"Se Adolfo Mesquita Nunes se sentir atraído é bem-vindo na Iniciativa Liberal"

Em entrevista à TSF e ao DN, João Cotrim de Figueiredo admite que Mesquita Nunes poderia ter o apoio da IL para Lisboa e que, no Porto, houve conversas com Rui Moreira. Crise política? Depende "do cálculo" do PM.

Foi gestor de empresas, liderou um banco, passou pelo turismo e pela comunicação social, e está agora na vida política. João Cotrim Figueiredo foi eleito deputado nas últimas eleições legislativas e é, desde há um ano, presidente da Iniciativa Liberal.

A Iniciativa Liberal fez, recentemente, três anos. Participou em três eleições de âmbito nacional. E cresceu sempre. Nas europeias 29 mil votos, nas legislativas 68 mil e, mais recentemente, nas presidenciais, o candidato que apoiou obteve 134 mil votos. Que meta tem em mente para as próximas eleições legislativas? Lutar pelo quarto lugar, ultrapassando o Partido Comunista e Chega, como vão indiciando algumas sondagens?

Nós não temos propriamente o hábito de fazer objetivos quantitativos. E há um motivo simples para isto. Porque penso que quem acompanha a Iniciativa Liberal já há algum tempo percebe que é um partido que sobretudo nasce e existe para afirmar ideias e projetos que sejam diferentes. Isso tem duas consequências imediatas. Primeiro é que, dada a situação política e social em Portugal é um projeto que demora tempo. E o segundo lugar é que só nos interessa cativar e atrair pessoas na estrita medida que essas pessoas sejam cativadas por essas ideias e por esse projeto. E, portanto, é difícil medir em termos quantitativos o que é que isso pode acontecer.

E ainda que essas medidas qualitativa e quantitativa andem de braço dado...

É evidente, porque é um partido político e existe para exercer o poder e para mudar as coisas. Mas não vamos usar atalhos. E é bom que isso fique claro. Não vamos usar qualquer atalho, seja ele mediático, político, comunicacional, para fazer esse crescimento. Porque não adianta crescer com base em pessoas que não acreditam verdadeiramente num projeto liberal para Portugal. Agora, tendo dito isso, é óbvio que nós observamos aquilo que tem acontecido à Iniciativa Liberal e essa trajetória dos resultados que acabou de resumir, e sabemos que continuamos a crescer. Aliás, mesmo os resultados das presidenciais nós sabemos que foi uma eleição em que, provavelmente, houve muita gente disponível para votar na Iniciativa Liberal que não votou em Tiago Mayan porque o Presidente recandidato era uma pessoa muito popular, porque era particularmente propícia ao voto protesto no espaço não socialista e, portanto, mesmo esse número poderia ter sido superior se fosse numas eleições legislativas. E, portanto, é com esse sentido que continuamos a trabalhar todos os dias, sem pressa, sem atalhos - isso é muito importante que fique claro. Portanto até onde é que podemos chegar? Bem, isso, como qualquer líder partidário lhe dirá, dependerá do eleitorado e do povo português. A nossa função é explicar as coisas que defendemos, o mais claramente possível, o mais insistentemente possível, e quem se reveja nessas ideias, pois muito bem, será bem-vindo.

E acredita que as próximas eleições legislativas terão lugar na data prevista, em 2023, ou observa sinais de que poderão acontecer mais cedo. Que é inevitável que um governo minoritário, cruzado com a crise social e económica que o país atravessa, conduzirá, mais tarde ou mais cedo, a eleições antecipadas?

Eu acho que tem razão na premissa da pergunta, que já há sinais de que poderemos não chegar ao fim da legislatura. Mas eu creio que depende sobretudo da análise que o Primeiro-Ministro e Secretário-geral do Partido Socialista fizer sobre as possibilidades de ter uma maioria absoluta.

Está a dizer que, a haver uma crise política, será provocada pelo PS? Percebi bem?

Nunca poderá ser provocada porque o Primeiro-Ministro é hábil e sabe que quem provoca crises políticas é penalizado, mas pode criar as condições para que essa crise aconteça e que seja necessário antecipar eleições. E, portanto, é muito tentador para o Partido Socialista, tal como nós o conhecemos e como se tem desenvolvido na sociedade portuguesa, estar a presidir um governo numa altura em que haverão muitos fundos para distribuir e uma recuperação económica para gerir. E, portanto, nesse sentido eu creio que poderá ser possível criar condições taticamente interessantes para o Partido Socialista antecipar as eleições para antes de 2023. Mas essa é uma futurologia sobre a qual a Iniciativa Liberal não é propriamente perita, nem gosta de fazer.

