"Não sei se o CDS não desapareceu já politicamente"

Basílio Horta olha com tristeza para a atual situação do CDS. Uma aproximação ao PSD pode ser a solução. Encostar à direita, a morte.

Fundou o CDS, foi deputado da Constituinte, candidato à Presidência da República, até que um dia decidiu deixar o CDS e aproximar-se do Partido Socialista (PS) num movimento que lhe valeu duras críticas. Em 2013 conseguiu conquistar para os socialistas uma das maiores câmaras do País - Sintra - ao PSD, autarquia que reconquistou com maioria absoluta em 2017. Garante que sempre foi bem tratado pelo PS, mas não deixa de "sofrer" com a situação do CDS.

Enquanto fundador do CDS, como é que olha para o partido e a crise que ele está a viver?

Tenho de confessar que olho com tristeza o que está a acontecer com o partido. Uma grande parte da minha vida política foi na fundação do partido. Fui o primeiro secretário-geral do partido, com Diogo Freitas do Amaral, Adelino Amaro da Costa. Foi um partido fundado na afirmação da democracia pluralista que o 25 de Abril prometeu aos portugueses. Foi um partido que assumiu a diferença, porque era o único partido não socialista e que se declarava não socialista em 1974/75. Foi um partido que foi feito com sangue suor e lágrimas, e não estou a exagerar. Portanto há muito da nossa vida, da minha e dos fundadores - infelizmente vivos creio que sou só eu -, mas aqueles que viveram seguramente partilhavam esta minha opinião. Ver o partido, depois de tantas lutas, na situação em que está não pode deixar de ter um travo de tristeza, posso dizê-lo. Agora, vejo com muita preocupação o futuro do CDS, mesmo com muita preocupação.

Acha que corre o risco de desaparecer?

Não sei se já não desapareceu. Porque o desaparecimento formal é uma coisa e o desaparecimento político é outra. Eu acho que o CDS hoje está numa situação de tal maneira grave, que tudo aquilo que diz, todas as posições que assumem, são tudo posições déjà vu, são tudo posições que não têm impacto na sociedade. O partido perdeu a independência e um partido quando perde a independência deixa ter razão de ser.

Pode ser mais específico nos erros que tenham sido cometidos?

Em meu entender, o grande erro que foi cometido foi a indefinição ideológica do partido. Ainda se aguentou durante um tempo, o partido começou por ser democrata cristão na doutrina, centrista no método, pela capacidade de ouvir propostas de direita e de esquerda e assumir o melhor que se entendia para a comunidade. Começou por aí e, depois, a seguir foi liberal com Lucas Pires; depois, com o Dr. Adriano Moreia foi mais democracia social; depois, com Manuel Monteiro foi direita pura e dura, anti-europeia, anti-euro; depois com Paulo Portas, aí ele foi manifestamente inteligente porque percebeu que o partido devia ter um projeto mais amplo de direita e fez uma nova AD. Repetiu aquilo que nós tínhamos feito nos anos anteriores, e repetiu com um certo êxito, porque a verdade é que o partido se aproximou do poder e governou. Depois, quando o governo de Passos Coelho acaba, aí é que a Assunção Cristas, em meu entender, cometeu um erro grave - não entendeu que era uma nova era que se abria na política, não entendeu. Ficou presa ao passado, refugiou-se a um canto, dizendo que não falava com o PS, cortou as amarras todas com o PS, só falava com o PSD.

E mesmo assim com algumas picardias, como quando Assunção Cristãs se assumiu como a líder da oposição...

Exatamente. Eu ia dizer isso. Na eleição de Lisboa tomou a nuvem por Juno. Achou que aquela eleição eu tinha tido lhe dava possibilidades de ser primeira-ministra de Portugal. O Dr. Lucas Pires, que Deus tenha à sua guarda, teve uma altura na segunda vez do seu mandato que teve um pouco a mesma coisa, e que lhe custou a saída do CDS. Houve uma altura em que o Dr. Lucas Pires, por algumas sondagens que existiam, achava que tinha passado o Dr. Cavaco e quando este lhe propôs uma nova AD com ganhos substanciais para o partido, o Dr. Lucas Pires não quis. Dizia: "Não, nós vamos agora, porque acho que vamos ter mais votos". Eu acho que a Drª Assunção Cristas, tantos anos depois, teve um pouco a mesma tentação. Neste caso uma má tentação. Queria assumir-se como líder do bloco de direita. Claro que não se assumiu como líder do bloco de direita, cortou as pontes com o PS, abandonou o centrismo como método completamente.

Agora nesta espécie de crise existencial que o partido vive, uma crise ideológica, que espaço é que sobra quando a realidade política hoje no Parlamento tem o Chega à direita, tem o Iniciativa Liberal, para já não falar do próprio PSD... Qual é o espaço político que sobra para o CDS?

