Maria Manuel Leitão Marques
Maria Manuel Leitão Marques

"Não podemos prender" quem vai à procura de uma vida melhor. "Temos de atrair pessoas de outras partes do mundo"

Maria Manuel Leitão Marques, a eurodeputada socialista a quem deram "uma vaca que voa", por acreditar em impossíveis, está otimista, mas não "inconsciente" - aclara -, em relação ao futuro. Nesta entrevista com a TSF, a antiga ministra e secretária de Estado da Modernização Administrativa fala da execução do PRR, dos desafios que a Europa vai enfrentar nos próximos anos, e do que se pode esperar do Afeganistão e do quadro geoestratégico da UE no mundo daqui para a frente.

Que balanço faz das palavras de Ursula von der Leyen no discurso do Estado da União?

Eu gostei do discurso, em geral. Podíamos dizer: 'Gostava que a presidente da Comissão tivesse dado mais atenção aos problemas sociais, que são tão importantes e que é tão importante tratar na Europa; creio que há um consenso sobre isso, porque esta crise deixou marcas sociais que temos de resolver...' Mas também podemos dizer isso de várias áreas.

Os destaques que faço das palavras de von der Leyen também têm que ver com aquilo em que mais trabalho. A presidente relevou bem as questões da cibersegurança, aliás, com jogos de palavras muito interessantes, sobre o que são os ataques hoje, lembrando que talvez não seja preciso atirar aviões contra edifícios, porque hoje os ataques se podem fazer como se fizeram, por exemplo, na Irlanda, em maio deste ano, deitando abaixo sistemas de informação na área da saúde, que ainda hoje não estão completamente recuperados. Ela lembrou muito bem esses ataques que podem ocorrer e que cada vez mais são perigosos em termos de paralisação dos serviços públicos e privados, até dos sistemas de Defesa.

Gostei muito de ouvir o compromisso de uma lei europeia - que esperemos que seja um regulamento, mas poderá ser também uma diretiva -, contra a violência de género. Penso que esta é uma peste para a qual não temos vacina nem temos meios de prevenção, que atinge todas as classes sociais. É muito transversal na sociedade, e que se nota cada vez mais mesmo na juventude. A violência no namoro é muito frequente. Lembro-me de, quando era responsável por esta área, conversar com jovens e ouvir histórias até um bocadinho arrepiantes. Começa muitas vezes na ciberviolência, na violência online, e muitas vezes acaba em morte. Acaba muitas vezes, na Europa e em Portugal também. Em França, no ano passado, foi um problema gravíssimo. Nós temos de encontrar uma maneira de resolver este problema. Se fosse um problema que atingisse homens como atinge mulheres, talvez se tivesse já dado mais atenção, mas é o tempo de o enfrentarmos com mais estudos qualitativos, mais leis, mais regras, mais informação...

... E temos uma mulher na presidência da Comissão Europeia...

Vai ser aprovado esta semana um relatório sobre a criminalização. Gostei muito de ouvir esse compromisso por parte da presidente.

E depois houve outras áreas: a questão dos semicondutores e da autonomia estratégica da União, a questão do 'work-life balance', do equilíbrio entre a vida profissional e familiar, mais uma questão importante, sobretudo para as mulheres, mas que é importante para todos. A questão da impunidade fiscal é uma questão a que sou muito sensível. É uma questão de injustiça tolerarmos que haja grandes empresas que não paguem impostos; tolerar que qualquer pessoa não pague os impostos devidos, mas em particular grandes empresas.

Fiquei muito contente com o anúncio do programa Alma. Acho muito justo que se equipare para todos os jovens esta possibilidade de sentir a Europa...

Foi também aberta a questão muito importante de haver ou não um exército europeu.

O que gostaria de ter ouvido e não ouviu da presidente da Comissão Europeia?

Gostaria de ter ouvido e não ouvi pela segunda vez... [Ursula von der Leyen] referiu relações com a Índia, com o Pacífico, referiu, ainda que muito a correr, a África, referiu-se à Europa, aos Estados Unidos... Não houve uma palavra para a América Latina. Ora, a América Latina é, porventura, a região no mundo com mais laços históricos e culturais com a Europa, e é lamentável que, pelo segundo ano, esteja ausente do discurso sobre o Estado da União.

Por que é que isso aconteceu, na sua perspetiva?

Penso que há um desinteresse. Nós interessamo-nos por aqueles que são os nossos competidores - China, Estados Unidos -, por aqueles que, para ser franca, nos causam algum problema, porque o subdesenvolvimento africano tem impacto nas nossas fronteiras, interessamo-nos pela Rússia pela mesma razão, e a América Latina...

É esquecida... Ursula von der Leyen apontou vários motivos para se ser otimista neste momento, e deu como exemplo o caso de sucesso da vacinação...

