O aranhiço e a bicicleta na diplomacia portuguesa em 2020

Augusto Santos Silva apresentou as prioridades da política externa para 2020. Não faltaram representações de um aranhiço para explicar a aposta na internacionalização da economia e de uma bicicleta para justificar a reestruturação do próprio ministério.

2020 vai ser ano para preparar a presidência portuguesa do conselho da UE no início do próximo ano, mas há muito mais em agenda e nos planos do ministério liderado por Augusto Santos Silva.

Internacionalização da economia

Desde logo, assumindo uma prioridade que é geral do governo, garantir a continuação do crescimento económico e reforçar a internacionalização da economia, com o lançamento de um programa específico para levar a cabo até 2030. Nesta dimensão, o MNE apresentou as prioridades como se fosse "um aranhiço", como o esquema mostrado é já conhecido no andar político do Palácio das Necessidades: "uma tentativa de mostrar que nós queremos que o novo Programa Internacionalizar seja o pivô (da dimensão económica da política externa) que articula tudo o que fazemos nos vários planos da nossa ação - e do vosso trabalho - e que tem impacto na internacionalização da nossa economia, porque é essa a nossa responsabilidade própria". A dirigir-se a uma plateia de centenas de diplomatas (na sua maioria) o Ministro dos Negócios Estrangeiros começou por ficar a abordagem nos programas e nas iniciativas da agenda externa com impacto económico, desde logo o pacto das migrações e o que implica em termos de mobilidade laboral, empreendedorismo de imigrantes e comunidades estrangeiras, através da criação de condições sociais, económicas, laborais para refugiados e imigrantes poderem ser "uma via fundamental para consolidar a internacionalização da nossa economia". Mas também destaque para "o programa nacional de apoio ao investimento da Diáspora", o Novo Conceito Estratégico de Cooperação, a transição digital na rede diplomática externa, nomeadamente nas missões diplomáticas, postos consulares e delegações da AICEP.

Na área do comércio externo, Santos Silva lembrou que Portugal é um "beneficiário evidente de acordos comerciais entre a UE e outros países como o Canadá e o Japão e regiões como o Mercosul". O MNE instou a que, com o bloco latino-americano se passe rapidamente das intenções a um acordo. O comércio e investimento é outra área de atuação da diplomacia numa vertente mais económica, sendo que a cooperação no âmbito da CPLP encerra igualmente desafios em termos de mobilidade.

A CPLP e o plano multilateral

O responsável da diplomacia portuguesa espera que da cimeira de Luanda no virar do semestre, possa sair uma "Convenção para a mobilidade no interior da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa". Aí a presidência será angolana (Manuel Augusto, MNE de Angola foi esta segunda-feira o convidado de honra do Seminário Diplomático), depois da presidência cabo-verdiana, muito elogiada por Santos Silva, que acabou por afirmar, em tom perentório: "os cabo-verdianos são nossos irmãos e não pararemos até conseguirmos levar à justiça os autores do espancamento que levou à morte do estudante cabo-verdiano em Bragança".

O governo aposta também num plano de ação cultural externa, uma vez que, nas palavras do ministro, "o setor criativo e das indústrias culturais tem uma importância crescente na internacionalização da economia".

A política multilateral e as relações bilaterais

Portugal continua, no âmbito da sua política multilateral, a apostar no combate ao terrorismo, na reconstrução da relação Europeia com a Rússia e numa melhor compreensão da ascensão da China. No plano bilateral, as relações com o Reino Unido que sai da UE (a definição da nova relação é algo que o governo assume como verdadeiramente estratégico), com os Estados Unidos e as oportunidades na Ásia-Pacífico, vão também marcar a agenda da política externa portuguesa. No âmbito das Nações Unidas, para além da Conferência sobre os Oceanos (que, na verdade serão três grandes conferências), Portugal estará especialmente focado na implementação do Pacto Global das Migrações. No quadro da NATO, será o reforço da dimensão política da Aliança.

A complexa agenda europeia

O governante assumiu no Seminário Diplomático que 2020 vai ter "uma agenda europeia densa e complexa", com o Quadro Financeiro Plurianual ainda por definir, o reforço da União Económica e Monetária, o novo Pacto Ecológico Europeu, o Pilar Europeu dos Direitos Sociais, a Transição Digital, além das negociações europeias com os EUA e com a China.

Reestruturação do MNE

Santos Silva aposta num novo modelo de gestão consular, numa maior capacitação dos serviços centrais do ministério, com metas em termos de recrutamento, contratação e carreiras profissionais, além do reforço da diplomática e consular, cumprindo aquilo que prometeu há três anos no mesmo Seminário Diplomático, no sentido de parar com a política de "cortes e de diminuição de valor", que tinha vindo a ser seguida. O ministro vê o reforço da rede da diplomacia como uma bicicleta que não pode parar: "só não caímos se nos mantivermos em movimento; ou então pomos os pés no chão mas se pusermos os pés no chão, renunciamos a andar". Nas Necessidades, entende-se que é hora de andar para a frente e a rede consular vai ser reforçada, nomeadamente na América.

Falar com todos os grandes atores

Portugal quer continuar a ser ponte de diálogo e "falar com todos os grandes atores globais". Augusto Santos Silva antecipou ainda as grandes linhas da presidência portuguesa daqui a um ano: Europa social, pacto ecológico e ação climática, transição digital, equilíbrio geopolítica e relações com África.

Mais Notícias

Outros Conteúdos GMG

Patrocinado

Apoio de