"O candidato de que o país precisa". Rio declara apoio a Marcelo em reunião morna

Marcelo Rebelo de Sousa é oficialmente o candidato do PSD ainda que o próprio não tenha formalizado a candidatura. Chefe de Estado foi previamente informado da intenção. Reunião foi longa, mas não ferveu como noutros tempos, ainda que tenha havido críticas.

Prometia ser uma reunião morna, longe da confusão de outros tempos que nem estão assim tão longe, mas o termómetro só subiu quando um tema que nem estava na ordem de trabalhos surgiu: a declaração de apoio do PSD à recandidatura do Presidente da República (e que Marcelo já sabia que ia acontecer...).

"Marcelo é o candidato de que o país precisa neste momento". Foi com estas palavras que o presidente do PSD descreveu o atual Chefe de Estado aos conselheiros nacionais reunidos em Olhão, oficializando aquilo que ele próprio já tinha vindo a dizer há algum tempo.

Completando que Marcelo é "o único candidato da estabilidade" e que "o apoio do PSD é evidente", o presidente do PSD apresentou uma moção da Comissão Política Nacional para que o Conselho Nacional oficializasse o apoio do partido a Marcelo, isto porque é a este órgão que compete decidir sobre este tema.

Na moção a que a TSF teve acesso, a direção do partido escreve que Marcelo Rebelo de Sousa é "o candidato que dá mais garantias de equilíbrio e unidade nacional no quadro da crise que Portugal atravessa", e que todos os outros candidatos já conhecidos representam "projetos de rutura".

A Comissão Política considera ainda que "é normal que, ao longo do primeiro mandato, o PSD não tenha estado sempre concordante com todas as posições políticas por ele assumidas", mas estão "conscientes de que o exercício do mais alto cargo da nação implica uma ação política transversal e desligada de fidelidades partidárias".

Lembrando que "os portugueses, maioritariamente pedem estabilidade, ponderação e moderação aos decisores políticos e rejeitam as ameaças de crises políticas artificiais que em nada contribuem para a superação da crise", a moção encabeçada por Rui Rio nota que "o superior interesse nacional" terá de se sobrepor "às estratégias partidárias, aos projetos e ambições pessoais e às derivas radicais que dividem em vez de unir e mobilizar os portugueses para os desafios que os tempos difíceis anunciam".

No final da intervenção de Rui Rio, palmas dos militantes presentes, mostrando que independentemente da formalização com a votação, o apoio estava mais do que garantido. Na votação que foi antecipada, houve 70 votantes com 61 votos a favor e 9 abstenções.

Já no final da reunião, que terminou já passava das três da madrugada, o presidente da mesa do Conselho Nacional, Paulo Mota Pinto, frisou aos jornalistas que o Chefe de Estado não foi apanhado de surpresa e que "não soube da decisão pela comunicação social".

Paulo Mota Pinto frisa que a decisão foi tomada agora porque "estas decisões são tomadas pelo Conselho Nacional" e porque, dadas as circunstâncias de a reunião estar agendada "este era o momento". E até porque já andam outros candidatos na estrada, sublinha o dirigente social-democrata.

E as autárquicas?

Sobre autárquicas, Rio disse à entrada que era capaz de aflorar o tema na reunião com os conselheiros, no entanto, ao que a TSF apurou, apenas referiu que se trata de eleições "fundamentais" para o partido. Nada de novo, portanto, em relação àquilo que tem vindo a dizer desde sempre.

Entretanto, o secretário-geral do partido que é o coordenador da comissão autárquica submeteu à aprovação deste órgão uma proposta para mandatar a Comissão Política Nacional a "celebrar acordos quadros nacionais de coligação, bem como ratificar as coligações eleitorais autárquicas (...) que se revelem necessários ou convenientes". A proposta foi aprovada com larga maioria, apenas houve 2 abstenções.

No entanto, a proposta de José Silvano é já posta em cima da mesa porque com a situação de pandemia, poderá não ser possível realizar outra reunião deste órgão até ao final do ano e não por se tratar de um desejo explícito do partido. Pelo historial, não deverá mesmo haver mais nenhuma reunião do Conselho Nacional até 2021, basta pensar que a última reunião foi em novembro de 2019 e ainda não havia pandemia.

