"Se ganhássemos Lisboa era um marco da vitória"

Entrevista TSF/JN a José Silvano, secretário-geral do PSD.

Não se pode dizer que desconhece o chamado Portugal profundo, aquele que anda cheio de promessas por cumprir. Foi presidente da Câmara Municipal de Mirandela e preside à Comissão Política Distrital do PSD em Bragança. Deputado, secretário-geral e coordenador das autárquicas do PSD, José Silvano aponta os objetivos para o combate de setembro, comenta as divisões internas e critica a Justiça no caso das presenças-fantasma no Parlamento.

Rui Rio, há quatro anos, quando assumiu a liderança do partido, defendia que não era determinante ganhar as legislativas. Esta semana, assumiu que um mau resultado nas eleições autárquicas será um "encontrão para cair". O que é um mau resultado para o PSD?

O presidente do PSD tem sido claro e cada vez que se aproxima mais o ato eleitoral, mais objetivo tem sido, porque é um ato de responsabilidade dizer ao que se vai. O que o partido na Comissão Política Nacional decidiu é que um bom resultado para o PSD é ter mais câmaras do que em 2017, (e tivemos 98)....

Mas 2017 foi um ano mau para o PSD, teoricamente é uma fasquia fácil de superar.

Não, não. O resultado mau nas autárquicas não é apenas em 2017. É que o PSD desde 2005 vem tendo trambolhões sucessivos nas autárquicas. Em 2009 foi pouco, em 2013 foi quase um terramoto e em 2017 foi ainda pior. Não é fácil inverter este ciclo. Por isso é que o objetivo é tão claro: se tem sido sucessivamente tão mau, então há que dar a volta. Mais câmaras municipais, mais eleitos locais (temos 13 500) e mais votos.

Bastará que um dos objetivos não seja cumprido para que Rui Rio assuma a saída da liderança?

Nós estabelecemos o objetivo autárquico. Depois o que condicionará ou não a permanência ou a saída deste líder do PSD, que nisso também é imprevisível, é a análise que ele fará na Comissão Política sobre o resultado em primeiro lugar e o que o resultado dá em termos de perspetivas objetivas para ganhar as eleições legislativas.

Não teme vir a ser apontado como o principal responsável pelos resultados, como o líder do PSD fez ao coordenador das autárquicas de 2017, Carlos Carreiras?

Ao contrário. Digo aqui aberta e objetivamente que se não conseguir estes resultados sou um dos responsáveis, assumirei as responsabilidades publicamente, o que não vi fazer no passado. E assumirá também o presidente do partido, porque é uma responsabilidade partilhada.

Rui Rio classificou como "muito desagradável" a deliberação que está a ser preparada pelo Conselho de Jurisdição Nacional sobre as escolhas da direção para algumas autarquias. É mais um empurrão contra esta liderança?

É pelo menos um empurrão, que já vem numa série de empurrões, para que o resultado autárquico possa não atingir os objetivos. Entendemos que este conjunto sucessivo de episódios no Conselho de Jurisdição são situações geradas para criar dificuldades ao partido em atos eleitorais.

Não são um sinal de desunião do partido?

O PSD nunca foi um partido unido, a não ser no poder. Vamos ser claros e objetivos. Nós estamos na oposição e o PSD na oposição queimou vários líderes até chegar um para primeiro-ministro. Que chega lá às vezes por demérito de quem está no poder e às vezes ainda não tinha caminhado para ter mérito próprio. A verdade é que estamos a dois meses e pouco de eleições que deveriam mobilizar o partido todo, deveria haver a responsabilidade de todos os órgãos do partido para pelo menos, nesta altura, não haver mais percalços porque esta luta difícil vai ter de se ganhar e isto não contribui. Daí dizer que estes empurrões parecem propositados para desgastar a imagem do presidente do PSD e do partido em geral.

Como avalia o facto de meio partido suspirar pelo regresso de Pedro Passos Coelho? E como vê os recentes aparecimentos do ex-líder?

Não avalio nem deixo de avaliar. O PSD militante sempre teve uma consideração grande pelo dr. Pedro Passos Coelho, principalmente pelo trabalho que fez como primeiro-ministro. Venceu todas as dificuldades, acho que nunca houve uma altura tão má em termos de gestão da coisa pública como ele teve de fazer no Governo e isso deixou uma marca nos militantes, de grande carinho e consideração. Mas este apreço não quer dizer que também não tenham apreço por outros líderes.