Mas como vão antevendo alguns observadores, concorda que esse momento pode acontecer já em Outubro, quando tivermos, não só eleições autárquicas, mas também, paralelamente, a negociação do próximo orçamento do estado?

O orçamento do Estado será, certamente, o toque. E, repito, acho que só acontecerá se o Partido Socialista tiver a noção de que é possível chegar a uma maioria absoluta sozinho.

E admite também que essa crise possa ser causada pelo Partido Comunista, que viabilizou o atual orçamento do Estado, e poderá não querer fazê-lo no próximo?

Bom, esta análise que faço é não só em relação ao Partido Socialista e à sua vontade de exercer o poder de uma forma mais hegemónica, faço-a também em relação aos partidos de esquerda, que também têm outras preocupações, que são de sobrevivência. Que é o caso oposto. Se acharem que eleições antecipadas poderão conduzir a uma continuada erosão da sua base eleitoral terão de engolir alguns sapos para não permitir que haja essa crise política. Serão tempos interessantes taticamente à esquerda.

Não engolir esses sapos poderão provocá-la, é isso?

Os sapos poderão ser as medidas orçamentais que não corresponderão aos ideários, quer do Partido Comunista Português, quer do Bloco de Esquerda, e que poderão ter de engolir, caso não queiram porque provocar uma crise política, que seria, eleitoralmente, danosa.

Depois de Tiago Mayan Gonçalves qual é a estratégia da Iniciativa Liberal para apresentar novos rostos ao país?

A Iniciativa Liberal, se forem ver, nestes curtos três anos de história, já teve, nas europeias Ricardo Arroja, como o cabeça do partido nas legislativas o Carlos Guimarães Pinto, teve-me a mim na Assembleia da República e, agora, como presidente do partido teve o Tiago Mayan nas presidenciais.

Daí a pergunta. E depois destes quatro rostos?

Portanto voltaremos a apresentar rostos novos. As autárquicas serão uma oportunidade para o fazer e continuaremos a fazê-lo sempre Não é por nenhuma aversão às pessoas que tem um histórico político mais longo, não é por isso. É porque achamos que é uma forma de dar coerência aquilo que sempre dissemos. Somos um partido de ideias, muito mais do que um partido de protagonistas. E, portanto, nada melhor do que ter pessoas que não têm esse protagonismo, pelo menos inicialmente, para defender as ideias e deixar as ideias falarem por si. E acho que tem estado a correr bem.

Não há mulheres nestes rostos da Iniciativa Liberal?

É uma queixa que eu próprio faço, e que no partido todos os dias tentamos obviar. E haverá mulheres a falar em nome da Iniciativa Liberal. Temos na nossa comissão executiva, que são 19 membros, temos mais de um terço de mulheres e, certamente, muitas delas terão uma visibilidade política maior do que têm hoje.

Gostava de contar com o Adolfo Mesquita Nunes na Iniciativa Liberal? Seria, por exemplo, um bom nome para liderar uma lista autárquica em Lisboa?

Isso é uma decisão que tem de caber ao Adolfo Mesquita Nunes em primeiro lugar. Portanto eu, mais uma vez, sendo um partido de ideias...

...posso repetir a pergunta. Se gostava de?

Se o Adolfo achar - e é uma pessoa com quem eu contacto regularmente e, devo dizer, nunca falámos desse tema, portanto fica também já aqui essa Inconfidência, neste caso, uma inconfidência de algo que não se passou - portanto, se o Adolfo achar que o seu futuro político continua a passar pela participação em partidos, pois com certeza que será bem-vindo, como qualquer pessoa convictamente liberal.

Vai tentar persuadi-lo?

Não, porque, repito, nós não funcionamos em termos de protagonistas. Isso seria a mesma coisa que ir buscar a notoriedade de alguém para ganhar mais votos.

Persuadi-lo pelas ideias da Iniciativa Liberal, naturalmente.

Mas isso, como qualquer português, o Adolfo Mesquita Nunes, ou qualquer pessoa que esteja noutro partido, ouve o que a Iniciativa Liberal tem para defender. Se sentir atraído é bem-vindo. Sempre que qualquer pessoa aderir convictamente ao nosso ideário é bem-vinda à Iniciativa Liberal. É a casa de todos os liberais.

E é a Iniciativa Liberal quem mais mossa política está a causar no CDS?

