'Geringonça' não se repete "tal e qual", mas Jerónimo considera acordos à esquerda

O secretário-geral do PCP apontou o dedo ao Governo pelo 'chumbo' na generalidade da proposta de Orçamento do Estado para o próximo ano.

O secretário-geral comunista sustentou na quarta-feira que o "grau de compromisso" do partido é decidido pelo "nível de convergência" do Governo, defendendo que foi o PS que quis acabar com o entendimento dos últimos seis anos.

"O nível de convergência é que determina o grau de compromisso. Este é um princípio fundamental. O que for positivo [no futuro], naturalmente, terá o apoio do PCP. Se entendermos que não é positivo, votaremos contra", disse Jerónimo de Sousa, em entrevista na RTP3, na noite de quarta-feira.

Esta ideia foi repetida pelo dirigente comunista três vezes ao longo de quase uma hora de entrevista, onde também revelou que a decisão do Comité Central do partido sobre o Orçamento do Estado foi "unânime".

O secretário-geral do PCP apontou o dedo ao Governo pelo 'chumbo' na generalidade da proposta de Orçamento do Estado para o próximo ano, reafirmando a principal crítica de intransigência do executivo socialista feita pelos comunistas nas últimas semanas.

"Obviamente o PS, o Governo do PS, se quisermos... Houve momentos em que o processo de aproximação, que estava a ser muito lento, de repente parou. Está aqui, aceitam ou não aceitam, numa forma e numa atitude que nos levou a pensar: 'Afinal qual era o objetivo do PS? Queriam um Orçamento ou não?'", elaborou Jerónimo de Sousa.

Interpelado sobre o apelo feito pelo primeiro-ministro de viabilizar a proposta orçamental na generalidade para ser possível melhorá-la na especialidade, o membro do Comité Central do PCP respondeu essas palavras de António Costa não passavam de engodo.

"Em todos nós há uma dose de ingenuidade, mas todos nós já perdemos a inocência (...). Houve um momento, e agora já sou eu a fazer um juízo de valor, em que o PS começou a pensar se não era melhor não viabilizar", sustentou.

Das reuniões com o Governo, Jerónimo de Sousa concluiu que, apesar de o Governo "até mostrar interesse" por algumas propostas apresentadas pelos comunistas, acabava por "retroceder e mostrar que não há nenhuma evolução".

"Considerámos que o PS não teria Orçamento porque não queria", completou.

O secretário-geral comunista também rejeitou a ideia de que o partido seja responsável pelo quadro de crise política e até ironizou: "Que grande PCP! Consegue com dez deputados fazer o que 100 não fazem".

A culpa, referiu, é do Governo por rejeitar nas negociações propostas, como, por exemplo, um aumento significativo do salário mínimo e das pensões, o reforço do Serviço Nacional de Saúde (SNS), ou até a revogação da caducidade da contratação coletiva, que é "um cutelo" sobre os trabalhadores.

Contudo, o Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa, também partilha a culpa por ameaçar com eleições legislativas antecipadas na sequência do 'chumbo' do Orçamento do Estado.

"Essa questão colocada pelo Presidente da República só compromete o Presidente da República e a solução não estava nas mãos do PCP, estava no próprio Governo do PS que desistiu de conversar connosco na parte final", sustentou, acrescentando que o chefe de Estado foi "desadequado", já que "nem com esse anúncio, nem com o silêncio do Governo, se resolve um único problema nacional".

Havia outras hipóteses, continuou, nomeadamente a apresentação de outro Orçamento do Estado que poderia garantir a continuidade da legislatura: "Reformulasse a proposta de Orçamento e, possivelmente, haveria mais espaço para continuar esse diálogo. [O Governo] não quis, apenas, daquela forma bem elaborada, [António Costa] quis dizer: 'Eu quero uma maioria absoluta para me livrar destes incómodos'".

Jerónimo de Sousa não fechou a porta a entendimentos no futuro semelhantes àqueles dos últimos seis anos, mas advertiu que uma solução à esquerda "não se repetiria tal e qual" e rejeitou com um vincado "não" uma situação limite de haver ministros comunistas a fazer parte de um Governo socialista.

Contudo, o dirigente do PCP considerou que a apelidada 'geringonça' "valeu por aquilo que se conquistou, por aquilo que se alcançou" ao nível da reposição de direitos dos portugueses.

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