Livre, leve e crítico: o retrato de Rio na estrada

Começou na Guarda e acabou nos Açores, não fez campanha à noite e tentou sempre ter contacto com a população. Crítico das rajadas de promessas de Costa, também ele disparou rajadas, mas em direção ao Partido Socialista. Pior resultado do que o de há quatro anos não vai ser fácil de acontecer, há mesmo esperança na inversão e na conquista de mais câmaras. Assim foram duas semanas de Rio na estrada.

Desde o dia zero na liderança do PSD que Rui Rio apontou a mira às autárquicas de 2021. É certo que nunca pôs a fasquia na vitória para não correr o risco de ser chamado de irrealista, mas sempre defendeu maior implementação territorial, reforço de presidentes de câmara, de vereadores e de presidentes de junta. Vai ou não conseguir? Tudo indica que sim. Será suficiente? Veremos.

Primeiro, a estratégia de campanha. Rui Rio escolheu fazer a volta nacional durante o dia e maioritariamente em sítios onde as autarquias podem virar. Locais já no papo (e até eventualmente importantes para medir o pulso à máquina laranja para o futuro), ficaram fora do roteiro do líder.

Assim sendo não é de estranhar que não tenha ido a Braga, a Viseu ou a Aveiro. Já é mais estranho não ter dedicado nenhum dia a Coimbra onde as sondagens mostram que a capital de distrito poderá cair para o PSD, ainda por cima com a cidade dos estudantes sempre na boca: seja pela eventual transferência do Tribunal Constitucional, seja pelas promessas de Costa sobre uma nova maternidade na cidade e que foram dois dos grandes temas da campanha.

No périplo, não faltaram entradas e saídas de lojas, entradas e saídas de cafés, conversas de esplanada e distribuição de propaganda. Ao longo de 15 dias, Rio não fez outra coisa se não mostrar-se disponível para falar com as populações... pior era quando não havia população nos locais. E até aí o líder social-democrata aproveitava: é culpa do êxodo para as áreas metropolitanas e da desertificação nos territórios de baixa densidade.

Se a descentralização foi tema de sempre na cabeça de Rui Rio, as críticas a Costa endureceram durante a campanha até porque o secretário-geral/primeiro-ministro, a cada comício, deixava sempre novas promessas. Na caravana do PSD, já era piada: "vamos lá ver o que promete hoje".

Em Fafe, Rio até gargalhou ao ver na televisão que Costa prometia "investimentos de milhões na Madeira" via PRR. "Vai um barco de notas para a Madeira", ironizava Rio bem-disposto, ele que até no trato com os jornalistas se mostrou mais tranquilo do que em campanhas anteriores.

Desde pedir aos eleitores para "castigarem" o PS nas urnas até aos "tiros de metralhadora" das promessas do primeiro-ministro, Rio pede seriedade e responsabilidade na hora de ir votar.

"Têm os eleitores de dizer se vale a pena andar prometer o que não pode cumprir ou ser sério e prometer o que podemos cumprir", destacou Rio para quem "estas eleições vão mostrar a todos se são sinceras as críticas sobre os políticos que prometem e não fazem nada". De resto, ele próprio diz que só promete o que sabe que pode cumprir e que é por isso que não se alonga em promessas.

Mas, voltando à tranquilidade aparente de Rio durante a campanha, ela é sinónimo de que as coisas estão a correr bem ou é porque está em fim de linha? Ninguém sabe. No círculo do presidente, até como fez saber José Silvano na TSF, acredita-se na vitória de 20 câmaras municipais, mas até à contagem dos votos nada está garantido. E será isso suficiente para a continuidade? Só Rio sabe, mas "poucachinho" não será suficiente para cantar vitória.

Com movimentações de putativos candidatos à liderança do partido durante a campanha (Rangel e Montenegro andaram na estrada e Montenegro até quebrou aqui na TSF o silêncio em que esteve nos últimos meses), Rui Rio nunca quis colocar esse assunto na campanha.

Logo de início foi questionado, logo de início chutou para canto, remetendo apenas para o comunicado da Comissão Permanente para que não se aproveitassem estes dias para "guerras internas" ou "projeções pessoais". E essa estratégia de "chutar para canto" deverá continuar até na noite eleitoral, a não ser que o resultado seja extremo - para um lado ou para o outro - e não dê margem de manobra. De resto, foi o que fez quando perdeu as legislativas e agora já avisou que "não há nenhum terramoto num dia à noite com grandes dramas".

Ao longo dos últimos 15 dias, o presidente do PSD também quis marcar a agenda ao colocar, por iniciativa própria, o tema dos apoios sociais na campanha. Uma piscadela de olho ao eleitorado do Chega? Rio rejeita-o. "Lá vão dizer que este está como o Chega contra o Rendimento Mínimo e, por isso, é preciso dizê-lo com muito rigor e cuidado: eu não estou contra isso, estou contra isso sem rigor e sem fiscalização devida", dizia Rio em Caminha traçando a fronteira em relação à extrema-direita.

À boleia da atualidade, Rio também não deixou escapar o englobamento de rendimentos do IRS que foi notícia de que estaria a ser negociado pela esquerda com o governo ou, claro, as palavras de António Costa a prometer "uma lição exemplar" à GALP pelo modo como lidou com o fecho da refinaria de Matosinhos. Contradições de Costa primeiro-ministro e Costa líder socialista, aponta Rio, confiante de que os portugueses saberão distinguir quem é sério na hora de colocar o boletim na urna.

No fecho da campanha, dois dias pelos Açores num movimento que pode ser considerado atípico ao nível partidário. Mas até isso Rio tenta desmontar: "Comecei a tratar das autárquicas há dois anos, mas esta campanha em concreto comecei há um mês. E, se comecei há um mês, não preciso de programar o fim da campanha com uma série de autocarros para dar a entender que há muitos apoios, muita gente, trazendo autocarros de todo o lado. Não preciso", diz Rio no fecho da campanha em Ponta Delgada.

Enquanto os outros líderes partidários multiplicam-se em aparições até à meia-noite no fecho das respetivas campanhas, Rio fechou a loja mais cedo, podendo "dar-se ao luxo de encerrar nos Açores com todo o mérito e gosto pelos Açores". "Para que é que preciso de aparecer até à meia noite se ando há um mês a trabalhar nisto?", questiona Rio. E não precisa porque nele está o sentimento de missão cumprida: "Estou a fazer o melhor que sei e posso", dizia já na reta final da campanha. No domingo à noite, saberemos se foi suficiente.

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