Jorge Moreira da Silva
Portugal

"Não gosto de um partido incumbente, como faz Luís Montenegro"

Vivem dentro do mesmo partido, mas Jorge Moreira da Silva afastou-se de Luís Montenegro e sublinhou o que os separa: do "partido incumbente" ao "ziguezague com o Chega". Luís Montenegro não aceitou o convite do Fórum TSF para responder às perguntas dos ouvintes pelo que não pode defender-se das críticas que lhe foram apontadas pelo adversário à liderança do PSD.

A primeira: incapacidade para reinventar o PSD. "Não gosto de um partido incumbente, como faz Luís Montenegro. Sabe o que acontece aos incumbentes, definham ou encolhem", considera Moreira da Silva.

O candidato social-democrata diz que "seria um erro se o PSD estivesse agora a escolher um líder para desgastar António Costa" e voltar a mudar dentro de dois anos, a meio da legislatura.

"É muito difícil cozerem-me em lume brando. Sei a importância de manter o partido unido e mobilizado. Estou certo de que depois destes anos de divisões internas, há condições para unir, e escolher um líder que dure dez anos", explica.

Moreira da Silva quer dizer aos portugueses "que tem um plano reformador e inovador", mesmo a partir da oposição, "daí a ideia do Governo sombra": "Temos de oferecer protagonistas que consigam dar essas alternativas".

O fantasma do PSD passado

Questionado por um ouvinte sobre se vai reconhecer os erros que o PSD cometeu na última vez que foi governo, o candidato social-democrata assegura que "não vai fazer política olhando pelo espelho retrovisor" - "este é um tempo novo". O PSD foi obrigado a tomar decisões difíceis num momento de emergência, reforça. "Tem razões para se orgulhar do seu percurso, mas não pode viver da História."

Jorge Moreira da Silva diz que "faz política desde sempre", e "nunca se esqueceu das origens e da proximidade", apesar as críticas de um ouvinte de que é "mais do mesmo" e participou num governo "que colocou o país neste estado".

O candidato admite que aceita todas as críticas, "mas está a fazer campanha em nome de todos os militantes anónimos", apesar de ter Passos Coelho e Cavaco Silva como figuras centrais.

"Tive muito orgulho em fazer parte de um governo que resgatou o país do sequestro da dívida. Sei que há pessoas que ainda têm dificuldade em perceber essas medidas, porque o PSD não fez o suficiente para explicar", admite.

Moreira da Silva diz, no entanto, "que é imperdoável" que o país não tenha aproveitado o "os ventos favoráveis" desde 2016, admitindo que o PSD vai voltar a ser chamado para "resolver os problemas".

O social-democrata volta a sublinhar que "vai unir o partido", reforçando que o Governo-sombra vai ser apresentado em julho "para unir os que o apoiaram, mas também os que não o apoiaram".

Uma "visão pós-troika", depois de ter estado no "cockpit" com Passos Coelho

Moreira da Silva garante que "está muito mais confiante" de que vai vencer as eleições para a liderança do PSD, com as semanas de campanha a contribuírem para o aumento das expectativas. O candidato lembra que os militantes social-democratas estão a escolher um possível candidato a primeiro-ministro.

"Durante todos estes anos fui pensando o país. Tenho um plano para Portugal que tem sido desenvolvido há mais de dez anos, com uma visão pós-troika", diz.

Moreira da Silva recorda que esteve no Governo, com Passos Coelho, "numa situação muito difícil", durante a crise financeira. O candidato à liderança do PSD explica que o seu passado político lhe dá "uma vantagem" depois de ter estado no "cockpit com Passos Coelho e Durão Barroso a fazer reformas".

"Fui contemporâneo de Marcelo Rebelo de Sousa, fui secretário de Estado de Durão Barroso e Santana Lopes e ministro de Passos Coelho, além de ter trabalhado com Cavaco Silva. O que não podem dizer é que estive só com uma fação do partido", atira.

Moreira da Silva diz ainda que "sempre teve pensamento próprio", e lembra que quando foi eurodeputado, "ainda nem se falava das alterações climáticas", e fez aprovar várias medidas a favor do ambiente, "contra vários líderes europeus".

