Juventude e participação política. Que futuro?
Participação Política da Juventude em Portugal

Juventude e participação política. Que futuro?

A participação política dos jovens é um pilar essencial para assegurar o normal funcionamento da democracia. São eles a ponte para o futuro e, por isso, a TSF conversou com os líderes das juventudes partidárias, militantes, apoiantes e jovens apartidários sobre as principais conclusões do estudo "Participação Política da Juventude em Portugal", promovido pela Fundação Calouste Gulbenkian.

Ouvidos pela TSF, os jovens dizem encarar as redes sociais como "mais uma ferramenta de mobilização" que veio "democratizar o acesso à informação" e a que os partidos "devem dar especial atenção", mas não descartam a importância do "contacto cara a cara" para que "a luta não desapareça tão rápido como aparece". Questionados acerca da instrumentalização dos partidos sobre os mais jovens, preferem olhar para as "jotas" como "um instrumento útil" onde as preocupações dos mais novos encontram um "espaço de construção de soluções" que "culmine em conquistas".

As opiniões das juventudes partidárias alinham-se quando falamos sobre a aplicação de quotas para jovens na Assembleia da República, que unanimemente consideram "não ser o instrumento certo" para que os mais novos consigam mais representatividade.

Para discutir as principais conclusões do estudo e pensar o futuro, têm a palavra, na TSF, Miguel Costa Matos, secretário-geral da Juventude Socialista; Alexandre Poço, presidente da Juventude Social Democrata; Leonor Rosas, deputada na Assembleia Municipal de Lisboa pelo Bloco de Esquerda; Francisco Camacho, presidente da Juventude Popular; Adriana Cardoso, cofundadora da academia Próxima Geração; Francisca de Figueiredo, apoiante da Iniciativa Liberal; Gonçalo Veiga, membro da Comissão Política da Direção Nacional da Juventude Comunista Portuguesa, e João Maria Jonet, autor do blogue "O Parágrafo".

Miguel Costa Matos

Miguel Costa Matos é economista, ecologista e de esquerda. Aos 27 anos é secretário-geral da Juventude Socialista (JS) e deputado do Partido Socialista (PS) na Assembleia da República (AR). Esteve ao lado de António Costa contra António José Seguro nas eleições primárias de setembro de 2014, e tornou-se assessor económico do primeiro-ministro, em 2017 até 2019.

À TSF, explica que as juventudes partidárias devem ser encardas como "um instrumento útil" através do qual as preocupações e os problemas dos mais jovens encontram um "espaço de construção de soluções" que "culmine em conquistas".

O deputado esclarece que "não há uma divisão" entre o partido e a juventude. Para Miguel Costa Matos, o que a JS oferece é "autonomia" para discutir causas "diferentes" das do partido e "pressioná-lo" a adotá-las.

À semelhança do Dia da Defesa Nacional, propõe o Dia do Eleitor, dedicado ao esclarecimento dos jovens sobre "como exercer os seus direitos". Costa Matos quer estimular a criação de Associação de Estudantes nas escolas para promover o gesto de "escolher representantes" que "por si só já é um ensinamento" sobre o que é "ser representado" e "ser representante".

Questionado sobre a aplicação de quotas para jovens, o deputado admite que é uma "mais-valia" ter "mais jovens no parlamento", mas não é "o instrumento certo" para o conseguir. "Estão outras quotas em funcionamento" e por isso "é importante perceber como podem ser geridas" em função da "construção das listas".

Miguel Costa Matos diz à TSF que o ingresso numa juventude partidária "estimula a liberdade de pensamento" e é, simultaneamente, um "gesto de coragem".

Alexandre Poço

Alexandre Poço assumiu a liderança dos jovens laranjas aos 27 anos, e dois anos depois avança para uma segundo mandato na Juventude Social-Democrata (JSD) e deputado do Partido Social Democrata (PSD) na AR.

À TSF, revela estar atento às conclusões do estudo e pensa que "incorporá-las" nas organizações partidárias pode tornar as juventudes mais "atrativas". Poço quer "garantir que JSD é atrativa e moderna na forma como comunica com as novas gerações" e que "vai ao encontro das preocupações dos jovens".