Ela começou com dois casos de sucesso: a vacinação e a solidariedade entre a Europa e o resto do mundo. Mas é preciso sermos mais exigentes sobre isso, porque os números que nos chegam de África são de muito poucas pessoas vacinadas, em percentagem. O Covax tem de funcionar melhor para que as vacinas cheguem mais depressa. Isto não é só uma questão humanitária, nem de solidariedade. É uma questão que tem de ser tratada a nível global. Enquanto não formos todos vacinados, todos no mundo, estamos todos em risco de novas variantes, de contaminações. Temos de ter as economias fechadas, as fronteiras fechadas, limitações à nossa liberdade. É triste dizê-lo, mas, também por interesse próprio, temos de ter uma política de solidariedade em matéria de vacinação.

É com muito gosto que vemos Portugal estar no topo dos países que já vacinaram mais pessoas.

Outra mensagem de otimismo foi mostrar uma jovem atleta, que foi operada, numa cirurgia séria, em abril. Mesmo assim, lutou para recuperar e conseguiu competir e ser até medalhada. Acho que foi uma forma bonita de mostrar que, nem sempre, mas muitas das missões impossíveis só são impossíveis porque não tentamos torná-las possíveis. Sempre tive este lema, até me deram uma vaca que voava...

Há motivos neste momento para esse otimismo, tanto na UE como em Portugal?

Quando nós dizemos que somos otimistas, não somos inconscientes. Eu tenho um lema na vida: tudo se faz com trabalho. A mim nunca me saiu a sorte grande, e nunca tive uma nota boa por acaso. Sempre que não estudava o resultado via-se nas notas, e, quando estudava, também via um bom resultado. Em tudo na vida: quando fui ministra, quando fui professora... Tudo na vida eu fiz com trabalho. Às vezes, trabalha-se muito e não se atinge o nível que se espera ou que se pensa que se tem direito, mas nunca nada me caiu ao colo. Apesar disso, eu sou uma pessoa otimista... Acho que a situação na Europa não é fácil em termos económicos, temos, na verdade, outros mundos mais inovadores, mais rápidos a colocar a inovação no mercado. Temos uma União forte, mas nem sempre os meios como ela se exprime são os mais oleados, nem sempre são suficientemente rápidos e ágeis para responder na hora certa aos problemas, porque a democracia aqui exige muita negociação, muitos consensos, não é só criar o consenso aqui no Parlamento, tem de se criar consensos no Conselho. Nós não temos iniciativa legislativa, é um Parlamento que ainda não é perfeito...

Mas vou dar-lhe uma razão de otimismo. Durante esta crise, a Comissão e o Conselho, e o Parlamento até, embora às vezes à distância, conseguiram responder em tempo útil, responderam muito depressa. Para nós, que temos a experiência do processo inacreditavelmente demorado e complexo até as coisas chegarem ao fim, foi uma surpresa, o que mostra que não há missões impossíveis. Quando foi necessário, as instituições foram capazes de responder em tempo útil.

Para criar uma vacina, o tempo foi encurtado também.

Sim, mas é bom não nos esquecermos. Depois de termos a vacina, é fácil esquecermo-nos. O que explica termos a vacina em tempo curto, como nunca tivemos, foi o investimento que fizemos antes. Às vezes, investimentos improváveis, naquela ciência cheia de risco ou naquela ciência que parece que não vai ter resultados imediatos.

A Europa tem de tratar de passar os resultados da ciência para a inovação e da inovação para o emprego, é evidente. Portugal também. Às vezes é importante investir nas ciências básicas, nas físicas, nas químicas, naquelas que parece que não são para servir no imediato a indústria, mas que, depois, um dia, estão aí. Esta vacina, aliás, resultou de uma investigação para o tratamento do cancro.

Faltou uma aposta na ciência no discurso de von der Leyen?

Faltou, mas faltaram várias. Percebo que numa hora a presidente... Um minuto é uma ideia, dois minutos são duas ideias, três minutos são duas ideias bem explicadas. Quatro... é raríssimo. Quando temos cinco, é uma festa, mas é raro. Nunca tive cinco minutos de intervenção no Parlamento Europeu. O máximo que tive foram três, e já achei que tinha tido imenso tempo.

Acho que foi, talvez, um discurso sobre urgências. E menos um discurso estratégico. A ciência talvez seja uma coisa mais estratégica. Ela quis deixar muito clara a missão sobre o ecossistema de Defesa. Ligou muito a cibersegurança à Defesa. Esse foi para mim um dos pontos mais importantes do discurso. Obviamente começou pela saúde e pela vacinação, porque não pode deixar de transmitir essa mensagem.

A discussão da posição geoestratégica da UE em termos de Defesa vai tornar-se relevante nos próximos anos?

Vai ser relevante essa discussão, porque, no dia em que tivermos de investir mais na Defesa, provavelmente vamos ter de investir menos noutro lado. O dinheiro não é infinitamente elástico.

Os cem milhões de euros que Ursula von der Leyen anunciou para o Afeganistão serão enviados e utilizados de que forma?

