"Esperemos que não, mas poderemos ter que ir combater"

Francisco Proença Garcia, professor da Universidade Católica e do Instituto de Estudo Militares, reconhece que a guerra na Ucrânia já mudou muita coisa. Entra elas, mostrou que a guerra existe e está próxima.

Francisco Proença Garcia é beirão, nascido em Almeida, Guarda, há 54 anos. É professor do Instituto de Estudos Políticos da Universidade Católica, no Instituto Universitário Militar e vice-coordenador para a área da defesa nacional no Conselho Estratégico Nacional do PSD.

Tenente-Coronel de Infantaria na reforma, ocupou diversas posições de relevo em operações políticas e militares na área da Defesa. Também representou Portugal na NATO na área das ciências e tecnologia.

Tem um olhar valioso de investigador académico e pragmático de um militar sobre a guerra na Ucrânia, mas também sobre as nossas Forças Armadas e as suas capacidades.

Quem é que está a ganhar esta guerra?

Estamos todos a perder, a começar pelos ucranianos que perdem vidas humanas e património. Também Vladimir Putin está a perder prestígio internacional. Por outro lado, a guerra trouxe-nos algo em que estamos todos a ganha: a união da Ucrânia, porque os ucranianos mostraram grande unidade; o fortalecimento dos laços transatlânticos que estavam um pouco esmorecidos desde o período Trump; e o fortalecimento da União Europeia (UE) porque, de repente, os nossos líderes têm uma afirmação muito interessante e num curto espaço de tempo.

Uma invasão é, por definição, uma guerra de infantaria, mesmo que antecedida por operações aéreas e marítimas que, na prática, visam neutralizar as defesas e causar algum impacto psicológico. Em que fase estamos da operação militar especial russa, como lhe chamou Putin?

Espero que estejamos a chegar a uma fase em que os objetivos políticos que o presidente Putin definiu estejam a ser alcançados, para ver se encontramos um cessar-fogo e uma solução para o conflito.

Porque quanto mais se arrastar, mais gente vai morrer de um lado e de outro. Já estamos em negociações, espero que estejamos a chegar a uma fase onde se encontre um cessar-fogo e quanto mais rápido melhor.

Ainda estamos muito longe daquele conceito que conhecíamos de conflitos recentes, da chamada guerra cirúrgica?

Aqui há ações táticas que são cirúrgicas, com bombardeamentos a determinadas bases. Mas isto é uma guerra convencional com ameaça nuclear tradicional como a primeira e segunda guerras mundiais, essencialmente é isso.

Estamos mais próximos de assistir ao consumar da invasão russa e de uma guerra de resistência e guerrilha dos ucranianos, ou de uma escalada militar que depois tenha o envolvimento de terceiros, neste caso, da NATO?

Tenho receio dessa escalada. Gostava que atingíssemos rapidamente o cessar-fogo e que encontrássemos um processo de paz - o possível -, mas tem de haver paz, sobretudo para acabarmos com o martírio daquelas populações. Estamos todos a sofrer o impacto da guerra, na Europa e no mundo.

Relativamente à escalada, podemos ter o cenário da guerra continuar, ser uma guerra de atrito e com resistência popular, com aquele povo em armas, com autodefesa, mas será sacrificar mais pessoas e mais património durante um período longo do tempo. Deve ser evitado.

O outro cenário é o envolvimento dos países da Aliança Atlântica e esse também tem de ser evitado, porque já temos a guerra na Europa, temos a Ucrânia a defender os valores ocidentais e a combaterem e a morrerem por nós, mas depois passamos a ser nós a combater e não sei se estamos preparados para isso.

De maneira que ambos os cenários têm de ser evitados, temos de encontrar uma solução pacífica ou possível quanto antes, seja com perdas de território ou o que for, mas temos de encontrar uma solução rápida para evitar mais baixas e perda de património.