"Ninguém faz tudo certo. Mas chego ao fim do dia e sinto-me confortável em apresentar resultados. Espero que isso tenha algum valor nestas eleições", acrescenta.

"Escancarar as portas do PSD" a todos os "laranjinhas"

Questionado sobre os "mecanismos para abrir o partido à sociedade", dando mais poder aos militantes, Jorge Moreira da Silva explica que o PSD pode servir como modelo também aos outros partidos. Moreira da Silva diz que é preciso "escancarar as portas do PSD" aos militantes, "para que percebam que o partido é deles", permitindo ainda a militância temática: "há muitos laranjinhas que não são militantes".

O candidato explica que uma das opções é abrir a capacidade de decisão, como na liderança do partido, a eleitores que não são militantes.

Diz também que não fez comícios, mas sim "sessões e diálogo com os militantes", e tem tido um bom feedback, diz, de muitos que lhe aplaudem o "estilo aberto, moderno, cosmopolita". Inclusive recorda um episódio em que se reuniu com jovens e alguns levavam consigo bandeiras de outros partidos. "Se o PSD mudar e se abrir as pessoas dão-nos o benefício da dúvida."

Moreira da Silva lembra que defende, "há muitos anos", eleições primárias abertas, em que todos "os que votam no PSD" possam votar no líder do partido.

O facto de não contar com o apoio de nenhum presidente da distrital, não é, para o candidato uma fraqueza, até porque, ressalva, não pediu esse apoio. "Esta é uma eleição que se decide pelos militantes, não pelos dirigentes", lembra.

Sobre Salvador Malheiro, Moreira da Silva assegura que "é um amigo". Não tomou posição até ao momento, mas o candidato espera contar com o seu voto.

"Não terei uma liderança de fação. Tenho a capacidade para integrar pessoas de todas as origens de lógica interna do passado.

Entre os apoiantes de Peso, Moreira da Silva destaca pinto Balsemão, Manuela Ferreira Leite, Mota Amaral, Miguel Poiares Maduro, Carlos Costa Neves, Arlindo Cinha, António Capucho, Ângelo Correia, Silva Peneda, Carlos Pimenta.

"Mota Pinto tem todas as condições para continuar"

Quanto ao líder parlamentar, Paulo Mota Pinto, o candidato diz que "tem todas as condições" para continuar no cargo, até porque "quem escolhe o líder parlamentar são os deputados".

Jorge Moreira da Silva diz que, se a vontade de Mota Pinto "for continuar", tem todas as condições para o fazer, "até porque tem feito um ótimo trabalho". O social-democrata promete ainda uma relação próxima com a bancada parlamentar, implementando "o Governo sombra" para fazer frente aos socialistas.

"Por mim, Mota Pinto tem todas as condições para continuar, só não sei se ele quer ficar", acrescenta.

Moreira da Silva sublinha ainda que tem "uma grande capacidade de agregação", além de "negociação e compromisso" para abranger todas as pessoas: "Sei que no dia seguinte todos vão estar confortáveis".

Chega é "linha vermelha" com Montenegro aos "ziguezagues"

E quem nunca apoiará? Moreira da Silva garante que "o não" ao Chega é absoluto, e lembra "a linha vermelha" que traçou desde o início da candidatura. O candidato considera que Luís Montenegro tem andado "a ziguezaguear", afirmando mesmo que na moção do adversário "foi aberto um caminho" que possibilita acordos com o Chega.

"Enquanto o PSD não for claro, estamos a encolher a nossas chances eleitorais. Quem vota no Chega, não tem condições para poder votar no PSD. E no centro, não há um voto que vá do PS para o PSD", explica.

Moreira da Silva diz que o "ziguezague" do adversário retira a possibilidade de o PSD voltar a garantir uma maioria absoluta. O candidato acrescenta que "a ambiguidade de Rui Rio" em relação ao Chega deu a maioria absoluta ao PS.

"Não quero um PSD receoso, quero um PSD corajoso que procure uma maioria absoluta. Nós não somos a casa comum dos não-socialistas. Quero que o PSD se afirme como um partido reformista. Nesse dia, o país conseguirá atrair todos os portugueses", atira.

