"Temos disponibilidade para a convergência"

Em entrevista à TSF e ao JN, o secretário-geral do PCP frisa que o seu compromisso é com a defesa dos direitos dos trabalhadores.

Antigo afinador de máquinas e dirigente sindical, Jerónimo de Sousa considera que a experiência de vida foi o maior mérito que teve enquanto secretário-geral do PCP. Aos 74 anos, mantém-se na liderança da lista de candidatos da CDU por Lisboa e assegura que o partido "fará sempre parte das soluções" que promovam a defesa dos trabalhadores. Acredita que conseguirá fazer a bancada crescer, mas não exclui tirar ilações de um eventual mau resultado.

Disse que a geringonça foi "uma fase" e não se repetirá "tal e qual". O apoio parlamentar ao PS está definitivamente morto e enterrado?

Essa fase da vida política nacional chegou ao fim, porque o PS claramente era confrontado com um dilema: ou prosseguia uma política de avanços, de garantia de direitos, de melhores salários, de responder às necessidades do SNS. E o PS - o Governo do PS, melhor dizendo - começou sistematicamente a rejeitar as propostas.

Entende que o PS, como não tinha nada para oferecer, não terá mais nada para oferecer daqui para a frente?

Temos uma profunda preocupação em relação à possibilidade de entendimentos entre PS e PSD. Essa garantia que querem dar aos grandes interesses, particularmente aos grandes grupos económicos, naturalmente coloca o PS a ter que fazer uma escolha, uma opção.

Se houver o risco de ser criada uma alternativa à Direita, o PCP estará disponível para continuar a fazer parte de soluções governativas à Esquerda?

O PCP fará sempre parte das soluções positivas para os trabalhadores, para o nosso povo. Essa é a garantia que damos. E não qualquer acordo sem princípios com o PS. Nós tivemos um papel importantíssimo e incontornável na defesa desses direitos, de valorização não só das pensões e de reformas, na procura de resolver o problema das creches, que é um drama para as famílias, na medida da gratuitidade dos manuais escolares. A questão da redução da tarifa dos transportes tem um valor imenso. Nesse sentido, nós colocávamos ao PS não qualquer ambição de partilha de poder, não era nada disso; o que procurávamos era, num quadro de autonomia e de relações bilaterais, concretizar estes objetivos que continuam muitos deles pendentes, designadamente a questão da valorização dos salários ou a valorização do SNS.

Algumas dessas bandeiras são linhas vermelhas num futuro acordo?

Neste momento, é evidente que temos que fazer eleições. Os resultados, naturalmente, ditarão muitos dos caminhos que podem ser percorridos.

Não exclui nenhum desses caminhos, como a reaproximação ao PS, mesmo que venha a ser exigido um acordo escrito?

Em relação a acordos, o PCP honra sempre a sua palavra e assume compromissos. Mas, naturalmente, há sempre um compromisso que do nosso ponto de vista tem de ser cumprido, que é a defesa dos direitos dos trabalhadores, dos direitos a uma vida mais digna. Não temos compromissos com o PS ou com qualquer outro partido. Mas temos, naturalmente, uma disponibilidade para a convergência em função dos conteúdos concretos. E estamos aqui a falar de maiorias de PS, PSD com ou sem o CDS, enfim, uma maioria absoluta para o PS resolveria o problema. Deixaria o PS de mãos livres para fazer o que entendesse.

Entende que o bloco central é uma possibilidade mais forte com Rui Rio na liderança social-democrata?

Eu não queria fazer juízos de valor em relação a outros dirigentes. Agora, acredito perfeitamente que, como uma garantia para os grandes interesses, qualquer solução tipo bloco central, ou PSD apoiado pelo PS, ou o PS apoiado pelo PSD, naturalmente conseguirá esse grande objetivo. Particularmente na legislação laboral, não há grande diferença entre PS e PSD.

Não deixa de haver uma leitura de que o PCP contribuiu para que se isso acontecesse...

O PS não queria soluções. Queria eleições. Verificou-se, aliás, na fase derradeira do processo do conteúdo concreto da proposta de Orçamento do Estado, o PCP colocou três questões que eram fundamentais. Não lhes chamemos linhas. Eram questões de fundo. Primeiro, a valorização dos salários, particularmente do salário mínimo nacional; depois, a questão do SNS, com o reforço de médicos, de enfermeiros, de outros profissionais de saúde que tão precisos foram e tão precisos vão ser neste quadro negro de contexto sanitário que vivemos. E, nesse sentido, verificámos por parte do PS uma teimosia de não querer dar um pequeno passo.

Os estudos de opinião têm demonstrado que estas eleições irão decidir-se ao centro. Receia o risco de esvaziamento de partidos como o PCP?

Deixe-me fazer uma declaração geral. Uma causa nunca morre enquanto houver quem a defenda. E neste quadro, aliás, do centenário do nosso partido, quantas vezes a polícia política do governo fascista não anunciou a morte do PCP? E naquelas condições tão difíceis, tão exigentes, onde o que se tratava muitas vezes era de salvar a própria vida, o PCP nunca parou, nunca desistiu, nunca desapareceu, manteve-se vivo e atuante porque tem esse ideal. Por muitas voltas que deem, este Partido Comunista Português é indispensável na democracia portuguesa. Esses anunciadores da morte do PCP têm um problema: haverão já de estar a fazer tijolo há muitos anos - eles e nós - e, no entanto, o Partido Comunista Português continuará. E vão morrer com o desgosto.

Ainda assim, o poder de intervenção depende do número de deputados, que pode sair enfraquecido.