Na intervenção no Senado norte-americano, o presidente ucraniano, Zelensky, voltou a insistir na criação de uma zona de exclusão aérea. Pode explicar-nos como funciona e o que isso significa?

As zonas de exclusão aérea não são novas na história e a NATO já fez várias zonas, como por exemplo na Líbia, em 2011. Mas tem de haver, para já, vontade política e capacidade militar no terreno.

Capacidade militar não são só aviões para impedir que os outros sobrevoem, é capacidade de deteção e de intervenção, quer no ar, quer em terra. Isso requer um número significativo de meios de intervenção, de aquisição de objetivos e de intelligence. Isto não se coloca de um dia para o outro.

Tecnicamente, é possível fazer, só que implicava termos de nós, países membros da NATO, abater aviões russos para os impedir de voar. Isso seria um confronto aberto com a Rússia que ninguém quer, penso eu, que não há vontade política para isso e, pelo menos da parte das populações, nenhum de nós quer ir para a guerra. A partir do momento em que isso acontecesse, estaríamos em guerra.

O nosso compromisso com a NATO é disponibilizar cerca de mil militares na força de reação rápida. Como funciona esta força, que treino especial têm os militares?

Esta força está disponível porque nós as disponibilizámos, em rotação dentro da aliança. Temos sempre forças preparadas para serem projetadas num curto espaço de tempo para onde for solicitado pelo Comandante Supremo Aliado.

Estas forças têm de ser certificadas pela NATO e os nossos homens só estão disponíveis neste momento porque estão certificados.

Ou seja, vêm equipas multinacionais e verificam qual a sua capacidade de atuação, se o equipamento confere, se conseguem conduzir operações com outros países da Aliança. Depois de projetados, podem ficar períodos que, normalmente, são de seis meses.

E existe efetivo suficiente nas Forças Armadas para garantir uma rotação em caso da missão se prolongar no tempo? Isto porque estamos a assistir a níveis mínimos de militares em Portugal...

De facto, os níveis são mínimos, sobretudo no Exército e ao nível das praças. Mas se não tivéssemos efetivos mínimos para garantir este tipo de operação, a Aliança não tinha certificado a força.

Temos de garantir o que projetamos hoje, mas também a sustentação e rotação da força. As Forças Nacionais Destacadas (FND), quer para uma intervenção destas na NATO, quer para outras missões, têm sempre de ter três vezes o efetivo - uma força a atuar, uma a treinar e outra em descanso.

Mas, de facto, os efetivos são mínimos, temos de repensar isso, temos de repensar como aumentar os efetivos, mas é um problema que não é de hoje.

Vamos falar de outra guerra. A comunicação numa guerra conta alguma coisa para quem está a liderar cada uma das partes envolvidas?

Quando fazemos a análise da guerra devemos fazê-lo sempre nas suas diversas áreas e uma das áreas mais importantes continua a ser a parte psicológica.

A componente psicológica, a guerra de informação, a construção das perceções ou a construção de opiniões, desempenham um papel fundamental para a desinformação do adversário.

Mas isto tem sempre a ver com a conquista da opinião pública. Procuro desinformar o adversário e angariar apoios internacionais, utilizando todas as ferramentas disponíveis de informação, desinformação, contrainformação, todas elas, para construir a realidade que pretendo. E o adversário faz exatamente a mesma coisa. De maneira que é uma guerra de informação.

Estes novos tempos trazem armas novas e mais eficazes ou não? Estas novas armas de cada um poder dizer aquilo que quer e de uma forma global, sendo que a propaganda não global, mas agora é.

Quando foi a situação no Iraque ou no Afeganistão, tínhamos informação, mas como tropa de ocupação, recolhíamos a informação pelos nossos soldados. Hoje, estamos a recolher informação, sobretudo, de um país que é ocupado e da população civil e isso muda significativamente a nossa perspetiva sobre a realidade do terreno.

Curiosamente, não do ocupante ou das posições do ocupante...