E sobre o tema autárquicas, o atual presidente da JSD reforçou junto dos conselheiros a ideia que tornou pública esta semana: uma grande força entre PSD, CDS e Iniciativa Liberal.

Antes de entrar na reunião, Alexandre Poço frisou isso mesmo aos jornalistas e, lá dentro, reforçou o repto de uma aliança à direita já para as próximas autárquicas.

Poço sublinha que estes partidos têm "pontos de convergência comum para o futuro" e que nas próximas autárquicas "vão todos a jogo num clima extremado, polarizado e em que cada vez mais o debate público é dominado por visões populistas".

Daí a necessidade de falar neste fórum sobre aquele que considera que deve ser um "entendimento quadro nacional" com CDS e Iniciativa Liberal e que "há espaço para caminhar e fazer esse caminho". Basicamente, haja vontade de Rui Rio e tal poderá acontecer até à luz da proposta apresentada e aprovada neste Conselho Nacional.

Críticos faltam (quase todos) à chamada

Longe vão os tempos em que as divergências internas eram o prato forte dos Conselhos Nacionais, esses tempos ficaram lá atrás, com os maiores opositores a procurar, nesta fase, algum recato e a deixar Rui Rio com margem de manobra.

Sem grandes críticos à vista sentados no Conselho Nacional, o deputado Pedro Rodrigues foi a exceção à regra e assumiu-se como o mais crítico da noite, mantendo a coerência com a atitude que tem vindo a ter na bancada parlamentar do partido.

De acordo com o que a TSF apurou, o antigo presidente da JSD sublinhou que "para ser alternativa", o PSD deve "começar por reformar o partido, não só no discurso, mas sobretudo na ação".

O deputado defende que o PSD tem de se atualizar e "não teimar continuando a ser um partido com uma organização vertical, que ignora a força da militância, que não valoriza o vigor dos autarcas e não potencia as novas tecnologias". Urge, portanto, fazer o debate sobre "a reforma interna e estatutária", tal não pode ser adiado, defende.

Dirigindo-se a Rui Rio, o deputado sublinha as "imensas dificuldades" em construir alternativa ao PS e que "não vale a pena" afirmar que o "obstáculo à afirmação do partido no país são as divisões internas", sublinhando perceber que esse é um "discurso fácil", mas que "não explica" a realidade do PSD.

"Nunca fomos um partido homogéneo ou monolítico e, sempre que procuramos sê-lo não só desvirtuamos a nossa natureza como nos transformamos num partido mais pequeno, incapaz de liderar uma maioria transformadora para Portugal", terá alertado o deputado junto dos militantes apelando agora à mobilização e a que ninguém se "refugie em calculismos ou taticismos políticos" para o "combate autárquico" que considera ser crucial para o partido.

CCDR também motivam críticas

No discurso que fez aos militantes, Rui Rio também deixou uma farpa destinada a Paulo Cunha, o líder da distrital de Braga, crítico que não marcou presença na reunião de Olhão.

De acordo com um relato feito à TSF, o líder do partido atirou ao autarca Famalicão por ter afirmado que não apoiaria o nome de António Cunha para a Comissão de Coordenação e Desenvolvimento Regional do Norte (CCDR-N) e depois foi dos primeiros a declarar-lhe apoio quando a candidatura foi anunciada.

Já a CCDR Lisboa e Vale do Tejo também mereceu um reparo na intervenção do presidente da distrital de Lisboa, Ângelo Pereira, que não gostou de ouvir fontes da direção a menosprezá-lo em declarações ao Expresso.

O semanário avançou que o nome do líder distrital foi proposto para segundo vice-presidente da CCDR pelo PSD-Lisboa, algo que deixou estupefacta fonte da direção que comentou ao Expresso que tal ideia não fazia sentido porque os nomes "têm de merecer algum consenso" e que Ângelo Pereira "nem sequer é um autarca de primeira linha".

Ora, a notícia caiu mal e levou Ângelo Pereira, no púlpito, a chamar "imbecis" às fontes que o criticaram no Expresso. Rui Rio não foi de modas e respondeu que não sabe quem são essas fontes mas que também as acha imbecis, arrancando alguns risos na longa reunião da qual Marcelo, sem estar presente (mas não estava muito longe ao início da noite) acabou por ser o grande protagonista.

*Última atualização às 04h05 com declarações de Paulo Mota Pinto à saída do CN.

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