Marcelo ao centro. Confiança sem "cheque em branco", PS "desertor" e governar com Ventura

Da confiança que não é um "cheque em branco" à deserção que tem um culpado, a noite eleitoral trouxe recados, crença e promessas de revolução à direita.

A noite foi de Marcelo. Reeleito com 60,7% dos votos, o de novo Presidente da República é o primeiro da história da democracia portuguesa a sê-lo com uma vitória em todos os concelhos do país. Nem Mário Soares, em 1991, tinha conseguido isso: faltaram-lhe nove.

A vitória adivinhava-se desde cedo. Eram 20h00 e as televisões revelavam, em sincronia, as projeções dos resultados da corrida a Belém. Os fatores comuns? Marcelo em primeiro, Ana Gomes em segundo, Ventura em terceiro e Vitorino Silva em último. Era no meio da "tabela" que surgiam as maiores dúvidas. João Ferreira, Marisa Matias e Tiago Mayan Gonçalves disputavam o quarto lugar. Começava a contagem dos votos e o país agarrava-se ao que podia para ver as percentagens a mexer.

Certo era que, com Ana Gomes no segundo lugar, André Ventura já falhara o objetivo a que se tinha proposto: o de terminar no segundo lugar, à frente da candidata independente. Mas, com o líder do Chega no terceiro lugar, o toque estava dado e Paulo Pedroso, diretor de campanha de Ana Gomes, não demorou a dar conta dele: "Esta noite vai obrigar todos os quadrantes políticos que se reconhecem na Constituição e repensar o futuro, porque não podemos ignorar que, pela primeira vez desde o 25 de Abril, há ameaças sérias à Constituição, são um perigo e não apenas uma nova ideia."

As restantes candidaturas iam hesitando em reagir aos números. Marcelo, por exemplo, foi apanhado à porta de casa e não só não quis comentar como anunciou que ainda ia jantar. Vitorino Silva foi, talvez, o mais efusivo e deu logo os objetivos como "atingidos".

Carlos César, presidente do PS, veio a público congratular-se porque a "democracia venceu na primeira volta e o extremismo de direita foi derrotado". Com apenas uma breve referência a Ana Gomes - que o partido não apoio -, escolheu deixar um alerta: André Ventura é "por enquanto, mas só por enquanto, uma ameaça maior ao PSD do que ao país".

Da candidatura de Ana Gomes vinha um primeiro reconhecimento de uma "derrota parcial": a candidata falhava em levar a eleição a uma segunda volta.

Coube a Marisa Matias a primeira grande reação na noite. E foi de desilusão. Em Coimbra, a candidata bloquista assumiu que os resultados desta noite não são os que esperava e aproveitou para deixar um alerta: "A direita está em reconfiguração e muitos eleitores de direita deste país votaram num candidato de extrema-direita." Mas a esquerda, sublinhou, também vai precisar de pensar no seu papel.

E a esquerda recebeu mais um toque. Desta feita foi de Francisco Rodrigues dos Santos. O líder do CDS veio a público reagir aos resultados destas presidenciais e, depois de felicitar Marcelo Rebelo de Sousa pela vitória, desferiu um golpe: "A esquerda volta a perder eleições depois da derrota nos Açores."

"Estamos mobilizados para as próximas autárquicas para conseguir vitórias à direita e honrar o partido", rematou o líder centrista, aparentemente satisfeito com o que via nas projeções.

Voltemos a Rans. Vitorino Silva reagia oficialmente ao seu último lugar com um convite a Marcelo Rebelo de Sousa para que fosse visitar aquela freguesia de Penafiel. O povo de Rans merece. A luta foi desigual porque desta vez concorri contra o Presidente da República que esteve cinco anos a fazer campanha", afirmou.

Hora de voltar a Lisboa. Seguia-se o PCP, com João Ferreira e Jerónimo de Sousa a assumirem as rédeas do discurso político. O candidato que dedicou grande parte da campanha à defesa e divulgação da Constituição declarou-se convicto de que trouxe a esta eleição "um contributo singular que vai perdurar para lá dos dias de hoje". E, de novo, a Constituição. "A exigência do seu cumprimento será uma questão decisiva nos próximos cinco anos."