Exatamente. Isso cria dificuldades adicionais a quem está no terreno a controlar a força e cria dificuldades adicionais à força invasora muito significativas, porque se do outro lado também tiverem acesso a essa informação, a opinião pública também se vai desgastando internamente.

Não há informação a ser difundida sobre a situação da operação do ponto de vista russo. Há informação divulgada pela propaganda ucraniana que mostra uma resistência heroica e, pelo que vamos vendo, nem os repórteres ocidentais que estão no terreno conseguem mostrar. O que é real e o que é propaganda neste primeiro grande conflito da era das redes sociais?

A realidade é que há um estado que invadiu outro e que há um martírio significativo das populações e que as mesmas estão a resistir, além de haver uma grande atrição nas forças russas. Tudo o resto joga a favor e a desfavor e há uma competição significativa pelo controlo dessa informação por ambas as partes, para garantir que continuam a ter a sua opinião pública e a opinião pública internacional a seu favor.

O que é que a comunicação dos governos e das organizações ocidentais nos diz sobre os passos que estão dispostos a dar?

Diz-nos duas afirmações muito importantes e muito consistentes. Uma é que apoiaremos os ucranianos sempre - e foi um passo significativo - com armamento, com equipamento, com medicamentos, com tudo o que necessitarem para combaterem e morrerem por nós, para defender os nossos valores na Ucrânia. Isso é uma afirmação de apoio muitíssimo importante aos ucranianos, com todas as consequências que traz.

Outra afirmação consistente é a de que os países da NATO estão protegidos em todos os centímetros quadrados e isso dá uma sensação de tranquilidade a todas as populações dos países membros da Aliança.

Lembro-me dos países que aderiram à NATO, há 15 ou 20 anos, os do antigo Pacto de Varsóvia, na procura de proteção nuclear e depois à UE à procura de bem-estar.

Isto dá-lhes uma tranquilidade e todos os líderes membros, os nossos ministros, o presidente Joe Biden, todos eles têm afirmado o artigo 5º da NATO de que a defesa é para garantir. Isso dá-nos uma tranquilidade e uma segurança, pelo menos, dá-nos uma paz de espírito e sabendo que os outros estão a combater por nós.

Mas acha que há uma linguagem de guerra por parte dos governos ocidentais nesta altura, para preparar as próprias populações?

A todo o custo temos de evitar a escalada, mas não se garante que não cheguemos lá. Espero que haja a razoabilidade e vontade política suficiente para evitar que a NATO no seu todo entre na guerra.

Se isso acontecer, é dramático para todos nós. As opiniões públicas têm de começar a estar preparadas, mas, pelo menos, esta guerra já trouxe algo às nossas opiniões públicas, vivemos um período longo de paz na União Europeia e com o chapéu da NATO, mas que a guerra é uma realidade e não estávamos habituados a tê-la na Europa.

Já esquecemos o que se passou nos Balcãs, mas não estávamos habituados a ter guerra na Europa, mas temos de manter essa realidade presente e fazer tudo para evitar que ela alastre.

As nossas populações e os nossos filhos têm de estar preparados para um dia, eventualmente, combaterem e morrerem se for preciso, pela UE.

Muito importante também, é que falávamos sempre de autonomia estratégica da UE, mas a autonomia estratégica é muito mais do que apenas na área da segurança e defesa. Isto foi uma wake up call.

Os europeus acordaram de um longo período geopolítico para a realidade, que é que a estratégia continua a existir e que a utilização da força continua a existir nas relações internacionais e que a geopolítica conta. Portanto, quanto mais não seja, teve esta mais-valia para as nossas elites políticas.

Voltando às nossas capacidades, assim como às capacidades do resto dos países da Europa. Volta-se a falar na necessidade de o orçamento para Defesa suba para os 2% do PIB (cerca de 4 mil milhões de euros contra os atuais 2,2 milhões). O ministro da Defesa deu apenas a indicação de que estava previsto chegar a 1,68% em 2024. É urgente rever esta posição e antecipar este valor?

