Quem ganhou e quem perdeu? Três opiniões sobre as Legislativas e o futuro do país

Paulo Baldaia, Anselmo Crespo e Pedro Adão e Silva analisam os resultados destas eleições.

Paulo Baldaia: Já chega de Geringonça?

No que a política tem de gestão das expectativas, a vitória do PS ficou muito aquém e a derrota do PSD no país aparece como uma vitória interna de Rui Rio. A derrota que Assunção Cristas assumiu parece não ter chegado a mais lado nenhum e até o PAN a quadruplicar o número de deputados vale menos que a entrada de três novos partidos no Parlamento. Agora é preciso saber como pode o país ser governado.

As promessas de amor eterno à Geringonça, feitas na noite eleitoral por António Costa, pareciam uma canção do bandido.

O líder do PS fará tudo o que tiver de fazer para convencer toda a gente que pretende ter uma Geringonça alargada ao PAN e ao Livre, mas nem o PCP tem essa vontade, nem o caderno de encargos apresentado pelo Bloco permite grande conversa com os socialistas. Acresce que Costa já mostrou não estar disposto a ceder o que ganhou nas urnas, porque tem um programa que foi sufragado roubando votos ao PCP e ao BE. Provavelmente, o PS acabará a governar à vista, seguindo o conselho de Jerónimo de Sousa. O primeiro Orçamento do Estado será aprovado sem ser necessário um grande esforço nas negociações, o segundo será bem mais difícil de aprovar e o terceiro só existirá por milagre.

LEIA A OPINIÃO DE PAULO BALDAIA, NA ÍNTEGRA

Anselmo Crespo: Geringonça 2.0. O PS quer dar um chuto no BE?

Quem achou que as picardias entre António Costa e Catarina Martins durante a campanha eram arrufos de pouca dura, talvez se tenha enganado. O resultado destas eleições dá ao Partido Socialista um cardápio de opções que pode permitir a Costa descartar o Bloco de Esquerda de uma futura solução política. E, se é verdade que no discurso de vitória António Costa voltou a fazer juras de amor eterno à geringonça, não é menos verdade que, se as conversas com o Bloco de Esquerda derem para o torto, o PCP é suficiente para fazer maioria no Parlamento. Isto sem contar com o PAN e com o Livre, que também mereceram uma referência do secretário-geral do PS. O que também não terá sido por acaso.

Tal como há quatro anos, o Partido Socialista começou a sinalizar as suas preferências muito tempo antes das eleições. Sempre elogioso para os comunistas, sempre duro nas críticas contra os bloquistas, o partido de mass media que todos os dias quer ser notícia ao meio-dia, chegando mesmo a desvalorizar o papel que o Bloco de Esquerda teve na formação da geringonça. As rajadas de críticas ao BE vieram de todos os lados: de Carlos César, Augusto Santos Silva, de Manuel Alegre, e do próprio António Costa que nunca perdeu uma oportunidade para "malhar" nos bloquistas e elogiar os comunistas.

Talvez tudo isto resulte de um saber de experiência feita. Afinal, Costa, que sempre achou que o PCP era um partido mais confiável, saberá o que "sofreu" nos últimos quatro anos com o BE e, podendo optar, a escolha é relativamente simples.

Até porque a diferença entre negociar com o BE e com o PCP ficou bem evidente no discurso de ambos os partidos. Catarina Martins apresentou ao PS duas opções para lhe viabilizar um Governo minoritário: uma negociação "ano a ano", que é como quem diz Orçamento a Orçamento. Ou um acordo que traz agarrado um caderno reivindicativo muito concreto e definido: reposição dos cortes da troika, o fim das Parcerias Público-Privadas na saúde, o controlo público dos CTT e o aumento do investimento público. Ou seja, o Bloco não quis encurralar-se a si próprio e tem sempre uma escapatória.