Gostei muito de ver a presidente comprometer-se com a ajuda humanitária com o Afeganistão. Podem dizer que é impossível, mas nunca há impossíveis.Para continuar a apoiar mulheres e homens - mas deixe-me dar um destaque especial às mulheres, porque são elas que veem os seus direitos mais limitados -, temos de encontrar os canais possíveis, que não são os mesmos que tínhamos até agora, nem são os que desejaríamos ter, nem sequer aqueles que temos noutros países do mundo.

Nestes últimos 20 anos, temos falado muito do colapso da intervenção militar. Acho que aprendemos que, por muito que desejássemos que não fosse a intervenção militar a construir a democracia liberal como a conhecemos, houve aspetos que foram positivos. De 0% passámos para 80% de meninas que vão à escola. Diminuiu a mortalidade infantil. Os casamentos forçados foram considerados ilegais. Houve aulas de literacia digital para meninas e meninos. Podem dizer: 'Ah, mas agora vai acabar isso tudo.' Vamos fazer para que não acabe tudo. Acho que a ajuda deve ser orientada para que isso não aconteça, de todo. Mas, mesmo que haja um grande recuo, e é provável, aquelas que foram à escola aprenderam a ler e já não vão esquecer. Aquelas que não foram obrigadas a casar, também. Acho que estas memórias não se apagarão das pessoas que tiveram o 'privilégio' de beneficiar de algum espaço de liberdade durante estes 20 anos. Vê como sou uma otimista? Às vezes, quando conseguimos pequenas vitórias... A tristeza é não as consolidar.

Também fiz o Simplex assim. 'Ah, mas um programa holístico, e tal...' Muitos desses programas ficaram na gaveta. Simplificando daqui, tirando de acolá, consolida, amarra... Fica, não volta atrás.

Também está otimista relativamente à recuperação económica portuguesa?

Estou. Acho que temos todas as condições para a fazer bem, mas só no fim é que se sabe se fizemos bem ou não. Temos uma boa estratégia, foi bem desenhada, foi discutida, foi muito participada. Foi bem pensada inicialmente e depois foi aberta a todos e todas que quiseram dar contribuições, e melhorou muito. Lembro-me de ver o primeiro documento, que não tinha nem uma referência às questões da igualdade de género, e hoje estão lá, bem claras, só para dar um exemplo.

E a cultura...

E a cultura também não estava, para dar outro belíssimo exemplo. Para mim, um investimento na cultura e na ciência é um investimento no futuro. Escrevi-o em 2014, na Agenda Estratégica para a Década, e mantenho essa ideia. A cultura e a ciência têm que ver uma com a outra. As pessoas mais cultas dão mais valor à ciência, e as pessoas com conhecimento científico dão mais valor à cultura. É muito bom que se juntem. Hoje até ensinamos ciências humanas aos engenheiros do Técnico, eu fiquei muito contente.

O plano está bom, mas agora é preciso que seja executado, e que seja executado de acordo com a estratégia traçada. Quero salientar um aspeto fundamental dessa estratégia, que foi apostar mais na qualificação e menos no betão. Não quer dizer que não haja uma ou outra obra que não seja preciso fazer. Eu vivo perto de uma estrada onde morre muita gente. É uma estrada que, não sei por quê, ficou por fazer. Morre lá muita gente e passa lá muita gente, muitos cidadãos e muita economia, porque é a ligação entre Coimbra e Aveiro.

Mas, muitas vezes, fizemos... Fizemos o Pavilhão de Desportos, e eu conheço vários por esse país fora. Era muito importante porque não havia sítios para fazer desporto, e fazer desporto é importante para a saúde e para o equilíbrio. Só que muitas vezes não nos preocupámos em, depois de estar construída a obra, incentivar as pessoas a usá-la, a fazerem desporto, em criar essa cultura e mostrar como era importante para a saúde. Muitos ficaram vazios e estão subutilizados. Precisamos de pensar muito bem antes de abandonar o velho e construir o novo.

Outro dos desafios é criar condições mais atrativas para fixar jovens talentos em Portugal?

Sim, sem dúvida, e não é só um desafio para Portugal, é um desafio para a Europa. Estamos a deixar fugir para os Estados Unidos e para outras áreas pessoas muito qualificadas e empreendedoras, que não conseguem às vezes desenvolver as suas ideias aqui. No outro dia, falámos com a Daniela Braga, uma empresária portuguesa de sucesso nos EUA, e ela explicou que muitas vezes não consegue capital de risco para desenvolver as suas ideias. E isso temos de resolver. Mas vão sempre sair pessoas, que têm uma vida melhor noutro lado do mundo, e não as podemos prender. Temos também de ter uma política de atrair pessoas qualificadas - e menos qualificadas - de outras partes do mundo. Isso entra nas políticas das migrações.

Porque diversidade também é riqueza?

Ora sem dúvida. Pelo menos para mim, que sempre fui criada num ambiente muito diverso.

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