Não sei, não sei. Uma coisa é certa, nós não gostamos de beneficiar dos problemas de ninguém. Não quer dizer que a nossa afirmação não possa causar problemas políticos, que preferimos que seja no espaço socialista do que noutros, mas não sei se é a Iniciativa Liberal que está a causar os grandes problemas ao CDS. O CDS é um partido que respeitamos muito, tem uma função histórica importante na democracia portuguesa, e achamos mesmo que as notícias sobre a sua extinção são claramente exageradas, tem um papel importante a desempenhar. E, portanto, a afirmação do CDS cabe aos dirigentes do CDS. Não vou comentar sobre isso. Relativamente aquilo que possa resultar de pessoas que estejam desencantadas com o CDS, ou qualquer outro partido, repito mais uma vez o que disse. Se as pessoas estiverem convencidas da justeza das nossas ideias serão bem-vindas. Só nessa medida. Não vamos fazer pesca à linha em lado nenhum.

O CDS vai oscilando nesta dicotomia entre democracia cristã e um cariz mais liberal, e daí a pergunta. Será que é aqui que a Iniciativa Liberal vai conquistando mais apoiantes?

O que eu acho que nos tem trazido mais apoiantes é a coerência e a consistência do projeto que estamos a defender. É o primeiro partido - e é por isso que nasce, aliás - assumidamente liberal em todos os domínios da vida, seja na vida política, seja na vida económica, seja na vida social, nos próprios costumes. E a coerência com que temos defendido isso, nunca transigindo, mesmo quando as posições são menos bem entendidas ao princípio, é isso que nos tem trazido crescimento. O debate que hoje temos na sociedade portuguesa sobre o estado de emergência, a TAP, a taxa única do IRS, a própria eutanásia, não seria a mesma sem insistência da Iniciativa Liberal. Isso, para nós, é que é o ganho político que nos apraz registar. Influenciar a agenda política, influenciar a discussão. Hoje não é possível discutir matérias que tenham alguma componente ideológica, e são quase todas convenhamos, sem falar em liberalismo, sem falar na Iniciativa Liberal.

Sobre a proposta de adiamento das eleições autárquicas, já afirmou que é difícil perceber a ideia de defender essa posição, com oito meses de antecedência. Mas a verdade é que a proposta do PSD vai ser debatida no Parlamento no próximo dia 25 de Março e vai ter que a votar. Já decidiu qual é que é o seu sentido de voto?

Ainda não li exatamente a proposta. E vamos lê-la com atenção a ver como é que votamos. O que dissemos na altura penso que será a base do nosso sentido de voto, que é de que não faz sentido tomar uma decisão dessas com esta antecedência. O que faz sentido, para evitar que a decisão seja tomada em cima do joelho, é definir um conjunto de critérios objetivos quer sobre a situação pandémica na altura, quer sobre o andamento do plano vacinação, quer sobre, prospetivamente, como é que as coisas vão estar em outubro, que é a data previsível para essas eleições e, sobretudo, definir o momento até ao qual essa decisão tem de ser tomada. Porque, obviamente, nestas eleições autárquicas não são só as máquinas partidárias que têm de se organizar, são também muitos movimentos de cidadãos, que têm mais dificuldade em arrancar, parar, voltar a arrancar com campanhas.

E qual deve de ser esse momento? Até ao verão?

Até ao dia 15 de julho seria a nossa proposta.

E para essas autárquicas, provavelmente as eleições mais difíceis que a Iniciativa Liberal vai enfrentar desde que foi fundada, qual é que vai ser a estratégia? Listas próprias? Ou admite coligações, nomeadamente à direta, com PSD e CDS?

A nossa estratégia está definida desde a minha eleição em Dezembro de 2019. Que é uma estratégia de ir sozinhos às eleições autárquicas. Há exceções. Poderá haver exceções em dois casos muito específicos. Quando houver cabeças de lista que sejam independentes, ou mesmo ligados a outros partidos, mas pessoas que nós reconheçamos um perfil liberal.

Rui Moreira, no Porto, poderá sê-lo?

O Rui Moreira poderá ser. Não vou esconder aqui que há, que já houve, conversas com Rui Moreira, mas não foram conclusivas. Vamos ver o que é que daí poderá vir. Uma coisa é certa. Só se houver uma noção de que há uma tendência, um pendor liberal na gestão autárquica que a candidatura dessa pessoa se propõe, é que merecerá o nosso apoio.

Isso significa que Tiago Mayan Gonçalves nunca será, por exemplo, candidato ao Porto?

Não. Poderá ser. Aliás, é a hipótese mais provável que tenhamos uma candidatura própria, e depois será o grupo coordenador local do Porto que proporá o candidato e depois, obviamente, será sujeito aos órgãos do partido.

Mas interrompi-o. Ia falar da segunda situação, em que poderá haver...

