Pandemia tornou "impossível" traçar metas para tirar sem-abrigo das ruas

Marcelo Rebelo de Sousa assinala que, perante uma pandemia que se pensava ser "coisa de um ano" e que não tem agora um fim certo, não é possível traçar um objetivo definido no tempo.

O Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa, reconheceu este sábado, numa visita a um centro de apoio a pessoas em situação de sem-abrigo, em Lisboa, que a pandemia impossibilitou a retirada de todas as pessoas das ruas até 2023 e lamentou que Portugal tenha voltado a ter perto de dois milhões de pessoas a viver em pobreza.

O centro instalado no Quartel de Santa Bárbara está a funcionar desde setembro, tem 128 camas e, durante a visita do Presidente da República, acolhia 83 pessoas em situação de sem-abrigo. Marcelo Rebelo de Sousa destacou que a meta de retirar todas as pessoas da rua em 2023 já "não é possível", sem apontar a novas datas.

"Quando saímos de uma crise, e houve ali um período de folga antes da nova crise, apontava-se para 2023 no sentido de - salvo aqueles que quisessem continuar na rua - terem condições de acesso à habitação, apoio na saúde mental e reinserção profissional", notou o Presidente da República.

Depois "veio a pandemia, pensava-se que era coisa de um ano, agora dois anos" e, não se sabendo quanto tempo vai ainda durar, "torna imprevisível, e é impossível, honestamente, estar a fixar metas".

Assim, "2023 não é possível, obviamente. Agora, vai para 2025, 2026, 2027?" Tudo "depende da duração da pandemia", defende o Presidente da República.

"É uma exigência tão difícil e tem esta condicionante da pandemia. Com a pandemia ainda presente no final e 2021 e no começo de 2022, se se prolongar por 2022 torna-se mais problemático o cumprimento dessa meta", ressalvou, antes de garantir que tem a meta de "não largar isto nunca, quer como Presidente, quer depois".

"É uma meta de vida. Lembro-me, quando era jovem, com o António Guterres e outros, trabalhávamos nos bairros de lata. Aí era a mesma ideia, mas com outras metas", recordou. "As metas continuam. É mais difícil com 76, 77 ou 78 anos, mas é possível."

Na visita ao Quartel de Santa Bárbara, Marcelo Rebelo de Sousa destacou também as "centenas de milhares de cuidadores informais", antes de lembrar os que vivem em pobreza num número que tem vindo a crescer.

"Recentemente foram dados números e há um compromisso público para retirar da pobreza, nos próximos anos, 230 mil pessoas, de imediato", explicou o chefe de Estado, recordando que "houve um aumento", porque "muita gente estava no risco de pobreza e passou a pobreza". "Voltamos outra vez para os dois milhões", lamentou.

O chefe de Estado visitou os vários espaços, desde as camaratas à sala de informática, passando pelo gabinete médico e o refeitório, onde serviu refeições nesta noite de Natal, equipado a rigor para o efeito com um avental, luvas e uma proteção de plástico na cabeça.

A acompanhá-lo estiveram o presidente da Câmara Municipal de Lisboa, Carlos Moedas, e a vereadora com o pelouro dos direitos humanos e sociais, Laurinda Alves.

O chefe de Estado destacou também a resposta dada a estas pessoas pelas autarquias, as instituições e o Estado, que "tem sido muito boa", e considerou que este centro de acolhimento tem uma "organização espetacular".

Também em declarações aos jornalistas, o presidente da Câmara de Lisboa indicou que recentemente foram encerrados dois espaços "provisórios", porque "as condições não eram dignas", mas a capital tem respostas para acolher "700 pessoas".

"Hoje, em Lisboa, as pessoas que estão numa situação difícil sabem que podem recorrer à Câmara Municipal e que nós temos solução", afirmou Carlos Moedas, garantindo que "ninguém fica sem ser ajudado".

E concordou que não é possível traçar metas para acabar com as situações de sem-abrigo "porque não seriam realistas".

Sandro cumpriu o sonho de conhecer Marcelo

Durante a visita, Marcelo Rebelo de Sousa falou com algumas das pessoas acolhidas neste espaço, entre os quais Sandro Miguel, que lhe explicou que é "um homem 'trans' de 27 anos" que está "na rua há três anos e meio" porque a família não o aceitou.

"Não aceitou? Mas é uma realidade que existe. Nós temos de aceitar os outros como são, somos todos diferentes, não há duas pessoas iguais. Se queremos que os outros copiem exatamente o nosso modelo, a vida torna-se insuportável", defendeu.

No dia de Natal, o Presidente realizou o sonho de Sandro Miguel, que era conhecê-lo pessoalmente. Para assinalar o momento, os dois fizeram a 'selfie' da praxe e o jovem fez questão de oferecer ao chefe de Estado uma pintura da sua autoria.

Um abraço era desejado, mas não foi possível porque nem no dia de Natal a Covid-19 dá descanso: "Senão a doutora Graça Freitas aplica-me logo uma sanção", brincou o Presidente da República.

Mais Notícias

Outros Conteúdos GMG

Patrocinado

Apoio de