Um dos discursos mais marcantes da noite chegou pouco depois. Rui Rio, líder do PSD, falava ao país para falar de um "esmagamento da esquerda e uma vitória do candidato do centro", Marcelo. Mas, para Rui Rio, os resultados de André Ventura não foram muito expressivos. Tinham apenas "algum significado", mas nada de "absolutamente brutal para a preocupação que referi há uns dias".

Mais. Rui Rio disse mesmo não ficar "particularmente preocupado com esta votação" porque ela "relega a esquerda, toda junta, para o patamar dos 22 ou 23%". A mensagem estava dada.

Voltemos ao Norte. Era no Porto que andava a "onda liberal", assim apelidada pela dupla Cotrim Figueiredo e Mayan Gonçalves. Ainda com alguma indefinição nos resultados finais e apenas minutos depois de ter, oficialmente, deixado Vitorino Silva para trás como candidato menos votado, Mayan Gonçalves garantia que "o extremismo, seja ele qual for ou de onde venha" não venceria nem vencerá. Mas "não será também alternativa ao socialismo", que a IL também quer combater. Certa estava uma coisa: a IL, palavra do presidente do partido, tinha feito uma "campanha notável".

E de volta a Coimbra. Depois de Marisa Matias, coube a Catarina Martins, líder do Bloco de Esquerda, falar sobre o que se passara nas últimas horas. Não havia volta a dar. O projeto do BE ficou "aquém dos objetivos".

Só faltavam os do pódio. Ana Gomes foi a primeira a quebrar o silêncio, numa altura em que Marcelo Rebelo de Sousa já tinha conduzido de Cascais até à Faculdade de Direito de Lisboa, sozinho, a conduzir o seu próprio carro, enquanto ouvia a TSF.

"A responsabilidade de falhar o objetivo é só minha." Ana Gomes reconhecia, agora de forma oficial, a incapacidade de levar estas eleições a uma segunda volta. Mas noutras coisas havia outras responsabilidades, e a candidata independente - mas apoiada pelo PAN, Livre e membros do Volt, a quem agradeceu - não deixou nada por dizer.

O aviso mais grave foi dado ao secretário-geral do PS, António Costa, que Ana Gomes acusou de ser "o principal responsável pela deserção" do partido nestas presidenciais. "Foi uma deserção que eu muito critiquei", sublinhava. Mas há mais.

Ana Gomes chamou a si, sem reservas, a responsabilidade por ter impedido que "a outra direita crescesse como alternativa" e afirmou mesmo que, sem a sua candidatura, "estaríamos todos a lamentar ainda mais a progressão da extrema-direita". E há mais críticas? Há. À esquerda, por não ter convergido. E aos decisores políticos, por terem desvalorizado estas eleições ao não garantirem que todos os portugueses podiam votar.

Chegava a hora de Ventura. Depois de mais uma confusão com jornalistas ao início da noite, veio a música, os aplausos efusivos, o sorriso e os braços erguidos em sinal de vitória, mesmo que a contagem dos votos apontasse para um segundo lugar.

Ventura passava a explica: "Pela primeira vez um partido declaradamente antissistema rompeu o espetro da direita tradicional. Há um dado que devemos realçar: esmagámos a extrema-esquerda em Portugal." Mas o líder do Chega tinha prometido demitir-se se ficasse atrás de Ana Gomes. Fá-lo-ia? Fez, à sua maneira, ao devolver aos militantes "a palavra" sobre a sua continuidade à frente do partido.

"Ana Gomes não chegou aos 13%, mas eu estou muito perto dos 12%. As empresas de sondagens têm de perceber que não é manipulando o sentido de voto que se faz política em Portugal. O João Ferreira nem no Alentejo me ganhou. Vergonha!"