A segunda situação é quando houver gestões autárquicas já longas de forças, de forças que nós consideremos particularmente iliberais, socialistas ou comunistas, e que haja uma boa hipótese de acabar com essa gestão, a bem dos municípios desse concelho.

Está a pensar em Lisboa?

Estou a pensar em Lisboa, por exemplo. Agora, e mais uma vez, isso implica que a pessoa que vier a encabeçar uma candidatura seja alguém que possa acolher no seu programa um conjunto de ideias liberais que são importantes para nós e que, em segundo lugar, a política de alianças nessa eventual coligação seja clara e nos seja aceitável.

E Adolfo Mesquita Nunes poderia reunir essas condições?

Poderia. Poderia.

Como é que compara o percurso nas sondagens do Chega, que também elegeu um deputado nas últimas eleições legislativas, e o da Iniciativa Liberal?

Sem querer meter a foice em seara alheia e fazer o processo editorial por vocês, eu diria que o verdadeiro fenómeno político em Portugal é a Iniciativa Liberal. Porque, com um décimo da exposição, um décimo do barulho, um décimo da utilização de atalhos e de técnicas comunicacionais, tem metade ou mais das intenções de voto do Chega. E, portanto, este é que é o crescimento que é difícil de fazer. Este é que é o tipo de política que é difícil de fazer. Que é pegar em ideias, que muitas delas não são comuns, não são familiares às pessoas, às vezes não são fáceis de entender, usar pessoas que não têm protagonismo e não o buscam de uma forma fácil, e fazer atração de eleitores para aí. Portanto, eu estou muito satisfeito com a evolução da Iniciativa Liberal.

A sondagem mais recente parece indiciar uma aparente transposição de intenções de voto do Chega para a Iniciativa Liberal...

A esse propósito vou só dizer o seguinte que acho importante: há muita gente que tem usado a expressão "meio milhão de eleitores de André Ventura nas presidenciais é uma força que tem que ter sida em conta". É meio milhão de pessoas que se revêm em determinado tipo de posições, discursos ou de problemas. E a nossa função na Iniciativa Liberal, porque falo por ela, mas de todos os partidos que não se reveem nesse tipo de discurso, é não escamotear os problemas, não achar que essas pessoas que votam de determinada maneira são portugueses de segunda, e mostrar-lhes que há alternativas e que há soluções. É isso que nós fazemos. E se houver alguma transferência, não faço essa leitura das sondagens com tanta certeza, mas, se houver, vamos pôr essa hipótese, é porque as pessoas estão a ver que há outra maneira de fazer política, há outra maneira de responder aos problemas, que têm levado a esse determinado voto de protesto dos partidos que escolhem um caminho mais fácil. Nós não escolhemos o caminho mais fácil, nós não escolhemos atalhos e, volto a dizer, e embora o faça em causa a própria, o grande fenómeno político em Portugal é a Iniciativa Liberal.

É certo que os acordos foram assinados em separado, mas a soma de todos, no fundo, permitiu viabilizar o atual Governo dos Açores liderado pelo PSD. Com essa atitude política a Iniciativa Liberal não contribui para aquilo que muitos qualificam como uma espécie de normalização do Chega?

Não, aliás, a história dos Açores conta-se facilmente. Porque nas eleições dos Açores, de facto, o deputado Nuno Barata, eleito pela Iniciativa Liberal, foi decisivo para a construção dessa maioria, e, portanto, nós não fomos abordados por mais ninguém sem ser pelo PSD, nem sequer pelos parceiros de coligação do PSD, para ver da viabilidade de conseguirmos votar a favor de um governo que o PSD viesse a formar. Nós pusemos uma série de condições, cerca de 10 condições, que tinham todas a ver com a desburocratização, a desregulação, a privatização, a liberalização da vida nos Açores, que tanto tem sofrido com 24 anos de maioria absoluta do Partido Socialista. E não ficámos comprometidos com mais nenhuma medida do que aquelas que estavam no nosso acordo, bilateral, com o PSD. Não falámos com mais ninguém. E, portanto, o que vai acontecer é a Iniciativa Liberal votar ao lado de outros partidos nas matérias que lhe interessa. Votar ao lado de outros partidos é o que acontece todos os dias na Assembleia da República, na Assembleia Regional dos Açores, na Assembleia Regional da Madeira. Votar ao lado não é uma normalização. É uma coincidência conjuntural de pontos de vista. E estamos muito confortáveis com o acordo que temos nos Açores, e vamos estar muito vigilantes, relativamente aquilo que será a prática política do governo PSD/CDS-PPM nos Açores. Já a começar neste orçamento regional para 2021, onde as matérias que acordámos com o PSD devem começar a ser tratadas, devem ter reflexo nesse orçamento.