Em caso de descalabro nas eleições autárquicas, seria bom um regresso de Pedro Passos Coelho?

Não vou responder porque não sei sequer se ele está disponível para isso, pelo menos os sinais não são nesse sentido. Ele próprio tem afirmado, cada vez que aparece no espaço público, que não é objetivo dele disputar eleições internas no PSD.

O resultado em Lisboa é determinante na leitura final das autárquicas? Que leitura fará o partido se Carlos Moedas ficar abaixo do resultado conseguido por Assunção Cristas?

Isso é para o pós-eleições, mas a nossa aposta para Lisboa é para ganhar e tem todas as condições para ganhar. O eng.º Carlos Moedas deu uma lição ao país e aos lisboetas: é que teve a coragem - e normalmente os políticos são competentes e honestos, mas não têm coragem - de alguém que tinha o melhor emprego que se pode ter e perspetivas de futuro quase do que quisesse, sem se desgastar, e se tiver um resultado baixo é o primeiro a perder tudo. Se com isto quis fazer alguma tentativa também de se colocar para a sucessão no PSD, precisa de um resultado que seja ganhar a Câmara ou ficar lá perto.

E é um quarto vértice para os objetivos, ganhar a Câmara de Lisboa?

Nós queremos ganhar as câmaras todas, nós e o PS, de certeza. Mas também sabemos as dificuldades que se enfrentam nas câmaras grandes, sobretudo quando se reduziu de tal forma a votação em 2017, que, para se recuperar tudo isto, é preciso um trabalho intenso. Mas não vamos considerar isso um objetivo de sobrevivência do PSD. No limite, se ganhássemos Lisboa, praticamente o que disse do resto dos objetivos deixava de ter interesse, porque Lisboa era um marco de vitória. Lisboa paga todos os outros objetivos.

E o Porto, paga alguma coisa? Qual a fasquia para Vladimiro Feliz?

A fasquia, quando escolhemos o candidato, foi para ganhar a Câmara do Porto. E tínhamos dois números muito simples em termos de objetivos. As eleições europeias no Porto, que já deram 23% ao PSD, e as legislativas, com o dr. Rui Rio, que ultrapassaram os 30%. Na cidade do Porto, foi mesmo o candidato mais votado. Portanto, existe eleitorado portuense que se identifica com o PSD.

Mas nas autárquicas não conta mais do que nunca a pessoa, a personalidade que lidera o projeto? E, neste caso, admite que Vladimiro Feliz não é propriamente um nome forte, nesse sentido?

Eu acho que estão enganados nisso. Ainda não é. Se acrescentar o "ainda não é", até posso concordar. Mas vai ser, porque Vladimiro tem todas as condições para poder fazer isso. A questão é que os militantes do Porto, e os simpatizantes e os votantes portuenses, têm de enfrentar uma dicotomia para poderem decidir o seu voto. Ou apoiam um candidato que o PSD apresenta, com uma ideia para o Porto, com experiência no Porto, em contraponto a uma candidatura do Rui Moreira, que nós entendemos que tem aqui um apoio indireto do PS.

Pode explicar o jantar que teve com Rui Moreira, numa altura em que o PSD admitia que fosse possível juntar as vontades no Porto?

Sim, é verdade. Mas não foram as vontades para convidar o dr. Rui Moreira para presidente da Câmara do Porto pelo PSD. A minha missão ao estar nessa reunião era saber da possibilidade, se ele se recandidatava ou não à Câmara do Porto e, sendo não, saber se estaria disponível, ele e o seu movimento, para apoiar uma candidatura do PSD e integrar a própria candidatura do PSD, ao que ele disse claramente que não. E, em contrapartida, perguntou: então porque não apoia o PSD a minha recandidatura? E eu disse automaticamente que não.

Como explica a novela em Gaia, primeiro com a escolha de um candidato polémico, conotado com o mundo do futebol, e agora com a sua desistência?

Se ele tivesse resiliência suficiente para continuar, apesar das adversidades, não tínhamos a desistência do candidato. E noutros sítios têm havido essas divergências, só que existe a resiliência do candidato e vai mesmo até ao fim. E estas questões, quando depois há divergências, são muito difíceis de conciliar. Ou temos, de um lado, a cedência da própria concelhia, ou temos, do outro lado, a força do candidato para impor também as suas ideias. Aqui, o processo arrastou-se muito tempo, sem reuniões e, se calhar, numa conversa de surdos de parte a parte que, depois, terminou por parte também do desgaste do candidato.

