Presidente, comentador e professor. As vidas de Marcelo Rebelo de Sousa

Marcelo Rebelo de Sousa liderou o PSD e distinguiu-se no comentário televisivo, numa vida dividida entre o ensino de Direito, a política e a comunicação social.

Marcelo Rebelo de Sousa, reeleito Presidente da República este domingo, liderou o PSD e distinguiu-se no comentário televisivo, numa vida dividida entre o ensino de Direito, a política e a comunicação social.

Liderou o PSD entre 1996 e 1999 e passadas duas décadas, em 09 de março de 2016, assumiu a chefia do Estado, exercendo-a num registo original de contacto próximo e informal com os cidadãos, agenda intensa e presença mediática constante, com intervenção sobre diversos temas da atualidade, e acompanhamento ativo da governação e da atividade parlamentar.

O Presidente que se situa ideologicamente "na esquerda da direita" conviveu neste mandato de cinco anos com um quadro inédito de governação minoritária do PS suportada à esquerda no parlamento, tendo como primeiro-ministro o seu antigo aluno António Costa, e empenhou-se em preservar a estabilidade política.

Católico, com 72 anos, divorciado, com dois filhos e cinco netos, Marcelo Nuno Duarte Rebelo de Sousa nasceu em 12 de dezembro de 1948, em Lisboa, filho mais velho de Maria das Neves Fernandes Duarte e de Baltazar Rebelo de Sousa, que foi governante do Estado Novo, próximo de Marcello Caetano.

"Nasci em finais de 1948, numa família da média burguesia lisboeta, o pai médico, de origem minhota, salazarista da primeira geração da Mocidade Portuguesa, a mãe assistente social, de ascendência beirã. Um e outro, curiosamente, reticentes aos excessos do liberalismo económico, preocupados com os mais pobres", escreveu o próprio Marcelo Rebelo de Sousa, num perfil publicado em 1998.

Cresceu em Lisboa e foi um aluno brilhante, concluindo os estudos no Liceu Pedro Nunes, em 1966, com média de 19 valores, a mesma classificação com que se licenciou em Direito, em 1971, pela Faculdade de Direito da Universidade de Lisboa.

Terminou o mestrado em 1972 e, mais tarde, o doutoramento em Ciências Jurídico-Políticas, em 1984, com uma tese intitulada "Os partidos políticos no direito constitucional Português".

Fez parte de movimentos e grupos da Igreja Católica e integrou a Sedes - Associação para o Desenvolvimento Económico e Social, com o seu amigo de juventude António Guterres, que durante o seu mandato presidencial viu tornar-se secretário-geral das Nações Unidas.

Na década de 1990, os dois amigos coincidiram na liderança dos respetivos partidos, PS e PSD, com Guterres primeiro-ministro e Marcelo na oposição.

Marcelo Rebelo de Sousa iniciou o seu percurso político-partidário no Partido Popular Democrático (PPD) - mais tarde Partido Social Democrata (PSD) - no momento da sua fundação, em maio de 1974.

Redigiu o primeiro comunicado do novo partido, pelo qual foi deputado à Assembleia Constituinte, entre 1975 e 1976, eleito pelo círculo de Lisboa nas primeiras eleições em democracia.

Nas autárquicas de 16 de dezembro de 1979, concorreu pela Aliança Democrática (AD) à Assembleia Municipal de Cascais, da qual foi presidente até 1982.

Após a morte de Sá Carneiro, Marcelo Rebelo de Sousa fez parte do VIII Governo, o segundo chefiado por Francisco Balsemão, entre 1981 e 1983, para exercer, primeiro, as funções de secretário de Estado da Presidência do Conselho de Ministros e, a seguir, de ministro dos Assuntos Parlamentares.

Nos tempos do Governo do Bloco Central PS/PSD, entre 1983 e 1985, integrou o grupo Nova Esperança de oposição interna no seu partido.

