"Ódio e cegueira política." Sócrates critica opções do Governo sobre o Montijo

José Sócrates escreveu um artigo de opinião no qual critica as decisões do Executivo de António Costa em relação ao Aeroporto do Montijo. O antigo primeiro-ministro defende que Alcochete seria a melhor opção.

O antigo primeiro-ministro José Sócrates critica, num artigo de opinião que assina no Expresso, as opções do Governo de António Costa no que diz respeito ao Aeroporto do Montijo. O antigo governante fala em falta de planeamento, defende que o Montijo é a pior opção ambiental e que Alcochete seria a opção mais rápida e, por isso, a melhor.

Apesar de considerar a decisão de construir um novo aeroporto "um avanço", José Sócrates sublinha que, na sua visão, "não deixa de ser desconcertante verificar como o ódio e a cegueira política impediram o mais elementar esforço racional de previsão e de planeamento".

Num primeiro plano, Sócrates compara os entraves à construção de um novo aeroporto à polémica aquando da construção da Barragem do Alqueva: "Ambos foram atacados como projetos megalómanos(...) como projetos de desperdício de dinheiros públicos(...) como projetos de vantagens ilusórias: nada daquilo que estava prometido se realizaria. Como se viu no Alqueva, não podiam estar mais enganados - o projeto revolucionou a agricultura portuguesa, permitiu a construção de novas fontes de energia limpa, criou uma importante reserva nacional de água e desenvolveu uma nova área turística de grande potencial."

A diferença entre o Alqueva e o Aeroporto, defende, "é que, no primeiro caso, venceram as vozes do progresso; no segundo, as da resignação".

Quanto à construção do novo aeroporto no Montijo, Sócrates diz-se contra por razões ambientais: "Nenhum novo aeroporto internacional de uma capital europeia deve ser construído perto de uma cidade ou ao lado de uma área protegida. Essa impossibilidade resulta da legislação europeia sobre o ruído e da legislação europeia sobre conservação da natureza."

"Afinal, a questão pode ser assim colocada: não é possível dizer que a salvação do planeta é a missão das nossas vidas e, no mesmo momento, decidir que vamos construir um novo aeroporto junto a uma área protegida, na área húmida mais importante do país e junto a uma cidade de mais de trinta mil habitantes. Não, não é a melhor maneira de começar", sustenta.

Outra crítica de Sócrates prende-se com a falta de um estudo comparativo entre a localização prevista e outras que, em teoria, seriam viáveis: "A questão fundamental é procurar a melhor localização entre várias identificadas como viáveis, integrando na análise os custos ambientais. É a isto que se chama avaliação ambiental estratégica. Este ponto é, com justiça, a principal razão invocada por associações ambientais. Na verdade, se a solução Montijo for adoptada ela será a única opção - repito, a única - que nunca teve um estudo de comparação com qualquer outra alternativa. A única."

No mesmo plano, José Sócrates considera que se o aeroporto fosse construído no Montijo, o processo seria mais rápido: "a solução Alcochete tem o projeto aprovado desde 2010. Repito, desde 2010. Esse projeto está feito, tem avaliação ambiental estratégica aprovada, tem estudo de impacte ambiental realizado e tem também a respetiva avaliação ambiental aprovada com o parecer positivo das câmaras que a lei considera necessário à operacionalidade do empreendimento (a avaliação ambiental é válida até 2020)."

Sócrates vai mais longe e sugere ainda que o Montijo só servirá os franceses donos da ANA: "Na prática, a localização de um novo aeroporto internacional em Portugal é escolhida pelos detentores dos capitais privados interessados na sua exploração e à qual o governo se prepara para dar cobertura. E, se a lei não o permitir, como parece ser o caso dada a oposição de algumas câmaras municipais, então o governo tratará não de a cumprir, mas de a mudar."

"Seja como for, arrisco que a tudo isto acresce uma outra explicação: escolher Alcochete significaria dar razão ao Governo Sócrates, e isso não pode acontecer. Sem nenhum exagero, e já que os portugueses durante anos parecem não ter sido capazes de o fazer, a nova localização do aeroporto de Lisboa decide-se em Paris", remata.

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