"Não teríamos democracia se não tivesse havido um perdão coletivo"

António Costa diz que a democracia se firmou porque se perdoou o que se passou durante a ditadura e nos anos da revolução. Retrato de um primeiro-ministro enquanto leitor do colombiano Juan Gabriel Vásquez.

Na primeira das conversas, na Casa da América Latina, a secretária geral Manuela Júdice apresentou os protagonistas como "o António Costa que é advogado, político e atualmente primeiro-ministro" e Juan Gabriel Vásquez "o escritor colombiano com três romances publicados em Portugal" que Costa, apaixonado por Gabriel Garcia Marquez, descobriu, um dia, na Colômbia.

Na pele de leitor, o Primeiro-Ministro encontra nos romances, janelas para escapar, uma forma de "não ser escravo da realidade". O escritor descobre na literatura uma porta para "entrar e melhorar em vidas alheias, como a política".

Pela conversa passa o tema da reconciliação: difícil na Colômbia, onde fracassado o plano inicial, ainda são tortuosas as relações numa "sociedade polarizada".

"Creio que como país a nossa obrigação moral é evitar o sofrimento desnecessário dos colombianos. Quando se decretou o cessar-fogo houve uns meses, um ano, em que na Colômbia deixou de morrer gente. É o que temos de tentar, isso é o que justifica os acordos. Temos de roubar à guerra as vítimas futuras e isso justifica essa negociação", conta o escritor colombiano.

De volta à realidade nacional António Costa, sublinha que o segredo foi o "perdão coletivo".

"Tivemos 50 anos de ditadura e não teríamos a democracia que temos hoje se depois da revolução não tivesse havido um perdão coletivo do que se passou durante a ditadura e nos dois anos da revolução. Foi isso que permitiu a reconciliação", sublinha o primeiro-ministro admitindo que "houve coisas terríveis".

"Não devemos esquecer, é importante recordar. Estamos a fazer o Museu da Resistência, é importante para manter a memória, mas também tem de haver perdão", diz Costa.

Acabado de chegar da reunião do Conselho de Estado, o primeiro-ministro aproveita para contar o espanto dos estrangeiros convidados pelo Presidente, perante de um país reconciliado que senta à mesma mesa, um antigo resistente, Domingos Abrantes, e um antigo ministro do Estado Novo, Adriano Moreira.

"Estão os dois, na mesma sala e na mesma mesa, e foi esse perdão que nos permitiu ter uma democracia consolidada e muito estável que resiste muito bem às tentações de derivas do populismo e dos discursos raciais"

Os dois ainda falam de caricaturas, as "agulhas forradas a mel", como lembram, que podem picar sensibilidades, como na América Latina ou, em Portugal, podem ser mais "amáveis" como explica António Costa, para quem a "palavra escrita pode magoar mais do que o desenho".

A conversa passa ainda por Saramago, com António Costa a oferecer a Juan Gabriel Vasquez, um exemplar da Viagem a Portugal e os dois concordam na "escrita como lugar de memória" e da "literatura como forma de impedir que se esqueçam as coisas importantes".

Na plateia, assistiram à conversa, escritores como Nuno Júdice, Gonçalo M Tavares e Inês Pedrosa, o antigo ministro da Cultura Luís Filipe de Castro Mendes e o coordenador do programa eleitoral do CDS Adolfo Mesquita Nunes, entre outros.

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