Ventura recuperava uma das palavras que o catapultou para o palco mediático e a sala entrava em erupção. O rebuçado estava guardado para o fim. O líder do Chega lançava-se ao poder: "Não haverá Governo de direita em Portugal sem nós." Aviso para uns, promessa para outros. Estava dito. E Marcelo saía do carro.

Engolido pelos jornalistas à porta da faculdade, o Presidente reeleito fez o seu caminho até ao local onde discursaria. Cumprimentou e foi cumprimentado, desinfetou-se, mediu a febre e avançou. Nas mãos levava as folhas brancas com o discurso que tinha preparado durante o dia. Virou-se para as câmaras. Atrás, cinco bandeiras de Portugal. E o discurso começou com uma chamada à realidade: os mais recentes números da pandemia no país.

Marcelo Rebelo de Sousa escolheu não ignorar que estas eleições decorreram no meio de uma pandemia e optou por agradecer aos que, em segurança e com confiança, optaram por ir votar. "Deixem-me dizer, de coração aberto, como me sinto profundamente honrado e agradecido por esta confiança em condições tão mais difíceis do que as de 2016."

Mas as respostas aos adversários políticos - um em especial - não ficavam esquecidas. Marcelo não perdeu oportunidade de dizer que a confiança "é tudo menos um cheque em branco" nem de assinalar que tem de continuar a ser o Presidente "de todos e de cada um dos portugueses", um "que una, que não seja de uns, os bons contra os outros, os maus. Que não seja um Presidente de fação. Um Presidente que respeite o pluralismo e a diferença, que nunca desista da justiça social".

Marcelo também não esquecia um dos temas quentes que nasceu com a campanha: a revisão constitucional. O tema nascera com a discussão sobre a necessidade de adiar estas eleições tendo em conta a gravidade do momento pandémico no país.

Ali, o Presidente da República reeleito assumia o compromisso de "persuadir quem pode elaborar leis a ponderar a revisão, antes de novas eleições, daquilo que se concluiu dever ser revisto, para ajustar a situações como a vivida e, mais em geral, para ultrapassar objeções ao voto postal ou por correspondência, objeções essas que tanto penalizaram os votantes, em especial, os nossos compatriotas espalhados pelo mundo."

Daí para a frente, olhos no que está para vir. "Os portugueses ​não querem uma pandemia infindável, uma crise económica sem termo à vista, um empobrecimento agravado, um recuo na comparação com outras sociedades europeias, um sistema político lento a perceber a mudança, uma radicalização e um extremismo nas pessoas, nas atitudes, na vida social e política".

"Querem uma pandemia dominada o mais rápido possível, uma recuperação de emprego, rendimentos, crescimento, investimento, exportações e mercado interno. Uma perspetiva de futuro efetiva para micro, pequenas e médias empresas. Uma presidência portuguesa da UE fortalecendo o papel de Portugal na Europa e no mundo, a começar no universo da lusofonia, fundos europeus bem geridos, em transparência e eficácia, uma reconstrução que vá para além da mera recuperação, na qualificação, no clima e ambiente, no digital, mas também na demais economia, na justiça, na luta contra a corrupção, na reforma do Estado, na defesa e na segurança."

E porque daqui a três anos Portugal celebra os 50 do 25 de Abril - e ao que tudo indica, Marcelo será o Presidente em funções - ficou também um desejo em tom de aviso: "Temos de reencontrar o que perdemos na pandemia, refazer os laços desfeitos, quebrar as barreiras erguidas, ultrapassar as solidões multiplicadas, fazer esquecer as xenofobias, as exclusões, os medos instaladas. Temos de recuperar e valorizar todos os dias as inclusões, as partilhas, os afetos, as cidadanias esvaziadas pela pobreza, dependência e distância."

Marcelo voltava ao carro. Vencera as eleições com 60,7% dos votos. As paredes do Palácio de Belém - que o próprio admite ser "muito frio" - vão continuar a ouvir-lhe os pensamentos.

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