Jerónimo de Sousa admite "um ou outro descontente" interno

O secretário-geral comunista voltou a alerta para os riscos de uma maioria absoluta do PS.

O secretário-geral comunista admitiu hoje haver militantes descontentes com a participação na denominada "geringonça", embora frisando que o sentimento geral é de satisfação, e atacou algumas posições do PAN, defendendo que "Os Verdes" são o verdadeiro partido ecologista.

Numa entrevista conduzida pela jornalista Catarina Pires, no centro de trabalho comunista Vitória, em Lisboa, Jerónimo de Sousa, que concorre juntamente com "Os Verdes" às eleições legislativas de 06 de outubro na Coligação Democrática Unitária (CDU), protagonizou uma emissão pela internet concorrente com o debate televisivo entre o líder socialista e atual primeiro-ministro, António Costa, e o presidente do maior partido da oposição, PSD, Rui Rio, nas plataformas e redes sociais da CDU, com algumas questões colocadas por cidadãos.

"Para ser sincero, admito que haja um ou outro descontente, um ou outro com dúvidas ou preocupado, num processo até complexo, mas dizer que vamos sofrer consequências por aquilo que fizemos? Então que se diga, em abono da justiça, que, se foi por causa do que fizemos, propomos e conquistámos, então teríamos um 'resultadão' nas eleições para a Assembleia da República", disse o líder do PCP.

Para o secretário-geral comunista, a atual solução política de posições conjuntas entre PS e BE, PCP e PEV teve poucos custos ou resistências internos.

"Ademais, ando pelo país inteiro, contactando as organizações do partido, militantes, amigos da CDU, e o sentimento não era esse. Antes pelo contrário, era de satisfação, de ver que tinha valido a pena votar na CDU pelo nosso papel e avanços alcançados. Para além de que já nem vou discutir, porque foi uma decisão da direção do partido, uma orientação definida pelo congresso. Não há coisa mais democrática que esta orientação determinada pelos próprios militantes?", justificou.

Jerónimo de Sousa sublinhou ainda "o papel do PEV como verdadeiro partido ecologista", ao qual os órgãos de comunicação social "não davam cobertura" e era "marginalizado no plano mediático", dando como exemplos a "campanha contra o amianto nas escolas", a defesa da "reutilização de plásticos" ou a "defesa da floresta".

Para o líder comunista, "o capitalismo não é verde" e protagoniza a "predação de recursos à escala planetária".

"Hoje aparece aí muita gente a pôr-se em bicos de pés. 'Os Verdes' foram pioneiros e com grande intervenção no plano da defesa do ambiente", insistiu.

"Você pode gostar de comer vegetais, eu também gosto, mas a maioria dos portugueses que estiver a ouvir isto diz assim: 'está bem, mas um bom bife também calha bem'. Esta visão repressiva de impor a um povo - com a sua cultura, a sua gastronomia, as características próprias que o país tem -- [e] pensar que a produção nacional, designadamente de carne e de leite, são um mal a abater, nós não concordamos nada com isto", afirmou, numa clara referência ao dirigente do PAN e deputado único daquela força partidária, André Silva.

Jerónimo de Sousa declarou que não conhece "ninguém que não goste de proteger e defender os animais, mas não se adulterem nem subvertam princípios fundamentais do relacionamento do Homem com o próprio animal".

"Ouvi um candidato, que agora descobriu a ecologia e o ambiente, a dizer uma coisa espantosa: 'termine-se a produção de carne e de leite'. Uma proposta destas está a dizer, por exemplo, ao povo açoriano para fechar as ilhas e vir embora porque não têm meios de subsistência. O caminho tem de ser outro. Temos de afirmar a produção nacional", defendeu.

"Naturalmente, temos preocupações em relação às culturas intensivas, a produtos que não são escoados porque os grandes interesses agroalimentares não deixam prevalecer a pequena produção, temos um mundo de problemas. Mas continuo a considerar que é possível uma outra política ambiental onde o Homem possa conviver com a natureza e outros seres", disse, novamente tomando o PAN como alvo.

Ao longo da entrevista, o líder comunista voltou a defender que "avançar é preciso" e "andar para trás não", reiterando que "um PS com mãos livres", ou seja, maioria absoluta, pode levar a retrocessos nas medidas políticas, pois é vulnerável "à política de direita e imposições da União Europeia".

Ainda assim, fez um balanço positivo dos últimos quatro anos de legislatura, valorizando os avanços conseguidos em devolução de rendimentos e direitos, frisando o contributo de PCP e PEV.

A nível nacional, há quatro anos, a CDU foi a quarta força política mais votada, com 8,3% (445.980 votos), sendo que PSD e CDS-PP (36,9%) também concorreram coligados, e alcançou 17 mandatos na Assembleia da República, imediatamente atrás do BE (10,2%) e do PS (32,3%).

Desde que Jerónimo de Sousa é o líder dos comunistas (novembro de 2004), a CDU conseguiu sempre ir aumentando o número de deputados no parlamento: 14 em 2005, 15 em 2009, 16 em 2011 e 17 em 2015.

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