Qual é que é a massa cinzenta, chamemos-lhe assim, que alimenta a Iniciativa Liberal? Ela baseia-se na estrutura interna do partido, se calhar em rostos que nós não conhecemos, ou recebe contributos exteriores, provavelmente de muitos empresários, que serão mais liberais. O que é que alimenta o partido?

Alimenta uma enorme capacidade de aproveitar o melhor que as pessoas têm. É, se quiserem, à escala de um partido, aquilo que gostaríamos que acontecesse em Portugal. Nós não distinguimos de onde vêm as ideias. Membros, não membros, mais velhos, mais novos, do interior, do litoral, das profissões. Falou dos empresários. Nem tem sido dos empresários que têm vindo com parte das ideias, sejam elas de políticas, sejam elas de comunicação...

Então têm vindo de onde?

Portanto, o que temos é um conjunto de pessoas, muitíssimo atentas, sempre ligadas aos fenómenos sociais, que se estão a passar a vários níveis em Portugal, e capazes de detetar boas pessoas, boas ideias. Isso é algo de que Portugal carece, como pão para a boca. Que é a capacidade de reconhecer que há imenso valor na sociedade, que só por não estar enquadrado nesta ou naquela estrutura acaba por não se ser aproveitado. Nós somos ao contrário, isso é o DNA do partido, muito aberto a ideias novas e a não dar nada por adquirido ou fechado, questionar sempre aquilo que se está a fazer. Porque, na maior parte dos casos, é sempre possível fazer melhor.

Vai ser líder da Iniciativa Liberal até quando? Pergunto-lhe isso porque, quando em dezembro de 2019 foi eleito, com 96% dos votos, disse que não havia, na altura, mais ninguém interessado. Já tem alguma estimativa sobre o momento em que passará o testemunho?

Não. E acho que a política não se faz assim, não se estabelecem prazos dessa natureza. Eu vou dizer uma coisa óbvia, mas que convém ficar dita, até para memória futura. O exercício de cargos políticos, neste caso de líder partidário, depende, obviamente, da vontade da própria pessoa, portanto, se um dia eu estiver infeliz a fazer política, serei o primeiro a reconhecer isso.

E não está infeliz?

Não. De todo. Sou uma pessoa que se motiva muito por projetos e, portanto, mesmo as dificuldades do dia-a-dia, a falta de sono do dia-a-dia, as agruras do dia-a-dia, tendo um objetivo e estando as coisas a correr como estão é suficientemente motivante para não haver qualquer espécie de cansaço. E a segunda são uma apreciação, que essa já não é só pessoal, é do próprio partido e de quem esteja envolvido nas decisões, de qual é a melhor solução. E, se numa determinada altura, houver uma melhor solução para liderar o partido do que eu, no sentido de que é mais capaz de implementar um Portugal mais liberal e influenciar políticas, aí eu serei o primeiro a dizê-lo.

Mas, nesta altura isso não existe? Esse outro rosto...

Eu só posso dizer, da minha parte, que a motivação é total. Relativamente ao resto, as pessoas que se quiserem, eventualmente, candidatar à liderança da Iniciativa Liberal, sabem que há uma convenção eletiva o final do ano, e outra dois anos depois, e são sempre livres, e bem-vindos

E será candidato, pelo que percebemos.

Serei. Serei candidato certamente.

Crise económica. E começando por ouvi-lo sobre um setor que conhece muito bem. Foi presidente do Turismo de Portugal. Está otimista? Acredita num verão de franca recuperação para o setor ou houve um tempo para o turismo que não voltará ou não voltará tão cedo?

Eu não gosto de falar das coisas estando de fora, não conhecendo todos os detalhes. Portanto aquilo que eu disser tem de ter levado com essa pitada de sal. Não acho que seja fácil gerir uma atividade como o turismo no contexto pandémico, isso é mais ou menos óbvio, e houve um momento onde eu achei que teria sido possível fazer, e continuo a achar, que, de alguma maneira ainda é possível fazer, algo que não creio que esteja a ser feito, que é conciliar a estratégia de vacinação com uma estratégia de promoção turística. Porque quando chegar a altura de maior incidência de reservas turísticas de estrangeiros para Portugal, não tenho dúvida que a maior parte desses estrangeiros, individuais, famílias, grupos, o que sejam, vão estar a comparar a situação de segurança sanitária nos vários destinos possíveis. Portanto, nós deveríamos ter um discurso de quem está, verdadeiramente, preocupado com a segurança dos seus cidadãos, desde logo, mas também da segurança de quem nos visita.

Já não basta vender o sol, digamos assim?