O presidente da JSD diz estar a assistir a uma "constante despolitização e despartidarização das escolas, que tem reflexos na elevada abstenção das novas gerações" e sugere que as escolas se abram às organizações políticas de forma "pedagógica" e "não partidária" ou "panfletária". O deputado sublinha que "não há democracia sem partidos políticos", sugerindo às escolas que não impeçam a entrada de jovens políticos.

Sobre a aplicação de quotas para jovens, Alexandre Poço explica que no PSD já estão a garantir "estatutariamente" que o modelo é cumprido nas listas, numa sinergia entre a juventude e o partido.

Questionado sobre as limitações que a integração numa juventude partidária pode causar aos mais jovens, o apelo de Alexandre Poço é para que "experimentem filiar-se, para confirmar se é mesmo assim".

Leonor Rosas

Foi no quarto andar de uma instituição de ensino superior, palco de inúmeras lutas do Bloco de Esquerda (BE), que a TSF conversou com Leonor Rosas, marxista e feminista. No ano em que votou pela primeira vez em eleições autárquicas foi eleita deputada pelo BE na Assembleia Municipal de Lisboa (AML).

À TSF, explica que as juventudes partidárias tendem a "perpetuar" uma dicotomia entre o que é "a política dos pequeninos e a política dos grandes", o que leva Leonor Rosas a sublinhar que os jovens podem e devem falar de tudo. A bloquista é cautelosa na forma como vê as redes sociais, e prefere encará-las como "mais uma ferramenta de mobilização" a que os partidos "devem dar especial atenção".

Sobre a aplicação de quotas para jovens, frisa que a prioridade deve ser a "integração" dos jovens em todos os grupos setoriais dos partidos e propõe uma "renovação etária frequente" e "verdadeira" nestas estruturas, como forma de atrair eleitorado mais jovem. Enquanto deputada na AML já sentiu o estigma da idade, quando classificaram as suas intervenções de "delírios juvenis" e foi até aconselhada "a regressar ao jardim-de-infância".

Francisco Camacho

Francisco Camacho é presidente da Juventude Popular (JP) e deputado do CDS na AML. Aos 28 anos já conta com dez anos de experiência política.

À TSF, o jovem admite que "teve sempre vários desafios" para se afirmar no partido "e nem sempre foi bem compreendido". Hoje, já sem "obstáculos", espera uma "reformulação interna" de todos os partidos sob pena de ficarem "desconectados das preocupações do eleitorado jovem".

O presidente da JP aponta a "agenda material dos partidos" como principal fator no "divórcio" dos jovens com a política convencional, e defende que uma nova abordagem de comunicação pode voltar a casar os mais novos com os partidos.

Sobre a aplicação de quotas, considera "mais interessante" a ideia do voto preferencial, em que o eleitorado, nas listas partidárias, vota diretamente num rosto.

Camacho conta ainda à TSF a sua experiência na AML, que "podia ter uma representação mais jovem" já que o "retrato sociológico da cidade também tem uma percentagem significativa de jovens". Para o centrista, o cenário da capital é desafiador para as novas gerações.

Adriana Cardoso

Adriana Cardoso define-se apartidária e sem filiação política. Aos 22 anos trouxe para Portugal a Próxima Geração, uma academia apartidária e sem fins lucrativos que quer formar jovens capazes de responder aos desafios da democracia. Estuda Ciências Farmacêuticas e não tem dúvidas de que a formação é parte da receita para combater a iliteracia política.

O objetivo da academia é formar, no espaço de um ano, 200 jovens, entre os 16 e os 30 anos, através de programas de formação tendencialmente gratuitos. À TSF, Adriana Cardoso explica que, no projeto, "qualquer pessoa pode ter formação e competência política num espaço fora da orla dos partidos".

Como se aplica um fundo europeu? Quais são as competências da Câmara Municipal? E as da Junta de Freguesia? Para Adriana, estas questões "não são de acesso livre e não se aprendem numa aula de ciência política".

A academia Próxima Geração já tem candidaturas abertas e quer reunir um grupo "diversificado" de 30 alunos. A academia vai percorrer o país para garantir que "ninguém fica de fora". Adriana Cardoso garante que a academia tem sido "muito bem recebida" e que já conta com "muitas candidaturas" por parte de jovens e adultos que querem ajudar na dinamização do programa.

