, com objetivos de propósitos de representação oficial, são outras das propostas apresentadas.

Falta de meios e fracos salários

O estudo, que vai ser apresentado publicamente na quarta-feira, ao final do dia, pela Universidade Autónoma de Lisboa, foi realizado por dezasseis académicos e coordenado por Luís Moita, Luís Valença Pinto e Paula Pereira.

O estudo sobre a Estrutura Diplomática Portuguesa, além das propostas de mudança da representação portuguesa no mundo, propõe também alterações, quer no perfil dos diplomáticos, quer no número de embaixadas e apostas na presença portuguesa. Com apoio técnico mas sem patrocínio ou qualquer apoio financeiro do Ministério dos Negócios Estrangeiros (MNE), o estudo inclui um inquérito aos diplomatas portugueses.

Dos 400 que constituem os quadros dos Negócios Estrangeiros, 109 responderam, sendo considerado uma amostra representativa do corpo diplomático português. Os resultados revelaram que os diplomatas se sentem frustrados com o salário e falta de meios, equipamentos e recursos financeiros nas embaixadas, bem como de instruções por parte do palácio das Necessidades, além das dificuldades relacionadas com a vida familiar.

Os diplomatas inquiridos queixam-se da "orgânica da carreira profissional e da insuficiência da estrutura diplomática", em recursos humanos e financeiros, equipamentos e comunicações. Lamentam, também, "o peso das tarefas administrativas" nas funções e reconhecem o papel da diplomacia económica como inseparável da representação diplomática. A ligação da Agência para o Investimento e Comércio Externo de Portugal (AICEP) MNE é avaliada positivamente pelos diplomatas, que reconheceram, também, o papel positivo dos cônsules honorários. O sucesso da diplomacia portuguesa no panorama internacional é atribuído à formação e ação dos diplomatas.

Diplomatas pouco preparados

O estudo contém, ainda, um segundo inquérito, respondido por 132 empresas, sobre os diplomatas e o papel da diplomacia portuguesa. Metade das empresas inquiridas alegou que os diplomatas portugueses não estão suficientemente preparados, nem são eficientes no apoio aos agentes económicos.

Um terço das respostas consideram positiva a diplomacia económica tanto para as exportações como para a captação de investimento estrangeiro, e quase metade das empresas inquiridas considera -a positiva para a promoção turística. A maioria considera vantajosa a ligação da AICEP ao MNE e que as embaixadas integrem os seus delegados nos países estrangeiros. No entanto, cerca de metade dos inquiridos defende que "os diplomatas portugueses não estão suficientemente preparados, nem são eficientes no apoio aos agentes económicos".

O estudo desenvolveu, ainda, uma sondagem de opinião pública, onde foram feitas 600 entrevistas telefónicas. As respostas apontam para valores médios quanto à eficácia das embaixadas portuguesas, à competência e, também, ao empenhamento dos diplomatas e ao seu grau de atualização e conhecimento sobre os países onde estão colocados.

Este inquérito revela que metade dos inquiridos acha positiva a escolha de embaixadores fora da carreira diplomática. Este facto não agrada à maioria dos diplomatas que participaram no inquérito deste estudo da Universidade Autónoma de Lisboa e que consideraram a representação diplomática de Washington a mais importante da diplomacia portuguesa, "seguida pelas de Berlim, Brasília, Paris, Luanda, Pequim, Londres e Bruxelas".

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