Não. E não basta olhar a pandemia como um problema sanitário. Isso é um erro brutal. É focar demasiado na única vertente que tem sido tratada, ignorando os problemas sociais, económicos, de saúde mental... Uma coisa que muito preocupa é uma sobrevalorização da segurança em relação à vontade de recuperar e voltar a crescer. E isso pode ter danos muito mais duradouros do que propriamente só os que advêm, e já não são poucos, da crise sanitária. Portanto, voltando ao tema do turismo, isso teria sido possível fazer a determinada altura, que é ter uma estratégia de combate à pandemia, a começar na vacinação, que é aquela que é mais visível para as pessoas, mas noutros domínios também, que pudesse dizer a quem nos quer visitar, eis um país mais seguro do que outros. Porque eu creio que Maio/Junho será o limite para as reservas de verão, ainda nenhum país europeu poderá dizer que é 100% seguro, mas podemos ser mais seguros do que outros. E isso acho que não está a ser feito.

Na sua experiência profissional foi também um homem que passou pela indústria, pelo grupo Sumol/Compal. Como é que avalia o plano Europeu de Recuperação e Resiliência que aposta, por exemplo, na digitalização e na indústria 4.0? Vai ser suficiente para levantar do chão a indústria portuguesa, tal como ela está hoje?

Não, não vai. Este plano de Recuperação e Resiliência, que tem um nome que, só por si, já diz muito sobre a forma como está construído... Porque basicamente é de recuperação para o Estado, e se há resiliência que é pedida é pedida às empresas. Porque 90% dos fundos que ali estão são, ou investimentos públicos diretos, ou investimentos que não passam pelas empresas. Em relação ao plano, que é herdeiro do plano Costa e Silva, o famoso plano que tinha mais de 80 prioridades e mais de 80 coisas fundamentais essenciais, não varia muito em relação ao original. Tem 19 componentes que não são deste plano e eu desafio, a encontrar nessas 19 componentes uma que seja realmente virada para duas coisas que, para nós, eram realmente fundamentais: exoneração fiscal, e permitam-me dar aqui um passo atrás... A economia mundial vai toda ela precisar de se reinventar, numa certa medida, e toda ela vai ter de voltar a experimentar e a testar coisas. Portanto exige muitíssima liberdade de criação e de experimentação. Vão falhar muitas vezes e, portanto, a possibilidade de voltar a tentar, voltar a insistir... Esta experimentação e erro, esta dinâmica económica é fundamental que Portugal a adquira. Porque ninguém acerta à primeira e as coisas mudaram o suficiente para ser particularmente difícil acertar à primeira. Portanto, a componente fiscal tem a ver com isso. E a segunda grande prioridade que devia ter é a capitalização das empresas. Tornar possível que as ideias, ou as ideias de negócio, possam ser testadas, sem ter as empresas inibidas de fazer essas tentativas por manifesta exaustão da sua base de capital. Portugal nunca foi, há muitas décadas que não o é, um país capitalizado. Temos esse problema sério desde há muito tempo e boa parte disso tem a ver com o ódio ao lucro que a esquerda tem conseguido pôr na agenda. Portanto, a capitalização tinha que ser a primeira, a segunda e terceira prioridade. E o que é que vemos no plano de Recuperação e Resiliência? Uma pequenina fatia dedicada ao Banco de Fomento, que ninguém sabe muito bem como é que vai funcionar, que as primeiras coisas que sabemos é que vai ser encabeçada por alguém cujo único currículo é ter servido no gabinete do Ministro Caldeira Cabral, ter prestado um serviço ao Partido Socialista, e não conhecer nada de banca e muito menos de empresas. Portanto, nada disto está certo. Segunda coisa que nos preocupa é que não há nenhum sítio onde nos esteja garantido que os projetos, mesmo aqueles não sejam diretamente económicos, no sentido mais estrito do termo, tenham o seu retorno avaliado. Não há um critério de retorno, seja ele económico, seja ele social, seja ele de desenvolvimento. Não há. Em lado nenhum.

Portanto, teme um falhanço do PRR?

Temo. E ainda por um terceiro motivo. É que a governação que está a ser prevista é exatamente a mesma que está a ser utilizada para os fundos estruturais normais que vem da Europa. Portanto, Ministério do Planeamento e as CCDR. E o que é que se passou nas CCDR há poucos meses? Eleições partidariamente cozinhadas para que haja representantes dos partidos do sistema a controlar os fundos que vão ser aplicados. Portanto não auguro nada de absolutamente bom. E, no passado, o que aconteceu com este tipo de planos e de investimentos foi que muitos deles, não tendo retorno, que era mais ou menos óbvio que não iriam ter, contribuíram para a montanha de dívida pública que Portugal tem, e sem contribuir para o seu desenvolvimento.