E agora?

Agora, segunda-feira, devemos ter o candidato à Câmara de Gaia, de certeza absoluta. Sei que é difícil fazer uma escolha ao mesmo nível de António Oliveira, neste momento, mas vai ter o apoio do partido. O PSD é assim: nós defendemos um candidato como o melhor. Saiu. O candidato que for escolhido a seguir será também a primeira escolha do PSD.

O processo de escolha da candidata na Amadora encostou claramente o PSD à extrema-direita. Estão a ser criadas as condições para que haja uma aproximação entre PSD e Chega?

Não. Não estão a ser criadas condições objetivas por parte desta direção nacional para haver um entendimento eleitoral entre o PSD e o Chega. Isso é claro. Não faremos qualquer entendimento eleitoral com o Chega durante os percursos eleitorais, quer das autárquicas - já foi claro, até o escrevemos -, quer das legislativas. O que nós entendemos é que há matérias que o PSD defende que também são matérias que defende o Chega. E nessas pode-se convergir.

O Chega e a Iniciativa Liberal têm estado a crescer. Qual a estratégia do PSD para evitar este dispersar de atenção do PSD para partidos à sua direita?

O que faz com que os eleitores que não se reveem nos partidos tradicionais procurem esses partidos são razões de não cumprimento daquilo que lhes prometem em termos eleitorais; os governos não dão atenção particular aos problemas das pessoas, que levam a que desacreditem dos partidos políticos tradicionais. O que entendemos é que isso tem um auge, o Chega já o teve e a partir daqui é a descer. É a nossa convicção.

São cada vez mais evidentes os sinais de que António Costa estará a preparar uma remodelação profunda. Acha que já vem tarde?

O líder do PSD e o PSD nunca se pronunciam muito se os ministros devem ser demitidos ou não. O primeiro-ministro é que sabe.

Mas dão um contributo. Têm tomado posições duras em relação a alguns ministros e, nos dias que correm, por exemplo, em relação ao ministro Eduardo Cabrita.

Isso também é uma exceção, porque o ministro Eduardo Cabrita é como aquele adágio popular que diz que quando se começa a descer, ou começa a ficar mal, parece que tudo corre mal e, portanto, o ministro Eduardo Cabrita tem sido tão desastrado em todas as questões, que acho que já não há nenhum partido que seja capaz de estar calado sobre o que acontece no Ministério da Administração Interna. O PSD tem, em determinadas matérias, desgastado medidas do Governo e o próprio líder do partido, que até era acusado de fazer pouca oposição, nos últimos dois, três meses, tem acelerado essa oposição. Isso demonstra o quê? Que nós próprios temos a perceção de que o Governo está fragilizado nos seus ministros, na sua estrutura e nas suas políticas de ação. E, portanto, estando fragilizado, é preciso denunciar esses casos e fazer com que os portugueses vejam melhor o que está mal para, rapidamente, se poder inverter a situação.

Recentemente, quando foi conhecida a decisão instrutória que o levará a julgamento no caso das "presenças-fantasma" no Parlamento, teceu considerações duras contestando uma certa prática da justiça de não olhar com espírito crítico para as acusações. Não considera abusivo descredibilizar o sistema de justiça?

Não considero abusivo, por uma questão simples: porque apenas estava a referir-me a um facto concreto do meu processo que estava a decorrer. Fui acusado, em determinada altura, de dois crimes. Um era de acesso informático, outro de ter recebido benefício económico indevido. Abri a instrução e com as provas que pude apresentar caiu o do benefício económico indevido. E só não caiu a falsidade informática porque não deram oportunidade de apresentar provas, porque o Ministério Público só tem deduções, não tem provas de que eu mandei alguém registar-me. E, portanto, isto, no julgamento, com provas, cai também. Disso não tenho qualquer dúvida.

A detenção de Joe Berardo, tema desta semana, é um sinal de eficácia da justiça?

É. Agora, quando se prende alguém ou quando se interroga alguém que depois tem um julgamento que prova essas situações, é uma prova de eficácia da justiça. Quando o julgamento inibe, se calhar é uma prova de debilidade da justiça. Essa é que é a grande questão que se põe no espaço mediático, mais do que no espaço jurídico.

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