Jerónimo de Sousa, por outro lado, foi muito mais simples na mensagem. O PCP está disponível para apoiar António Costa "em função das opções do PS". Não quer repetir "a cena do papel", mas "entrega" um caderno de encargos suficientemente vago para não inquinar as negociações com os socialistas: "Que se rompa com os interesses do grande capital, colocando a valorização do trabalho e dos trabalhadores como objetivo central, e se rompa com a submissão ao euro e à União Europeia." Basicamente, dá para tudo.

António Costa terá prestado mais atenção a estes dois discursos do que a qualquer outro. E a verdade é que quando chegou a sua vez, o secretário-geral do PS fez questão de deixar um aviso ao Bloco de Esquerda: "Quem fixou como objetivo impedir uma maioria absoluta do PS tem agora uma responsabilidade acrescida." Que é como quem diz agora tem obrigação de chegar a acordo com o Partido Socialista.

E a grande diferença, quatro anos depois, é mesmo essa: é que o PS parece estar convencido que não precisa do Bloco para governar com estabilidade durante quatro anos. Porque tem o PCP, para quem um aperto de mão vale mais do que mil acordos escritos.

Daqui resultam três grandes incógnitas. A primeira é saber se, dentro do PS, esta visão é pacífica para a ala de Pedro Nuno Santos. A segunda é saber até onde está o PCP disposto a comprometer-se com a estabilidade de um Governo PS. E a terceira é perceber que papel assumirá o Bloco de Esquerda se for relegado novamente a partido da oposição, quando o objetivo era chegar-se cada vez mais ao poder. As próximas semanas ajudarão a clarificar tudo isto.

LEIA A OPINIÃO DE ANSELMO CRESPO, NA ÍNTEGRA

Pedro Adão e Silva: Costa e o kit mãos-livres?

A geringonça foi a votos e saiu vencedora. Claro está que os portugueses escolheram entre PS, BE e PCP, mas, na solidão da cabine de voto, estavam a pensar na continuação de uma solução que combinou o improvável: estabilidade política, recuperação económica e contas certas. Por isso mesmo, António Costa, no discurso de vitória, enfatizou o óbvio - vai abrir o diálogo com os partidos que viabilizaram o Governo e alargar o diálogo ao PAN e ao Livre.

À primeira vista, a direita em cacos, o reforço eleitoral do PS, a abertura para o diálogo demonstrada por BE e PCP e até a existência de novos interlocutores concedem maior margem de manobra a António Costa e as negociações para a reinvenção da geringonça podem ser possíveis. Mas talvez seja só mesmo na aparência.

É um facto que o PCP, enquanto se colocou de fora de um acordo formal de governo, foi moderado nas exigências que fez (deixou mesmo cair as matérias laborais, mostrando abertura para viabilizar orçamentos, desde que tenha claros ganhos de causa) e que o BE até sugeriu um compromisso mais estável. Mas o PCP, ao colocar-se de fora de acordos formais, confirma a interpretação de que para conter o definhamento eleitoral tem de voltar ao seu lugar histórico de partido de protesto, e o BE sabe bem que aquilo que coloca como linhas vermelhas não é aceitável pelo PS.

Por isso mesmo, António Costa tem hoje as mãos mais livres para governar do que há quatro anos. Com mais deputados do que o bloco à sua direita e com possibilidade de ir negociando à vez com BE ou PCP (e podendo contar, por vezes, com a abstenção do PSD), as condições para ir navegando à vista são evidentes. Mas Costa e Catarina Martins (e, em menor medida, Jerónimo) estão mais limitados na sua ação do que parece. O seu eleitorado deseja uma reedição da geringonça, mas, dadas as profundas divergências programáticas e sem estarem obrigados a entenderem-se, os líderes vão procurar pretextos para que esta intenção fracasse (foi esse, aliás, o subtexto das intervenções da noite eleitoral). O risco de instabilidade é grande e, convém não esquecer, a desmobilização social, alavancada pelo arrefecimento da economia, pode estar ao virar da esquina eleitoral.

LEIA A OPINIÃO DE PEDRO ADÃO E SILVA, NA ÍNTEGRA

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