Desde 2014 na Cimeira de Gales, que nos comprometemos com a NATO a ter essa defence pledge, de 2%, mas só nove países dos 30 da aliança é que cumprem isso. Quando é que nós vamos lá chegar? Não sei.

O que temos de fazer é mudar o paradigma de vermos isto apenas da perspetiva que são 2% do PIB. Temos é de olhar como um investimento na área da Defesa.

E um investimento na Defesa não é só comprar carros de combate e navios. Tudo isto tem depois o potencial da mais-valia tecnológica, do desenvolvimento de investigações, associando esse investimento às universidades e, sobretudo, à indústria nacional e à criação de emprego.

Se virmos a Defesa como uma política pública de investimento, com retorno, não só, de segurança, mas também na criação de emprego e na mais-valia tecnológica e de inovação, deverá ser um caminho interessante.

E estes 4 mil milhões chegariam para fazer o quê?

Temos um instrumento muito importante que é a Lei de Programação Militar (LPM) onde são definidas as prioridades. Quando definimos que vamos comprar navios de patrulha oceânica ou novos aviões, não vamos ali ao stand comprar, temos também de pensar no ciclo de vida desses equipamentos.

Basta cumprir o que está na lei e executar na totalidade o que está previsto - porque ela não está a ser executada na sua plenitude - e depois incluir mais um elemento de sustentação.

A nível de capacidades, bastam as que lá estão definidas. Eventualmente, devemos priorizar, mas os ramos sabem bem o que é necessário, portanto, é conversar com eles, redefinir prioridades e não ter o desequilíbrio que temos agora.

Lembro, por exemplo, que vamos precisar de meios aéreos e navais de certeza, mas não é só adquiri-los, é também sustentá-los ao longo do seu ciclo de vida útil e penso que isso não está a acontecer, caso contrário não teríamos as fragatas paradas.

É necessário também investir nas pessoas e acompanhar o compromisso de nível de qualificação que a NATO exige, porque somos tropas aliadas.

Não esquecendo que é muito importante termos a noção de que, na área dos equipamentos, se não acompanharmos o nível de evolução dos nossos parceiros de Aliança, deixamos de conseguir fazer operações com eles.

Isto cria dificuldades, porque se os parceiros migrarem para uma nova geração de aviões ou de drones, mas nós continuamos a ter de sustentar todo o legado do material que já está ultrapassado, temos a desvantagem de que não conseguimos fazer operações conjuntas e combinadas com as forças aliadas.

Temos de manter um nível mínimo que nos permita manter um contributo efetivo dentro das organizações internacionais a que pertencemos, a nível tecnológico e a nível humano.

Mas o que está previsto na LPM, que foi preparada antes de haver este conflito, permite responder a este novo contexto que estamos a viver?

Ou seja, preparar-nos, efetivamente, para uma guerra? Penso que é uma questão de adaptação de prioridades. Esse investimento deve ser feito, mas sempre em diálogo com as Forças Armadas, porque elas é que sabem exatamente o que precisam.

E a componente política sabe, sabendo quais são as capacidades que têm disponíveis, quais são os contributos internacionais que pode dar. Não podemos oferecer aquilo que não temos. Para a situação atual, não devemos responder a quente.

De repente, a Alemanha injeta 100 mil milhões a mais, são muitos zeros a mais nos orçamentos de Defesa, mas para quê e em quê? Já disseram que vão comprar vários aviões, mas vão comprá-los daqui a cinco ou seis anos.

Não devemos responder a quente, devemos olhar para a situação, esperar que a paz seja efetiva. Estamos num processo de redesenhar a Bússola Estratégica, que sai para a semana na UE e, em junho, temos o Conselho Estratégico da NATO, e depois teremos o nosso processo interno de revisão do Conselho Estratégico da Defesa, do militar e das missões.

