Menos pessoas, menos cravos, mais democracia. Um 25 de Abril diferente na AR

Sessão solene revestida de uma estranheza generalizada que não passou ao lado de ninguém, dos discursos às conversas de corredor. Assim se comemorou um 25 de Abril em tempos de Covid-19.

Passava pouco das 9 da manhã e as deputadas Lina Lopes (PSD) e Ana Paula Vitorino (PS) tiravam fotografias à vez em frente à tribuna do hemiciclo com cravos a decorá-la. Nos corredores do Parlamento, a calma até atípica para os tempos que correm: há mais movimento num dia de plenário do que para a comemoração do 25 de Abril.

Não só mais segurança, mas também o silêncio do acesso vedado a todos os que não estavam nas listas dos serviços do Parlamento. Até para os jornalistas com credenciação permanente, se não estivessem na lista, não poderiam entrar nas instalações.

Na sala das sessões, as galerias foram grandes demais para os convidados. Com a polémica das últimas semanas sobre o "comemora-se/não se comemora", também os convidados estiveram em número reduzido. Todos sentados a mais de dois metros do próximo convidado, incluindo Ramalho Eanes e o Cardeal Patriarca, Manuel Clemente, que assistiram à cerimónia do balcão presidencial e onde, sempre à distância de segurança, trocavam ideias antes do início da evocação solene.

Também no que diz respeito a cravos, foi uma sessão muito despida. Na bancada de imprensa, nem vê-los, nos lugares dos deputados havia um para cada um, mas um tanto ou quanto murchos a contrastar com os que decoravam a tribuna da Assembleia da República.

No total, estavam 46 deputados e 16 convidados, na bancada de imprensa, menos de 10 jornalistas. Pelo governo, apenas 4 figuras: o primeiro-ministro, António Costa, a ministra de Estado e da Presidência, Mariana Vieira da Silva, o ministro da Defesa, João Gomes Cravinho, e o secretário de Estado dos Assuntos Parlamentares, Duarte Cordeiro. Todos eles de cravo ao peito que, de resto, nas bancadas da esquerda fez parte de todos os figurinos. À direita, poucos deputados do PSD optaram por usar o cravo, exceções para a nova geração com Alexandre Poço e Hugo Carvalho com o cravo vermelho no bolso do casaco.

Também da bancada do PSD a única máscara visível: Filipa Roseta, a deputada cuja mãe, Helena Roseta, foi presa por um dia, pela PIDE, em 1973. De resto, também Porfírio Silva chegou de máscara, mas na hora de início da sessão já se tinha livrado dela.

Com as restrições em marcha, também a música se fez ouvir através de altifalantes. Em 2020, não houve lugar à banda da GNR.

Menos é mais?

Se os tempos que correm obrigaram a uma cerimónia minimalista, nos discursos da tribuna proclamou-se a importância da democracia. Repetidas vezes se ouviu a máxima de que "a democracia não está suspensa" e que, hoje mais do que nunca, é importante evocar o 25 de Abril.

Exceção feita à ala mais à direita, com CDS e Chega, em protesto contra a comemoração da data na Assembleia da República. André Ventura, de resto, foi mais longe pedindo a IV República, gerando o silêncio mais incómodo de todos na sessão. Não houve qualquer reação às palavras do deputado do Chega, apenas um abanar de cabeça do parlamentar comunista António Filipe.

E a polémica das últimas semanas sobre a comemoração da revolução no parlamento foi tema das intervenções em praticamente todos os partidos, várias foram as citações feitas de autores nacionais (Miguel Torga, Manuel Alegre ou Sophia de Mello Breyner Andresen) e até estrangeiros. Como é o caso de Luís Sepúlveda, o chileno que sucumbiu à Covid-19, mas cujas palavras ecoaram também hoje no parlamento português com a ideia de resistência. Desde logo, nas palavras do próprio presidente da Assembleia da República, Ferro Rodrigues, que fez questão de pronunciar: "os resistentes, os que fizeram do verbo resistir carne, suor, sangue, e demonstraram sem espaventos que é possível viver, mas viver de pé, mesmo nos piores momentos".

E assim se comemorou Abril em 2020, com menos quase tudo mas com mais vezes o tão importante "25 de Abril sempre".

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