Tem votado contra o Estado de Emergência. Sem o confinamento que estamos a viver, não estaríamos a prejudicar ainda mais a recuperação da economia?

A ver se eu consigo, desta vez, tornar clara a nossa posição. A Iniciativa Liberal é contra "este" Estado de Emergência. A Iniciativa Liberal é favorável às medidas que, comprovadamente, combatem eficazmente a pandemia.

Isso quer dizer o quê?

Isso quer dizer que há Estados de Emergência que, se se resumissem a tornar legalmente possíveis as medidas que são eficazes, a Iniciativa Liberal votaria a favor. Não é o caso. Vamos no 12º Decreto Presidencial de Estado de Emergência. Continua a ter medidas e poderes conferidos ao governo. Um governo que, nossa opinião não só não é competente a gerir a pandemia, como não é confiável na utilização desses poderes. Continua a ter controlo de preços, obriga as pessoas a trabalhar onde podem não querer, continua a ter um conjunto de limitações que não são razoáveis, e que não são consistentes com aquilo que seria o respeito pelas liberdades individuais e garantias constitucionais que os portugueses devem beneficiar. Tendo dito isto, também penso que nos podem fazer a justiça de temos sido o partido que mais sugestões concretas fez para que os Estado de Emergência e os decretos não fossem tão maus. Só neste último há três coisas pelas quais nós nos batemos. A possibilidade de venda de livros, a não proibição de viagens por parte dos estudantes Erasmus, e uma obrigação de que o plano de regresso ao ensino presencial nas escolas seja preparado desde já.

Se fosse Governo reabriria já as escolas?

O mais rapidamente possível.

Isso significa o quê?

Significa que tem que ser possível arranjar um equilíbrio muito melhor, que não dependa só do combate à pandemia, entre aquilo que é um atraso, muito duradouro, na capacidade de aprendizagem de toda uma geração. Estes dois meses de suspensão de aulas, mais os três do ano passado, podem ter efeitos durante anos.

E como é que faria. Começaria por libertar o primeiro ciclo e colocar na escola os miúdos que estão a começar a aprender?

Bom, a primeira coisa era o Primeiro-Ministro estar rodeado, desde o princípio, de pessoas que o pudessem efetivamente ajudar a tomar decisões. Ele saber-se rodear, melhor dito. Porque é que isto é importante? Porque não pode ter só uma lógica sanitária. Tem que ter uma lógica, como disse há pouco, de desenvolvimento económico, de desenvolvimento social. Há cicatrizes desta pandemia que vão durar muito mais tempo do que a cicatriz das pessoas que adoeceram com este fenómeno. Já não falo só das pessoas que já morreram por outros motivos, porque estamos demasiado concentrados na pandemia. Estamos a falar de coisas muito duradouras. Portanto, primeiro rodear-se bem. Segundo saber usar o conhecimento para fazer algo que, até agora, se repararem, não tem acontecido. Portugal está permanentemente a ser surpreendido pela pandemia. Mais do que outros países. Nós tivemos o chamado milagre português. Ninguém soube explicar muito bem porquê. Passado uns meses somos o pior país do mundo. Ninguém sabe explicar o porquê. O crescimento do índice de infecciosidade em dezembro foi absolutamente astronómico. Ninguém sabe explicar o porquê. A redução desde finais de Janeiro é enorme. Ninguém sabe explicar o porquê. O ninguém sabe explicar porquê é uma demonstração de descontrole e gera, portanto, esta quase ânsia de que a única maneira de resolver o assunto é confinar tudo. O confinar tudo não resolve. Pode momentaneamente produzir números bons, do ponto de vista da pandemia, mas cria problemas muito superiores

Esta semana, no final do Concelho de Ministros, o governo afirmava não querer criar expectativas de que o desconfinamento estará para breve. Se fosse o governo João Cotrim Figueiredo acabaria com o confinamento?

Faço a mesma nota prévia de há pouco. Não sabendo os detalhes o que eu vou dizer deve ser levado com isso em consideração. Não, o que eu faria, desde o princípio é ter tornado muito mais claro o que é que são os critérios que levam, ou não levam, a desconfinar. Porque numa pandemia destas é impossível ter zero infeções. A menos que as pessoas se fechem todas em casa, individualmente, cada uma no seu quarto e não contar com ninguém durante um mês. Aí controlávamos a pandemia. Ninguém está a defender isso. Por um bom motivo. Porque é ridículo, os custos seriam enormes. E, portanto, o que nós estamos a discutir é que o equilíbrio que foi encontrado é demasiado do lado da segurança sanitária e com muito pouca consideração para outros problemas, que mais tarde vão todos dizer "realmente foi uma coisa, devíamos ter estado mais atentos". O atraso educacional que eu já mencionei, as mortes não COVID que eu já mencionei, os problemas de saúde mental que estão a crescer muitíssimo, sobretudo nos mais jovens, tudo isso são problemas que vão demorar anos a resolver. E tem de ser tratado já. E para isso é preciso coragem, coisa que este Governo, muitas vezes, não tem tido.