Uma boa pergunta. Não sei. Por isso é que eu há pouco estava a dizer que os partidos não morrem só formalmente. Eu acho que o único espaço político que sobra para o CDS é agarrar-se ao PSD e fazer uma maioria de direita, mas perdendo uma grande parte da sua autonomia, julgo eu, e da sua utilidade. A utilidade do CDS é aquilo que é a reminiscência dos seus votos poder ser uma ajuda.

Um partido charneira?

Charneira não, porque isso significava aquilo que o Dr. Freitas do Amaral dizia, e bem, que era a equidistância. Este problema do espaço colocou-se desde sempre, mas nós construímos o nosso próprio espaço. O Dr. Freitas do Amaral dizia a certa altura, quando o PSD foi muito para a direita, que o CDS estava equidistante entre o PS e o PSD. Era a tese da equidistância, tão combatida. Era realmente a utilidade do partido, era um partido de voz própria, nunca era para ser um grande partido, mas era para ser um partido de quadros, muito consistente na proposta política, de grande credibilidade exterior, um partido como Adelino Amaro da Costa o pensou, e realmente de uma grande modéstia em relação aos problemas do país. Os problemas do país são graves.

Pretendia representar a democracia cristã.
Exatamente, a democracia cristã e os seus valores.

Esse espaço da democracia cristã ainda existe ou está mais reduzido?

O espaço existe completamente e está a ser ocupado pelo PS. Esse espaço da democracia cristã é um espaço importante porque é o único espaço, juntamente com a social-democracia - por isso é que fizeram a Europa em conjunto -, que consegue conjugar a liberdade e a democracia com os direitos sociais. Esta conjugação de liberdade com direitos sociais, ou seja, um desenvolvimento inclusivo, uma proposta inclusiva, que leva as pessoas a perceberem que não são estranhas nas comunidades onde vivem, é uma proposta fortíssima e, obviamente, o partido teve-a. Quando a teve em 1976, teve 17% e estava numa linha ascendente. É preciso ver que o CDS, em 1978, esteve no governo com o PS, eu fui ministro desse governo. Este realmente era o partido, hoje é aquilo que nós vemos, portanto não sei. Em relação ao espaço, tem à direita o Chega, como se vê com um discurso populista rápido e eficaz na sua formulação; depois tem a Iniciativa Liberal; e depois tem o PSD. É uma situação muito complexa.
Assustou-o esta eleição de André Ventura? A zona de Sintra foi, na zona de Lisboa, uma das zonas onde o partido mais teve votos. Como é que vê isso?
Com normalidade. Estas coisas são assim mesmo. Havia espaço para uma direita musculada e populista. Havia. Está ocupado, o André Ventura chegou e está ocupado. Podia ser ocupado por outra pessoa que não tivesse teses tão contraditórias com aquilo que ele defende hoje, mas é-o por ele, portanto é perfeitamente natural e normal. É assim. Agora, o que nós temos de fazer, aquelas pessoas que não comungam daquela maneira de fazer política, é de fazer política de forma a contrariar, mas contrariar na ação política e não apenas no discurso.

Seria um erro se o CDS quisesse seguir este caminho também?

Porque há essa discussão interna, a de se o CDS não se deve colar definitivamente ainda mais à direita. No meu entender isso seria a perda do resto que faltava perder da dignidade do partido.

Na quinta-feira, na manifestação dos polícias em frente à Assembleia da República, o Telmo Correia do CDS veio à manifestação, fazendo o mesmo que André Ventura fez e tendo muito piores resultados em termos de aceitação da multidão.

Claro, é evidente. Era só o que faltava ao CDS fazer isso. Porque a verdade é esta: o CDS não tem cara nem história nem perfil para uma coisa dessas. Isso era a completa abdicação do ato fundacional do partido. Chegámos a este ponto, mas no passado recente, dos fundadores do partido não sei quem é que lá ficou, mesmo entre os antigos presidentes. O Rui Pena, que era fundador e foi ministro da Defesa do Eng. Guterres, o Vítor Sá Machado, o Luís Barbosa, enfim, de um conjunto de fundadores, não sei se algum deles lá ficou. Agora, o CDS, fazendo uma política igual à do Chega... O CDS tem passado e o Chega chegou agora. Eu acho que isso seria ir de mal a pior. Eu acho que se pode perder votos, na democracia tanto se ganha como se perde, agora, o que não se deve perder é a dignidade.

Não estranha que neste momento haja esta indefinição, até sobre o futuro da liderança do partido? Apesar de tudo, o CDS tem a tal história de que falava, tem muitos quadros, tem alguns barões - vamos chamar-lhes assim -, não estranha que nenhum desses barões se chegue à frente num momento tão difícil para o partido?

Só revelam bom senso. Só revelam que a ambição tem limites. Ser presidente do CDS ou secretário-geral do CDS deve ser uma tarefa muito complicada e muito difícil, ou aparece algum génio saído quase do nada ou aquilo que vemos é muito complicado e muito difícil.

Outras Notícias

Outros Conteúdos GMG

Patrocinado

Apoio de

Patrocinado

Apoio de