Face às novas missões que forem definidas, temos de reorientar os esforços financeiros para esses equipamentos, mas não devemos ir a correr atrás do prejuízo nem precipitarmo-nos.

Há pouco disse que só estamos na força de reação rápida da NATO porque fomos certificados para tal, mas cá dentro há uma perceção - passada, por vezes, até pelos próprios chefes militares -, de que não estamos bem preparados, que temos pouca gente. Qual é a verdadeira realidade? Estamos, de facto, ao nível dos nossos parceiros da NATO ou estamos muito atrasados?

É uma mistura. Esta força tem de estar ao nível. É um esforço significativo dos ramos para conseguirem ter essa projeção. Além disso, também temos de ver para que missões é que estamos preparados.

Agora falamos muito no Leste, mas espero que no Conselho da NATO não se esqueçam de que a Defesa é a 360 graus. De repente deixámos de falar no Sahel, e nós temos forças em África.

Temos de ter forças para atuar nesse terreno e forças para atuar no centro da Europa, quem pode o mais e quem pode o menos, mas quem pode o menos depois não consegue fazer o mais. Tem de haver um reequilíbrio nesses equipamentos e, sobretudo, na capacitação humana que penso estar um pouco descurada.

Mas é um mix. Se fosse chefe quereria sempre mais, mas tem de haver um equilíbrio entre aquilo que desejamos e aquilo que é possível e os instrumentos financeiros existem.

E temos de olhar para a defesa como uma política pública de mais-valia e de investimento para a segurança, mas também como mais valia para o produto e para a capacitação do próprio país.

Não acredita então, como já vieram dizer em público vários ex-chefes militares, que as Forças Armadas estão numa situação quase de pré-falência? Ao longo dos 30 anos em que estive nas Forças Armadas, elas estiveram sempre em pré-falência. De facto, atravessam um período crítico, mas lá está, a própria LPM é um instrumento financeiro interessante, mas é pouco flexível para a sua própria execução por causa dos períodos de lançamento dos concursos e da execução orçamental que têm de ser plurianuais.

E às vezes, flexibilizando os instrumentos financeiros que temos à nossa disposição, seria muito interessante para as Forças Armadas e para o cumprimento das suas missões.

Sei as dificuldades que existem em termos de equipamento e de pessoas, mas com o dinheiro que têm tido disponível têm feito coisas espantosas que devem ser salientadas, apesar de tudo. Mas com mais investimento, teremos mais retorno.

Já muita gente está a falar da possível necessidade de atualizar o modelo de recrutamento, não é bem o antigo serviço militar obrigatório que se pretende, pelo que entendi. Qual é a sua opinião e o que é preciso fazer?

O ministro da Defesa esteve esta semana no meu Instituto e houve uma pergunta da audiência sobre se era preciso voltar ao serviço militar obrigatório e aí concordo com a resposta dele.

Não sei se é preciso voltar, mas temos de repensar o modelo atual e o mais importante é lançarmos o debate e esse debate deve ser informado. Não é preciso sequer inventar a roda.

Estou a lembrar-me que há estudos da Academia Militar, quando lá estava nos anos 90, feitos pelo General Carlos Chaves, que são muito interessantes. Seria uma boa base de partida olhar para esses estudos e para os vários modelos de serviço militar. Isso permitiria que tivéssemos uma discussão informada e não uma discussão de "eu acho que" ou "penso que".

Temos de ter cabeça fria, um debate amplo sobre se é preciso ou não serviço militar obrigatório, ou outro modelo de prestar serviço ao país.

O atual modelo de recrutamento voluntário não serve então?

Este modelo de voluntariado e profissional deixou de ser atrativo. Não temos falta de quadros permanentes, o problema está sempre na base e em como é que atraímos e retemos essa base para as Forças Armadas. Nas universidades falamos muito em reter o talento, a questão aqui também é como é que retemos os jovens. Tem de se repensar, tem de se debater.