A justiça holandesa decidiu há dias pela ilegalidade do recolher obrigatório da população. Embora não seja jurista, acredita que se o mesmo viesse a verificar-se em Portugal, nomeadamente pelo tribunal Constitucional, se viesse a ser chamado a tomar opinião sobre o assunto, haveria motivos para impedir o confinamento dos portugueses?

Enquanto não jurista não posso responder. O que eu sei..

Mas está, seguramente, bem aconselhado.

Estou bem-aconselhado, mas mesmo assim não vou pôr na minha boca opiniões que poderão ser de outros, mas vou-lhe responder desta maneira. Penso que, logo no primeiro ou segundo decreto presidencial, a nossa posição foi, para além daquela que já referi sobre o defesa das liberdades individuais, foi de que este decreto e este Estado de Emergência destina-se, sobretudo, a dar cobertura legal a uma série de matérias e decisões que o governo quer tomar e que podem ter implicações que abram porta à litigância. Não tem mal nenhum. Acho que é um bom motivo dizer que o Estado não deve litigar sobre coisas pelas quais necessitou de fazer. O que tem mal é não assumir isso. Portanto, voltando à pergunta, um Tribunal Constitucional, como fez o holandês, decreta a ilegalidade de determinadas medidas. Pois, se é um Tribunal Constitucional tem que se, obviamente, acatar. Eu acho é que isso pode significar que há países onde o respeito pelos limites constitucionais, nomeadamente no que concerne às liberdades, são levados muito mais a sério do que em Portugal. E isso custa-nos.

Trabalhou em bancos e instituições financeiras. É sabido que o Governo está a rever o tema das moratórias do crédito. Pergunto-lhe se lhe parece realmente inevitável que as moratórias tenham de ser prolongadas para lá de Setembro? E, se sim, até quando?

As moratórias têm duas formas de serem vistas. Uma é com proteção dos devedores que não têm, em muitos casos condições para continuar a honrar os seus compromissos e, portanto, as moratórias são uma espécie de suspensão dado o estado absolutamente excecional em que vivemos. E a segunda maneira de olhar é como proteção aos balanços dos bancos para que não tenham de reconhecer imparidades e dificuldades na cobrança desses créditos. É um empurrar com a barriga assumido, mas que não pode durar. E aqui tem de ser encontrada uma solução sobretudo partir de propostas do próprio setor financeiro. Muitas empresas, descapitalizadas como estão, não terão condições para voltar a honrar os seus compromissos quando se acabarem as moratórias.

E para que a banca não fique com esse menino nos braços, chamemos-lhe assim, deveria estar já apresentar um plano alternativo de prolongamento dessas moratórias, é o que está a dizer?

Eu não quero ser acusado de estar aqui a falar em nome dos bancos e a fazer sugestões, mas eu se estivesse do lado do sistema financeiro era exatamente isso que estaria a fazer. Porque pode ser cómodo, de um ponto de vista imediato, não reconhecer esses problemas no balanço, mas a prazo, e não muito longo, é um problema maior do que aquele que está a tentar resolver.

E poderão existir, no futuro, no pós-moratórias, bancos incapazes de resistir, como vimos na última crise financeira?

Podem.

Teme que uma nova crise financeira se possa instalar, depois da pandemia?

Bom, as crises económicas raramente deixam de ser crises financeiras também. Aliás é uma coisa que não é suficientemente repetida, s prejuízos enormes dos bancos e os apoios que alguns deles receberam, em Portugal e noutros sítios, em boa parte foi porque os créditos que tinham concedido, não foram repagos e criaram problemas. Portanto o dinheiro não foi provavelmente todo queimado. Houve casos ilícitos, que são públicos e que merecem toda a reprovação e punição. Breve, se possível. Mas o grosso do "buraco" da banca ficou na economia, ficou nas empresas que não conseguiram repagar aquilo que deviam. E, portanto, no futuro, pode voltar a acontecer. Eu espero que não aconteça. Por isso é que acho que atempadamente o sistema financeiro devia participar numa solução, devia propor uma forma de o fazer, para que não juntemos uma crise de liquidez à crise de descapitalização que já temos.

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