Rio sai preocupado, Rangel candidato: o resumo do Conselho Nacional do PSD

Rui Rio quis adiar a marcação das diretas por causa da eventual crise política, mas conselheiros não foram convencidos e deixam-no "bastante preocupado". Rangel anuncia candidatura deixando claro ao que vem: "oposição dura sem ser aos berros e trauliteira" para que PSD não seja mais "o partido da espera". Eleições vão ser a 4 de dezembro.

Depois de cinco horas de discussão, há duas ideias a reter do Conselho Nacional do PSD: a preocupação de Rui Rio com o cenário escolhido pelos conselheiros do partido num cenário de incerteza política" e o anúncio da candidatura de Paulo Rangel à liderança do partido.

No caso da preocupação de Rio, ela está relacionada com a possível crise política que virá se o Orçamento for chumbado. Disse-o aos conselheiros, mas disse-o também à saída: "Neste momento, o PSD está totalmente nas mãos do entendimento que possa haver ou não entre PS, PCP e BE."

Para Rio, "se as negociações falharem e tivermos eleições antecipadas, o PSD está numa situação dificílima e os adversários numa situação muito mais fácil do que estariam se tivesse havido uma responsabilidade que a maioria do CN não teve".

Vai mais além: "Nunca vi na história do PSD o partido correr um risco desta dimensão, colocar-se numa situação de completa fragilidade".

Sobre a candidatura de Rangel, Rio não quis falar, apenas deixou a farpa de que neste conselho nacional não foi o interesse do país e do partido que foram colocados em primeiro lugar.

Já sobre uma eventual recandidatura, Rio promete decisão para breve até porque esperava pelos dados que ia obter nesta reunião. Perante insistência dos jornalistas, reconheceu que o desfecho desta noite vai ser um dos parâmetros e gracejou: "agora vou fazer a equação, e depois vou ver, x1, x2 e depois vou tirar a média". "Logo se vê", diz Rio como quem diz é hora de ir fazer as contas.

Por sua vez, Rangel deixou palavras de circunstância à saída confirmando de viva voz aos microfones que anunciou a candidatura. Sim, porque a apresentação fica para depois. Às 17h desta sexta-feira num hotel em Lisboa.

O candidato que esperou mas não quer liderar "o partido da espera"

Mas se fora da sala foi parco em palavras, lá dentro nem por isso. Com eleições no PSD mesmo a 4 de dezembro, Rangel apresentou-se com uma receita a três tempos: "agregação, oposição e projeto de alternativa e esperança". "Não podemos ser o partido da espera", afirma Paulo Rangel perante os conselheiros.

"Olhos nos olhos, digo a todos que apresentarei muito brevemente a candidatura e digo com toda a lealdade a Rui Rio, mas também liberdade", anuncia Paulo Rangel que respondeu a críticas de deslealdade que leu vindas de David Justino no Público.

Nota o eurodeputado, de acordo com relatos feitos à TSF do que se passava na reunião à porta fechada, que "não aceita lições de lealdade de David Justino", que ele foi candidato a Europeias com três presidentes e que isso é ser "leal ao PSD".

Aos conselheiros, Rangel diz que quando perdeu as europeias podia ter culpado o PSD nacional e David Justino pelo acordo que fizeram com o PCP e BE nos professores e que baixou o resultado. "Nunca o fiz, pelo contrário, o líder do PSD culpou-me pelos resultados. Eu não sou assim, sou leal e frontal", defendeu-se.

A receita de Rangel passa então por três eixos: "agregação, oposição e projeto de alternativa e esperança. E, no caso, da função de oposição, Rangel questionou, a propósito dos casos na saúde "se houve alguma afirmação do da direção ou do presidente sobre o que está a acontecer no Porto, em Leiria ou Setúbal?". "Não houve", respondeu Rangel realçando que temas como o do Chefe do Estado-Maior da Armada ou do atrito entre Pedro Nuno Santos ou João Leão são importantes.

Mas o caminho, no entender de Rangel, passa por uma "oposição mais dura". "Não é oposição aos berros, trauliteira, mas oposição", destacou Rangel repetindo várias vezes a ideia de que o PSD não pode estar à espera.

"Não podemos ser o partido da espera, não podemos estar à espera que o poder caia, não acredito num PSD que fique no sofá", disse Rangel de acordo com os relatos feitos à TSF.

Para o eurodeputado, é necessário que o partido tenha um "projeto alternativo e soluções". "A nossa bandeira não pode ser a revisão constitucional, não há nenhuma urgência em nenhuma revisão constitucional, não há nenhum português em casa à espera da revisão constitucional ou na reforma do Conselho Superior do Ministério Público", exemplifica.

Com isto, Rangel termina afirmando-se candidato e também fala do dia das eleições: 4 de dezembro e que é um dia de luto para o partido por ser a data da morte do fundador Francisco Sá Carneiro.

