"Não vamos abrir polémicas." Costa recebido no velório de Otelo com protesto a pedir luto nacional

Primeiro-ministro explicou que Governo quer manter "coerência e consistência" com homenagens a outras "figuras proeminentes" do 25 de Abril.

Na chegada ao velório de Otelo Saraiva de Carvalho, esta terça-feira ao final da tarde, na capela da Academia Militar, em Lisboa, António Costa foi recebido com um protesto espontâneo a pedir luto nacional pela morte do militar. Com o objetivo de afastar polémicas sobre o tema, o primeiro-ministro justificou a decisão do Governo.

"O importante não é termos uma polémica sobre o tema. É, pelo contrário, este ser um momento de reconciliação de todo o país com a figura de Otelo. Da minha parte, da parte do Governo, a consideração é a maior e, portanto, não vamos abrir polémicas. O 25 de Abril teve diferentes figuras proeminentes, ninguém diminui a importância e relevância do coronel Otelo Saraiva de Carvalho, mas infelizmente o país já perdeu muitas dessas figuras e, na altura própria, quem decidiu homenageou-os da forma que entendeu e aquilo que se entendeu é que se deveria manter uma coerência e consistência", explicou António Costa.

Acompanhado pela mãe, o governante recordou também a ligação que tinha com Otelo Saraiva de Carvalho, desde criança.

"Além do destaque que todas as figuras públicas têm feito e da apreciação e avaliação histórica, eu tenho um especial carinho pelo coronel Otelo Saraiva de Carvalho porque deu-se a circunstância, quando era criança, de a minha mãe ter ido em serviço, mais de seis meses, e eu ter ficado sozinho em casa da minha avó. A única ponte de contacto que havia entre nós era através do oficial responsável pela assessoria de imprensa do general Spínola, em Bissau, que era precisamente o coronel Otelo Saraiva de Carvalho. Era ele que todas as sextas-feiras me ligava e me dava notícias da minha mãe", recordou o primeiro-ministro.

Uma fila permanente, com várias dezenas de pessoas, está desde antes das 16h00 à porta da capela da Academia Militar.

Muitos dos que a integram levam cravos vermelhos, o símbolo da revolução de 25 de abril de 1974, que derrubou a ditadura do Estado Novo.

Além do primeiro-ministro, já passaram pelo velório de Otelo Saraiva de Carvalho o Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa, e o presidente da Assembleia da República, Eduardo Ferro Rodrigues.

Nascido em 31 de agosto de 1936 em Lourenço Marques, atual Maputo, Moçambique, Otelo Nuno Romão Saraiva de Carvalho teve uma carreira militar desde os anos 1960, fez uma comissão durante a guerra colonial na Guiné-Bissau, onde se cruzou com o general António de Spínola, até ao pós-25 de Abril de 1974.

No Movimento das Forças Armadas (MFA), que derrubou a ditadura de Salazar e Caetano, foi ele o encarregado de elaborar o plano de operações militares e, daí, ser conhecido como estratego do 25 de Abril.

Depois do 25 de Abril foi comandante do COPCON, o Comando Operacional do Continente, durante o Processo Revolucionário em Curso (PREC), surgindo associado à chamada esquerda militar, mais radical, e foi candidato presidencial em 1976.

Na década de 1980, o seu nome surge associado às Forças Populares 25 de Abril (FP-25 de Abril), organização armada responsável por dezenas de atentados e 14 mortos, tendo sido condenado, em 1986, a 15 anos de prisão por associação terrorista. Em 1991, recebeu um indulto, tendo sido amnistiado cinco anos depois, uma decisão que levantou muita polémica na altura.

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