Sobre a proposta do Chega para um referendo à eutanásia, Moreira da Silva até admite que é a favor, "mas nunca votará a favor de uma proposta do Chega".

"O PSD não pode andar a reboque do Chega. Tem de apresentar uma proposta própria para um referendo à eutanásia. Sobre o referendo, nesta altura, votaria contra a legalização da eutanásia", diz, pedindo, por outro lado, um maior investimento nos cuidados paliativos.

Moreira da Silva não exclui "um entendimento como outras forças, como o CDS", mas admite que o caminho dos sociais-democratas deverá passar por uma candidatura isolada. "O PSD tem de ser testado eleitoralmente", aponta.

Mais Estado, menos Estado?

Em resposta a um ouvinte, Moreira da Silva afirma que não considera que se deve reabrir neste momento a discussão sobre as 35 horas de trabalho. "Não tenho uma lógica de reverter medidas", aponta. Há problemas mais urgentes, considera, como o número elevado de jovens precários e com contratos a prazo.

Sobre a reforma do Estado, é preciso mudar o paradigma: "Temos de deixar de uma vez por todas a conversa de mais Estado ou menos Estado, funcionários públicos a mais ou a menos", defende. "O Estado deve ser maior forte nas áreas de soberania, mais pequeno na área de economia e diferente nas áreas sociais."

Na saúde e educação só tem verdadeira liberdade de escolha "quem é rico". Moreira da Silva defende "uma rede que tem o público, que tem o social, que tem o privado, garantida pelo Estado (...) em que os operadores públicos, privados e sociais concorrem entre si pelos melhores resultados". No fundo, um sistema nacional de saúde, em vez de um serviço nacional de saúde, e mais autonomia nas escolas.

"Também que assumir o elefante na sala, que é a Segurança Social. Sabemos que o sistema é insustentável e que o sistema providencial vai entrar não negativos em 2030."

A reforma da Segurança Social, defende Moreira da Silva, tem de assumir vários pressupostos: "as pensões são sagradas, as pensões a pagamento não podem ser cortadas e direitos adquiridos não podem ser afetados".

A propósito da TAP, Moreira da Silva considera que "não está a servir bem o Porto".

E quanto ao novo aeroporto: "falta muita informação sobre a opção Montijo". Moreira da Silva diz que é evidente que faz falta um novo aeroporto, mas é preciso aguardar as conclusões do relatório estratégico para avaliar o impacto da localização.

Corrupção? "O país não avança sem confiança"

Questionado por um ouvinte sobre o combate à corrupção, "que deve ser vista como um vírus", Jorge Moreira da Silva pede uma cultura "de tolerância zero" contra a corrupção.

"O país não avança sem confiança. As pessoas não votam sem confiança. A garantia de transparência é uma condição para que tenhamos desenvolvimento", explica.

Moreira da Silva quer que as medidas para "responsabilizar os políticos" avance já, depois da aprovação na Assembleia da República.

"Temos de alargar os orçamentos participativos e assegurar que tudo funciona a sério. O que estou a dizer é que a promoção da transparência não pode ser feita apenas aos titulares de cargos políticos", atira.

Moreira da Silva diz que "a questão é a democracia e não a corrupção", defendendo um plano mais abrangente, além do foco político.

"Descentralização do PS tem sido incompetente"

Já sobre a regionalização, Moreira da Silva diz que o tema "tem sido utilizado" para afastar o país do que realmente interessa: a descentralização. O candidato defende até que a regionalização divide o país.

"No fundo, temos de dar mais poder aos que estão mais próximos das pessoas. O processo de descentralização do PS tem sido incompetente e um ato falhado", atira.

Moreira da Silva diz ainda que a regionalização, a avançar, tem de ser através de referendo, mas espera "que o país não se distraia" para responder aos que mais interesse.

A demografia e o envelhecimento do interior do país são apontados por um ouvinte com os principais problemas do país. Moreira da Silva concorda que baixa natalidade é "um problema sério", tal como a necessidade de atrair emigrantes.

Para combater a tendência do "país mais inclinado para o litoral", Moreira da Silva propõe "contabilizar o capital natural", como as florestas e os recursos hídricos. Isto é, transferir para o interior os valores necessários da renovação dos serviços de ecossistemas.

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