O que hoje diria sobre isso a quem tem um filho ou filha jovem? As famílias devem equacionar um cenário - impensável até há poucos meses -, que é os seus filhos poderem ter de ir combater?

Se fizesse essa pergunta aos filhos ucranianos há dois meses atrás, eles diriam que nunca iriam combater. E nós, com 70 anos de paz na Europa comunitária - com países que há 20 anos tiveram guerras, como a Croácia que depois aderiu à UE - esquecemo-nos da guerra, tivemos gerações que não passaram por esse fenómeno.

Tivemos guerras em África, os nossos pais passaram por isso e sabem dessa necessidade, mas para os mais novos isso era algo longínquo. Mas penso que também eles acordaram agora para a realidade de que há jovens da idade deles na Ucrânia que não podem vir embora porque são obrigados a combater para defender o seu território.

Costumo dizer aos meus alunos que eles é que combatem, não sou eu que sou velho, têm de pensar nos seus países, e eles percebem que é um fenómeno que estranhamos, mas que temos de ter consciência de que poderemos ter de ir combater.

E os pais dos nossos miúdos - esperemos que não -, têm de ter consciência de que os seus filhos podem ter de ir combater e morrer, e espero que isso não aconteça.

Há pouco falou da definição de conceito estratégico. Não temos uma tradição, ou pelo menos não é conhecida do público, daquilo que é, ou não, estratégico em Portugal. Temos um exemplo: somos o país com maior área marítima da Europa e nessas águas, entre outras coisas, estão cabos submarinos que são essenciais nas comunicações. A defesa aérea e marítima, até por isso, continuam a ser as grandes prioridades nacionais?

São várias perguntas e um grande desafio. Faz-me lembrar o meu grande mestre, o Professor Adriano Moreira, com o qual continuo a estar com frequência.

Ele sempre disse que não temos um conceito estratégico nacional desde o tempo do Estado Novo e eu iria até mais longe e diria que não temos sequer cultura estratégica.

Há muitos grupos de reflexão, mas não está enraizada na população portuguesa uma cultura estratégica. E quando olhamos para a cartografia nacional vemos o território nacional com 92 mil quilómetros quadrados, mas depois temos uma zona económica e exclusiva que é 18 vezes.

A isso vamos juntar uma plataforma continental, quando nos for atribuída pelas Nações Unidas, que é quase 4 milhões de quilómetros quadrados, que é hoje o tamanho da Índia.

E aqui temos de exercer soberania e temos de controlar porque aquilo é território nacional, não vamos pôr infantaria na plataforma continental.

Mas o Almirante Gouveia e Melo (Chefe de Estado-Maior da Armada) tem isso bem definido na sua nova estratégia. Os homens da Marinha pensam muito nisso, assim como os da Força Aérea.

Porém, olhando para a LPM, a robotização e os drones estão lá para 2025 ou 2026, e penso que são alguns dos programas que podem ser antecipados. Temos de pensar muito bem também no poder aéreo, porque como é que fazemos a vigilância e o controlo de quem passa na superfície e na coluna de água - que são os submarinos -, como é que fazemos esse papel?

Não é com a Infantaria, embora esta seja muito importante no território nacional e nas missões externas, mas temos de olhar para toda a dimensão do espaço geográfico nacional onde afirmamos a nossa soberania.

E aí penso que tem havido um certo descuido quanto ao investimento nessa área. Temos inúmeros cruzeiros científicos e os que registam patentes são os alemães e os franceses que exploram a plataforma, e depois quando formos explorar já não podemos porque eles registaram patente.

Mesmo que não consigamos exercer a plenitude da nossa ação, temos de ter o retrato daquilo que se passa e isso é possível tendo meios, satélites, e os militares sabem exatamente o que é necessário.