Um dos objetivos do PCP é, no quadro da CDU, conseguir um bom resultado eleitoral. Mas uma coisa posso garantir: usaremos os resultados que o povo português nos entender atribuir para continuar a nossa luta. Disso não desistimos.

Manter a atual bancada já seria um bom resultado?

Claro que não. Seria um elemento de avaliação. Não sou capaz de fazer uma sondagem em relação a esta batalha eleitoral do dia 30 de janeiro, mas ainda há muito trabalho a fazer, muito esclarecimento a realizar.

Perder deputados terá alguma consequência, alguma leitura na forma como avalia aquele que tem sido o seu papel à frente do partido?

Eu nunca gosto de ser juiz em causa própria. Em relação à primeira parte da pergunta, estamos neste momento convictos, determinados a conseguir alcançar um bom resultado e achamos que isso é possível, tendo em conta o papel do PCP na sociedade portuguesa. Em relação a desfechos que possam existir no plano eleitoral, nunca eu me considerei um intocável. Procurei sempre, ao longo da minha vida, usando a experiência própria, transportar para a política como entendo que deve ser o exercício da política. Se existirem melhores soluções, vamos a elas, olhando para o contexto, para a conjuntura. E, naturalmente, eu tenho a idade que tenho, não é?

Como é que olha para notícias que apontam nomes para essa sucessão?

A referência de diversos nomes de quadros dirigentes do PCP é uma coisa boa. Existem quadros, existem dirigentes, homens e mulheres, capazes de travar este combate. No partido existem soluções em relação ao futuro. Este partido tem a garantia de continuidade, de continuar a reforçar-se no futuro e, quando o partido quiser e decidir, aqui está um comunista que vai continuar a trabalhar para o seu partido.

É apontado como um dos grandes moderados do PCP, responsável por ter aguentado esta solução da geringonça desde 2015. Assume esse legado?

Nesta fase da vida política nacional, durante anos nós acompanhámos de uma forma intensa, de uma forma eu diria até de paciência em relação ao PS, pensando sempre fundamentalmente não na nossa posição. Procurámos sempre em cada reunião com o PS, cada encontro, discutir coisas concretas. E, naturalmente, que o PS ia cedendo nalguns casos, ia cedendo com os seus próprios limites, porque ninguém fala dos limites de António Costa ou de Rui Rio. Essas linhas vermelhas de que alguns falam, para eles, era a alteração e as benfeitorias que eram necessárias fazer na legislação laboral. Em relação a esses encontros com o Partido Socialista, a teimosia, a determinação era precisamente a legislação laboral, particularmente a caducidade dos contratos coletivos de trabalho.

Espera um aumento da contestação sindical nestes meses? O PCP estará nas ruas?

Acredito que o Partido Comunista Português, naturalmente, será solidário com a luta e com os seus objetivos, claro! Não é a luta pela luta. É a luta de situações concretas com que estamos a ser confrontados.

Receia que o Chega venha a ser um dos vencedores nas próximas eleições?

Em relação a esses problemas da Direita, nós verificamos que há uma sangria em relação ao CDS, é um facto, mas, no essencial, esse partido procura conquistar um lugar na Direita, ser um partido com uma percentagem a tentar fazer parte do Governo. Usa, no plano político-ideológico, umas "frasalhonas" para impressionar quem o ouve, em termos de substância é o que é. Muitas vezes, as situações concretas são pasto para que o Chega aumente a sua influência. Mas aquilo é produto, enfim, aquilo é material da mesma árvore em relação ao PSD e ao CDS.

A pandemia tem vindo a crescer, havendo algum alarme com a nova variante. Esta situação poderá justificar um agravamento de restrições, nomeadamente por altura do Natal?

Em primeiro lugar, permita-me um retroativo. Nesta nova fase da vida política nacional, esse elemento da pandemia pesou e pesa muito! O PCP procurou encontrar formas de avançar com iniciativas que tiveram um efeito tremendo na vida das pessoas. Basta lembrar 350 mil pessoas que tiveram o efeito da proposta do PCP em relação ao lay-off. Iam perder um terço do seu salário e mantiveram o salário por inteiro. É um exemplo concreto. Em relação à situação sanitária, procuramos sempre ter um princípio de proteção, mesmo no plano individual. Achamos que o Governo, muitas vezes, avançou com medidas que os portugueses não entenderam. É preciso que consigamos concretizar o processo de vacinação, é fundamental que isso aconteça.

O quadro político, com a dissolução do Parlamento, pode dificultar a gestão da pandemia se for preciso medidas limitadoras da liberdade?

Eu creio que a Comissão Permanente da Assembleia da República tem um papel a desenvolver. Numa situação excecional, é possível tomar medidas de proteção da saúde dos portugueses.

Aos 100 anos, que assinala o PCP português, quais são os objetivos fortes para o futuro?

A razão é sempre um elemento fundamental. E nós temos a razão, pelo projeto que temos e que defendemos. Um projeto alternativo, com uma política patriótica e de esquerda capaz de defender a nossa própria soberania. Mas a mensagem principal é dirigida a quem trabalha, a quem trabalhou, na luta pelos seus direitos, na luta por aspirações concretas que são conhecidas. Não só os trabalhadores, os micro e pequenos empresários, os pequenos agricultores com dificuldades tremendas. A todos aqueles que são atingidos com a política de direita, o PCP vai dirigir-se com a sua palavra, com as suas propostas, com aquela confiança que é fundamental. Confiança talvez seja a palavra mais certa. Confiança de que é possível melhorar a vida dos portugueses, que é possível termos um país mais desenvolvido. Que é possível, enfim, que a juventude olhe para o futuro com mais segurança.

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