A jovem fala ainda sobre a grande abstenção dos jovens: "A falta de abertura do processo político-partidário, num ciclo vicioso que se mantém, é o principal problema", o que justifica o afastamento dos jovens da participação política convencional.

Francisca de Figueiredo

O sotaque denuncia um berço nortenho: Vila do Conde, mas foi em Lisboa, no auditório da Fundação Calouste Gulbenkian que a TSF falou com Francisca de Figueiredo. Estudante de Medicina, com ideias liberais, mas sem filiação política. Fez parte da Comissão de Honra da Iniciativa Liberal (IL) nas últimas legislativas e com João Cotrim de Figueiredo, partilha o nome e as ideias.

Para Francisca de Figueiredo, o também jovem partido, IL, é "uma lufada de ar fresco na comunicação política". A aposta dos liberais numa "mensagem de esperança" direcionada aos eleitores mais novos é, para a estudante, a "receita do sucesso" num partido com uma média de idades que ronda os 36 anos.

De acordo com a jovem, a postura "acessível" da figura do líder da IL contribui para a "humanização" do partido, que tem aproximado mais novos e adultos que estavam alheados da vida política.

Para Francisca de Figueiredo as redes sociais estão a "democratizar o acesso à informação" política e partidária, mas não descarta a importância da mobilização dos jovens nas ruas. As duas estratégias devem permanecer "aliadas", considera.

Gonçalo Veiga

Gonçalo Veiga é licenciado em Ciência Política e Relações Internacionais e, atualmente, é membro da Comissão Política da Direção Nacional da Juventude Comunista Portuguesa (JCP).

À TSF, explica que o envelhecimento do partido "é um mito" e relembra o comício do passado dia 6 de março, que contou com "muitas centenas de jovens", cenário que "contraria a ideia do estudo, de que os jovens não participam em comícios".

Para Gonçalo Veiga, a JCP não está a perder atratividade, e garante que "nos últimos dois anos juntaram-se centenas de jovens" à organização.

O comunista é cuidadoso na forma como olha para os movimentos e práticas políticas não convencionais: por um lado "demonstram que a juventude quer participar", por outro "não devem desviar o caminho da participação democrática" e "desligar" os jovens da ação.

Segundo o dirigente da JCP, a organização contabiliza inúmeras denúncias de jovens que se negam a distribuir folhetos de propaganda nas instituições de ensino superior, e noutros espaços com "medo de serem penalizados". O jovem dá o exemplo de um caso numa escola secundária em que "jovens foram fechados no gabinete do professor, porque queriam fazer uma reunião geral de alunos ou recolher assinaturas".

Gonçalo Veiga alerta que "limitar a voz ativa nos sítios onde estudam, trabalham" no percurso político dos jovens, "culmina na abstenção". Discorda de que as juventudes partidárias aprofundem divisões com os temas discutidos pelo partido e garante que "os jovens não são um megafone da posição do partido".

Sobre a participação política online, Gonçalo garante que "as redes sociais são uma grande ajuda, mas se não forem acompanhadas de um contacto cara a cara, de um trabalho organizado, a luta desaparece tão rápido como aparece".

João Maria Jonet

João Maria Jonet é autor do blogue "O Parágrafo" e uma "máquina de resumos" para os amigos e para a família na hora de ir votar. Foi da necessidade de "simplificar uma era complicada" que nasceu o "Parágrafo", que hoje já ultrapassa os 17 mil seguidores na rede social Instagram.

À TSF, o jovem explica os motivos da origem do blogue e o desafio de ser simples sem ser simplista, na rapidez que o digital exige. A literacia política nas escolas é, para João Maria Jonet, um "privilégio das grandes cidades".

Sobre a aplicação de quotas para jovens, recusa "dividir a sociedade pelas experiências de vida", até porque, aos 23 anos, diz portar-se como se tivesse 65. "Ler jornais", "ouvir podcasts", "ver vídeos no YouTube" e, naturalmente, acompanhar "O Parágrafo", são as recomendações de João Maria Jonet.

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