Mas Rangel vê o copo meio-cheio: "espero que possa ter um simbolismo e ser o renascimento, a refundação do PSD, que em vez de estar à espera é capaz de criar e suscitar esperança".

O caminho até aqui chegar

Antes do discurso de Rangel aos conselheiros, foi chumbada a proposta da direção para adiar a marcação das internas do PSD. 71 conselheiros chumbaram a proposta, 40 votaram a favor e quatro abstenções foram registadas.

Estava em cima da mesa a proposta para adiar a marcação das eleições diretas e do congresso, mas os conselheiros não foram convencidos. Têm sido muitas as críticas, desde logo, o eurodeputado José Manuel Fernandes deu voz à ideia de muitos de que está "convicto de que vai haver orçamento".

Havendo orçamento, não se coloca esta discussão mas para ajudar ao argumento da direção, o vice-presidente André Coelho Lima já se dirigiu aos conselheiros para deixar a questão: "Acham mesmo que estamos a fazer isto para ganhar uma semana?". Argumentos que, no fim, não colheram.

Rio escuda-se na crise política

As fichas de Rui Rio estiveram todas num cenário de eventual crise política. Essa foi, de resto, a tónica da intervenção aos conselheiros nacionais do partido: o desgaste do governo e a fragilização dos partidos à esquerda com os resultados das autárquicas.

Para não ser apanhado na curva, Rui Rio explicou aos conselheiros que, com o atual cenário, o PSD não pode entrar em aventuras no caso de haver eleições ao virar da esquina.

De acordo com relatos feitos à TSF, o líder do partido deu "uma aula de ciência política" e sente que "há uma clara e crescente abertura para votar no PSD" e que "BE e PCP perderam as autárquicas e por isso exigem ao governo o que estão a exigir".

Para Rui Rio, as ameaças da esquerda fazem sentido e são a sério dada a situação de fragilidade. "O Partido Comunista pode desaparecer e a probabilidade do PC exigir o impossível ao PS é muito grande", considera Rio.

Para o presidente do partido, é ao centro que se ganham eleições e apela à "responsabilidade política" dos conselheiros para que estejam cientes de que não deve haver uma contenda interna quando um cenário de legislativas antecipadas está ao virar da esquina.

Já sobre o estilo de oposição, Rio deixa uma farpa para quem a quiser apanhar: "o povo não vota em quem grita mais contra o governo, o povo vota em quem é fiável".

Game on: Rio versus Rangel

À entrada para o Conselho Nacional, o presidente do PSD, Rui Rio, não perdeu tempo e atacou a oposição interna. "Pegaram na minha sugestão e fizeram uma guerra que eu não entendo. Só entendo desta forma: como se está a ver que o PSD está a subir, que o PSD pode ganhar eleições legislativas, há um assalto ao poder daqueles que põem o interesse pessoal à frente daquilo que é o interesse do país e o interesse do PSD", atirou.

O líder social-democrata justificou, perante os jornalistas, a sua posição com vista à alteração da data das diretas no partido, alertando para a possível instabilidade política. "Aquilo que eu entendo, é que nós estamos na iminência de ter uma crise política grave. O orçamento pode não passar e significa que pode haver eleições legislativas antecipadas. Acho que qualquer português e qualquer militante do PSD entende que é prudente nós aguardarmos pela votação do OE 2022", disse.

"A minha sugestão deu logo da parte de uma série de pessoas, dirigentes, militantes do PSD um conjunto de ataques, alguns até de caráter muito pouco nobre, apenas porque eu fiz uma sugestão. Lamento profundamente que o partido tenha chegado a este estado, em que depois de umas eleições autárquicas, em que não averbamos uma vitória aritmética, mas averbámos uma vitória política, no espaço de 15 dias já estejam a tentar destruir tudo aquilo que o partido conseguiu, em termos de impulso político", acrescentou.

Rui Rio, que não mencionou diretamente o nome de Paulo Rangel, acusou os opositores de o terem insultado, de serem deselegantes, sublinhando que "o PSD não pode estar numa disputa interna, sem saber quem é a sua liderança, com as divisões internas e de repente a ter de se preparar para umas legislativas, a fazer um programa". "Estão loucos", completou ainda o líder social-democrata

"Eu estou bem com qualquer calendário"

Dois minutos depois de Rui Rio ter entrado para o hotel, Paulo Rangel chegou acompanhado com outros militantes e confirmou aqui estar para "assumir a responsabilidade". Não confirmando aos microfones que é candidato, apenas o deixou nas entrelinhas: "Estou bem com qualquer calendário. Não tenho medo de nenhuma data. Estou tranquilo", avisou. Para bom entendedor...

"Acho estranho que a direção do PSD ponha nas mãos do dr. António Costa o seu próprio calendário interno. Mais uma vez, o PSD entrega ao dr. António Costa o supremo privilégio de escolher a data em que nós temos eleições. Isto para mim, não é normal", atirou.

*artigo atualizado ao longo de toda a noite.

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