E se mostrarmos à população o mapa que não é o retângulo, mas toda a plataforma e toda a zona económica e exclusiva, dá-nos uma dimensão quase como a Índia. Estou a lembrar-me das minhas aulas de geopolítica, e os alemães têm um mapa onde comparam a extensão da plataforma continental deles com a nossa, e é exígua.

Devíamos ter essa cultura estratégica e essa sensibilização nos mais jovens e também nos decisores, da dimensão do nosso território.

Na mesma linha: e a ciberguerra, os ciber-guerreiros?

Não sou saudosista, mas há mais ou menos 20 anos houve um camarada meu que teve uma brilhante ideia de criar um curso de guerra de informação na Academia Militar. A Academia Militar tem isso que depois se transformou num mestrado e tem agora uma ciber-academia ao lado, destinada à ciberdefesa.

Sei que há investimentos significativos a serem feitos na área e que estão previstos na Lei de Programação Militar, mas têm de ser executados. Mais uma vez, a execução da lei é muito importante.

Está a ser edificada uma ciber-academia dentro do Estado-Maior-General das Forças Armadas, mas isso depois tem uma capacidade multiplicadora para o apoio à sociedade, onde as pessoas podem ser formadas, vêm trabalhar para a TSF, depois para a banca, para onde seja, e para onde há sistemas de informação.

Isto hoje é transversal. Mas como é que cativamos e retemos um hacker para trabalhar nas Forças Armadas? Não é pagando-lhe 500 ou 600 euros, portanto, quando falamos em modelos de recrutamento temos de ter noção de que há o homem de Infantaria, mas também o homem da ciberdefesa, e para o cativar e reter temos de refletir sobre como.

Podemos comparar esta guerra a que estamos a assistir com o 11 de setembro, no sentido do impacto que teve na segurança e na defesa, mas também no nosso quotidiano?

Nas relações internacionais arranjamos sempre uma estrutura qualquer, foi o muro de Berlim, foi o 11 de setembro e agora a guerra na Ucrânia. Vai ter e já está a ter impacto, veja-se as alterações significativas apresentadas pela Alemanha quanto ao orçamento para a Defesa e a alteração da sua lei para poder vender e fornecer equipamento letal para o exterior.

Essa é uma alteração significativa dentro da Europa. Depois, também o impacto que já está a ter na nossa vida quotidiana com a subida do gás, da eletricidade, etc. O 11 de setembro teve implicações securitárias muito grandes, mas isso levou-nos a um período de adormecimento geopolítico e estratégico, porque andamos apenas focados no terror e as outras grandes economias foram crescendo.

Penso que as grandes consequências sociais e securitárias já estão à vista, mas temos de redefinir e temos de ver o que vem da Bússola Estratégica e do conceito estratégico da NATO.

Depois, as consequências sociais e económicas, que não são as que teremos agora a curto prazo, são as que vamos ter a médio e longo prazo, e penso que isso terá, pelo menos para a área das relações internacionais, muito que estudar e um campo de análise muito vasto.

Isto porque penso que as repercussões vão ser globais na área económico-financeira, na área socioeconómica, na área psicológica com certeza, e na área militar também já são visíveis.

Há muitas frases feitas sobre a guerra e a história encarregou-se de nos deixar muito pensamento produzido ao longo de milénios e séculos. O Professor também é um homem da história militar, acha que houve outra guerra como esta ou não há guerras iguais?

Todas as guerras são diferentes, mas se lêssemos os clássicos, se lêssemos Clausewitz, a trindade clausewitziana está sempre presente: a violência original, a lei das probabilidades e a dependência política, nisso todas elas são iguais.

E ele tem uma outra fase muito importante que é, "a guerra é como um camaleão". O camaleão adapta a sua forma, as suas características são adaptáveis, ou seja, as características da guerra vão evoluindo ao longo do tempo, mas a natureza é sempre a mesma.

As guerras são sempre um fenómeno social extremamente violento e a violência está sempre presente.

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