Azeredo Lopes garante que só viu memorando no dia em que se demitiu

Ex-ministro disse, na comissão de inquérito, que não tem "nenhuma memória" de ler, antes de 12 de outubro de 2018, o memorando sobre a encenação da recuperação das armas. António Costa só terá sabido nesse dia.

O antigo ministro da Defesa, Azeredo Lopes, garante não ter "nenhuma memória" de ter lido o memorando entregue no dia 20 de outubro de 2017 ao seu ex-chefe de gabinete, o general Martins Pereira, e que dava conta de que a Polícia Judiciária Militar (PJM) tinha feito uma investigação paralela ao caso do roubo do armamento militar dos Paióis Nacionais de Tancos.

Ouvido na comissão parlamentar de inquérito ao furto das armas, na Assembleia da República, o ex-governante, que se demitiu na sequência deste caso, deixou a garantia de que apenas foi informado sobre o "essencial" da informação que chegou ao chefe de gabinete.

"Não tenho memória de alguma vez ter visto fisicamente esse documento. Li-o em momento posterior ou em momento simultâneo à minha demissão. Fiquei confortado, porque considero que o meu chefe de gabinete, no contexto em que recebe a informação, me transmite o essencial do que era importante que eu conhecesse", disse Azeredo Lopes, que, notando que se encontrava fora de Portugal no dia em que o chefe de gabinete teve acesso ao memorando, assinalou: "Ele transmitiu-me por telefone, não me leu o documento todo".

Mesmo perante a insistência dos deputados, o ex-ministro negou por diversas vezes qualquer conhecimento sobre uma investigação à revelia da Polícia Judiciária (PJ).

"Eu não sabia que tinha sido omitido a participação à Polícia Judiciária. Era difícil eu ter consciência dessa ausência de colaboração porque o comunicado da PJM [a 18 de outubro de 2017] invoca informação dada ao Departamento Central de Investigação e Ação Penal", afirmou.

O documento terá sido entregue pelo porta-voz da PJM, Vasco Brazão, ao chefe de gabinete do ministro Azeredo Lopes, que diz, no entanto, que se recorda de ter sido informado pelo chefe de gabinete de que havia um informador que tinha na sua posse alguns dados que poderiam facilitar a recuperação das armas.

"Aquilo de que fui informado, primeiro era de que havia um informador, que também era informador da PJ. Em segundo lugar, que não queria ser identificado, e em terceiro, de que teria de haver um modus operandi específico para que ele dissesse de uma vez por todas onde estava o material de guerra", explicou.

Na comissão, Azeredo Lopes admitiu, contudo, que o antigo chefe de Gabinete o informou do "essencial" do memorando da PJM, mas sublinhou que só leu o mesmo a 12 de outubro de 2018, ou seja, mais de um ano depois do furto e no dia em que decidiu apresentar a demissão a António Costa.

Um dado que vai ao encontro das declarações do atual chefe de gabinete do primeiro-ministro, o socialista Francisco André, que, aos deputados, disse que o memorando que denuncia a encenação só foi entregue ao primeiro-ministro no dia em que Azeredo Lopes abandonou o cargo.

"Não transmiti ao primeiro-ministro", diz Azeredo Lopes

No parlamento, Azeredo Lopes afirmou ainda que, apesar de ter tido conhecimento da existência de um informador que teria informações sobre a forma de recuperar o material militar roubado em Tancos no final de junho de 2017, não deu conta disso ao primeiro-ministro, António Costa.

"Tive conhecimento do informador e não transmiti ao senhor primeiro-ministro pelo contexto muito particular e as circunstâncias em que conhecimento lateral se verificou", disse Azeredo Lopes, que, perante os deputados, sublinhou que não teve acesso a qualquer informação que sobre uma alegada encenação da operação de recuperação das armas antes de avançar para o pedido de demissão que foi aceite, a 12 de outubro de 2018, pelo líder do Governo.

Um caso de (falta de) "decência e lealdade", mas que não foi suficiente para abalar a estrutura militar

Visivelmente incomodado com alguns apartes, nomeadamente por parte de deputados das bancadas do CDS-PP e do PSD, durante a audição, o ex-ministro fez questão de se referir ao caso do roubo de armamento militar em Tancos como algo de "muito grave", assinalando mesmo as dificuldades em responder face aos problemas ocorridos do ponto de vista hierárquico e de respeito institucional.

"O caso ultrapassou todos os limites da decência e lealdade. Neste caso, da falta de lealdade", afirmou Azeredo Lopes, que insistiu: "Sou o primeiro a qualificar o furto de Tancos. A simples circunstância do furto é algo de muito grave". Aos deputados, o ex-governante disse ainda que, no seu entender, as Forças Armadas "não perderam dignidade nem prestígio", elogiando ainda aquela que foi, no seu entender, a "forma responsável" como o Governo encarou este assunto.

Rovisco alertou para falta de segurança nos Paióis. Segurança está melhor, diz Azeredo

Quanto ao conhecimento - e, até, reconhecimento - das condições de segurança "degradantes" em que se encontrava guardado o material militar, em Tancos, Azeredo Lopes adiantou, no parlamento, que foi o general Rovisco Duarte, antigo chefe do Estado-Maior do Exército, que o alertou para o facto "muito pouco tempo" depois do início de funções - que começaram em abril de 2016.

Assim, adianta o ex-ministro, o Governo logo se apercebeu da "urgência" de avançar com obras nos Paióis Nacionais de Tancos, algo que, adiantou Azeredo Lopes, foi decidido num prazo "excecionalmente rápido". Segundo o ex-governante, entre o momento em que a Direção de Finanças do Exército registou que existia "cabimento orçamental" para as obras na vedação dos Paióis Nacionais e a "luz verde" dada pelo ministério passaram, diz Azeredo Lopes, um total de 32 dias.

Ainda sobre a segurança, já no final da audição, o antigo ministro da Defesa Nacional considera que foi reforçada após do episódio do roubo de material militar. "Embora me pareça que tenha existido um exagero patético, acho que há possíveis afinações a fazer na partilha de informações. Não estou convencido que se faça num dia, mas acredito que se reforçará a eficiência do sistema de segurança".

"Entre o antes e o hoje é possível confirmar uma diferença avassaladora naquilo que é a missão relativamente ao material de guerra e à guarda das forças armadas", concluiu.

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