"Tem de explicar porque mentiu". Partidos exigem nova audição a Constâncio

Da direita à esquerda, os partidos já se manifestaram a favor de uma nova audição a Vítor Constâncio na Comissão de Inquérito à CGD. Ex-governador do Banco de Portugal omitiu crédito a Berardo.

O PSD, o CDS, o PCP e o Bloco de Esquerda querem voltar a ouvir Vítor Constâncio na Comissão Parlamentar de Inquérito à Recapitalização da Caixa Geral de Depósitos e à Gestão do Banco.

Em declarações à TSF, o deputado do PSD Duarte Pacheco diz que os sociais-democratas não têm dúvidas de que o ex-governador do Banco de Portugal mentiu na primeira audição e vão entregar, esta sexta-feira, um pedido de nova audição.

"Não temos qualquer dúvida que o dr. Vítor Constâncio não disse a verdade na primeira comissão de inquérito. Queremos dar-lhe oportunidade para poder refrescar a memória e dizer a verdade ao Parlamento e ao país."

Esta posição surge depois de, esta sexta-feira, o Público ter revelado documentação que comprova que o ex-governador do Banco de Portugal autorizou Joe Berardo a levantar 350 milhões de euros junto da CGD para comprar ações do BCP, banco rival, mas omitiu esse facto perante a Comissão Parlamentar de Inquérito.

"Bem sabemos que no seu primeiro depoimento o dr. Vítor Constâncio estava a sofrer um ataque de amnésia e que, portanto, não se recordava de coisa nenhuma. Neste caso é muito mais do que isso. Estamos a falar de autorizações que foram dadas expressamente para que o assalto ao BCP se verificasse", atirou Duarte Pacheco.

"Este assalto ao BCP teve o 'ok' do Banco Central Português e do dr. Vítor Constâncio - não só pela concessão deste empréstimo a Joe Berardo, como também pelas reuniões que foram promovidas pelo próprio governador do Banco de Portugal com potenciais acionistas", acusou o deputado social-democrata.

"É bastante grave"

O deputado comunista Duarte Alves afirmou que o PCP quer perceber "exatamente qual é o grau de envolvimento do Banco de Portugal na autorização destes créditos".

"É bastante grave. Temos um ex-governador do banco de Portugal que diz numa Comissão [Parlamentar de Inquérito] que não tinha conhecimento de uma operação que, de facto, conhecia", comenta o deputado.

"Vamos requerer, ainda hoje, o envio de todas as atas do concelho de administração em que foram discutidas operações de crédito com o objetivo de adquirir participações sociais noutros bancos (...) e também iremos requerer uma nova vinda do dr. Vítor Constâncio à Comissão para prestar esclarecimentos", adiantou à TSF.

"Tem de explicar ao país porque mentiu"

Também o Bloco de Esquerda quer o regresso de Vítor Constâncio à Comissão Parlamentar de Inquérito. A deputada Mariana Mortágua defendeu que o ex-governador do Banco de Portugal "tem que voltar à Comissão de Inquérito e tem de explicar ao país porque mentiu quando disse que era impossível ter conhecimento antecipado das operações e porque diz que não se lembra de operações tão importantes como um crédito de 350 milhões a José Berardo para controlar o BCP."

A deputada bloquista salientou ainda que o Banco de Portugal "tem que enviar à Comissão de Inquérito as suas atas", uma vez que, a opacidade da instituição está a "protegê-la na sua incompetência".

"Foi essa política de opacidade que permitiu esconder esta informação de que a operação de Berardo foi avaliada num conselho de administração", atirou Mariana Mortágua.

"Caso se comprove, o caso tem contornos criminais"

O CDS-PP foi ainda mais longe e admitiu que, caso se comprove que o antigo governador do Banco de Portugal mentiu à Comissão Parlamentar de Inquérito sobre a CGD, o caso deve ser entregue ao Ministério Público.

"As pessoas não podem vir mentir às comissões de inquérito", defendeu a vice-presidente do partido e da bancada Cecília Meireles, no Parlamento.

"Caso se comprove que mentiu, deve enviar-se imediatamente para o Ministério Público, porque o caso tem contornos criminais", afirmou.

"É uma omissão inexplicável"

O líder parlamentar do PS considerou "indispensável que a Comissão de Inquérito à Caixa volte a questionar Vítor Constâncio, mas também o então vice-governador do Banco de Portugal, Pedro Duarte Neves, face à "omissão inexplicável dos seus depoimentos".

"O grupo parlamentar do PS entende indispensável voltar a questionar Vítor Constâncio, tal como o então vice-governador Pedro Duarte Neves, face à omissão inexplicável dos seus depoimentos a esse respeito na Comissão de Inquérito", disse Carlos César.

A 7 de março de 2007 Joe Berardo fez chegar ao Banco de Portugal o pedido para reforçar a posição no BCP. Queria passar de uma participação de 3,99% para 9,99%, tornando-se, dessa forma, um acionista de referência no maior banco privado português.

Para financiar a operação, o empresário iria recorrer a um empréstimo contraído junto da Caixa Geral de Depósitos no valor de 350 milhões de euros, com a promessa de penhora dos títulos que viriam a ser adquiridos. Foram mesmo enviados os contratos de crédito que o empresário tinha firmado com o banco público.

A operação viria a ser aprovada 15 dias mais tarde, numa reunião do conselho de administração do Banco de Portugal, então presidido por Vítor Constâncio. Ao dar aval ao reforço da posição de Joe Berardo no BCP, o regulador não se opôs à forma de financiamento que iria suportar a compra de ações - o empréstimo de 350 milhões concedido pela Caixa, sem garantias reais.

Estes factos contrariam o depoimento prestado por Vítor Constâncio durante a audição realizada a 28 de março: o antigo governador afirmou que desconhecia qual a fonte do financiamento da operação de compra de ações do BCP.

"Claro que [o BdP] só tem conhecimento delas operações de crédito depois (...). Como é óbvio! É natural! Essa ideia de que [o BdP] pode conhecer antes é impossível!", exclamou, na altura, Vítor Constâncio.

Notícia atualizada às 13h07

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