Procurou reconstituir uma aliança à direita, com PSD, CDS e PPM, como candidato à presidência da Câmara de Lisboa, nas eleições autárquicas de 17 de dezembro de 1989, numa campanha que ficou marcada pelo seu mergulho no Tejo poluído, por ter feito o papel de taxista durante um dia e ter andado uma noite na recolha de lixo, mas em que acabou derrotado por Jorge Sampaio.

Marcelo tornou-se vereador da oposição e aprofundou a sua amizade com Sampaio, então secretário-geral do PS, que ganhou a presidência da Câmara com uma coligação inédita à esquerda, com PCP, MDP/CDE e PEV.

Chegou à liderança do PSD no pós-cavaquismo - depois de ter afastado esse cenário com a célebre frase "nem que Cristo desça à terra" - e tentou recriar a AD, com o CDS-PP liderado por Paulo Portas, com o nome de Alternativa Democrática, mas o projeto viria a fracassar devido a desentendimentos entre os líderes dos dois partidos, sem chegar a concorrer a legislativas.

Nos anos em que esteve à frente do PSD, de 1996 a 1999, Marcelo viabilizou três orçamentos do executivo chefiado por Guterres, fez com o PS uma revisão constitucional e impulsionou e esteve no lado vencedor dos referendos sobre a regionalização e despenalização do aborto, travando ambos os processos. Neste período, foi vice-presidente do Partido Popular Europeu (PPE), no qual integrou o PSD.

Marcelo Rebelo de Sousa deu aulas na Faculdade de Direito de Lisboa desde o ano letivo 1972/73 e tornou-se professor catedrático em 1992. Ensinou também noutras faculdades e em países lusófonos e foi jurisconsulto.

Excetuando breves interrupções, quando foi deputado constituinte e quando exerceu funções governativas, manteve a atividade docente em paralelo com a política e com o comentário na comunicação social, até assumir o cargo de Presidente da República, jubilando-se ao cumprir 70 anos.

Começou jovem a sua ligação à imprensa escrita, como articulista. Ainda antes do 25 de Abril, esteve na criação do Expresso, onde enfrentou a censura prévia e veio a ocupar cargos de direção e administração, ganhando fama de criador de "factos políticos".

Na década de 1980, lançou outro jornal, o Semanário, e mais tarde aumentou a sua notoriedade como comentador na rádio - no Exame da TSF atribuía notas aos protagonistas em análise - e na televisão com programas de comentário aos domingos, durante 15 anos, na TVI e na RTP, em horário nobre, ficando popularmente conhecido como "professor Marcelo".

Ao longo destas décadas de protagonismo público, Marcelo vincou a sua ligação a Celorico de Basto, concelho no interior do distrito de Braga, terra natal da sua avó paterna Joaquina, onde foi presidente da Assembleia Municipal, durante dois mandatos, de 1997 a 2005.

Foi lá que apresentou a sua candidatura a Presidente da República em 09 de outubro de 2015 e que encerrou a campanha para as presidenciais de 2016, no dia 22 de janeiro, escolhendo como cenário a biblioteca municipal que tem o seu nome e para a qual contribuiu com milhares de livros e documentos.

Marcelo Rebelo de Sousa reside em Cascais, numa casa arrendada, cheia de livros, pinturas e gravuras, e mantém as rotinas de tomar banho de mar praticamente todos os dias em todas as épocas do ano, de ir regularmente à missa e de se deitar tarde, aproveitando muitas vezes a noite para fazer telefonemas.

Antes de ser Presidente da República, presidia ao conselho administrativo da Fundação da Casa de Bragança. Foi também membro do Conselho de Estado, entre 2006 e 2016, designado pelo anterior chefe de Estado, Aníbal Cavaco Silva.

Foi condecorado pelo Presidente da República Mário Soares com a Comenda da Ordem de Santiago da Espada, em 1994, e pelo Presidente Jorge Sampaio com a Grã-Cruz da Ordem do Infante D. Henrique, em 2005.

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