Unir, Convencer, Vencer: os desafios que Montenegro tem pela frente

Congresso de entronização de Luís Montenegro arranca esta sexta-feira, no Porto, com muitas surpresas por revelar: quem fará parte dos órgãos do partido e que oposição interna poderá ter o novo líder? Para já, os desafios de Montenegro resumem-se a "unir, convencer e vencer".

"Veni, vidi, vici." A frase é do imperador romano Júlio César e cai que nem uma luva nas ambições que Luís Montenegro leva para a nova fase da sua vida enquanto presidente do PSD, mas para já o lema tem ser outro porque, de facto, chegou, mas ainda está a ver como poderá vencer. E são três os desafios que vai ter pela frente: unir, convencer e vencer.

No capítulo da união, há muito caminho para fazer. Num partido que muitas vezes é apelidado nos bastidores da política nacional como um 'saco de gatos', a questão da união tem sido difícil de conseguir nos últimos tempos. Rui Rio que o diga.

Já é quase um lugar-comum falar-se de falta de unidade no PSD e Montenegro vai ter, logo à cabeça, de mostrar como o pretende fazer. Não começou bem, ao pedir para mudar a liderança do grupo parlamentar, substituindo Paulo Mota Pinto por Joaquim Miranda Sarmento, aquele que ficou conhecido como o "Centeno de Rui Rio".

Mota Pinto, eleito com mais de 90% dos votos da atual bancada, fez saber publicamente que estava disponível para levar o mandato até ao fim, "para colaborar" e "para articular" com a direção. Montenegro não quis, tudo leva a crer, por falta de confiança política.

Mas vai Montenegro contar nos seus órgãos com pessoas de outras sensibilidades? Fora do núcleo mais restrito do novo líder, ninguém sabe, e essa, de facto, pode ser considerada a primeira grande conquista interna: rigorosamente ninguém sussurrou à comunicação social quais os planos para a futura equipa.

Claro que existe especulação e, além de Miranda Sarmento, que confirmou à TSF a intenção de ser líder parlamentar "com o apoio de Luís Montenegro", é dado como certo que Hugo Soares será o secretário-geral do partido sucedendo a José Silvano.

Fora esses nomes, tudo é ainda uma incógnita. No entanto, as figuras que estiveram com Luís Montenegro desde a primeira hora e que se especula que possam ter algum destaque são António Leitão Amaro, Carlos Coelho, Margarida Balseiro Lopes, Pedro Alves e Pedro Duarte.

Já na oposição interna, para já, sabe-se que Jorge Moreira da Silva e Carlos Eduardo Reis não vão ter listas ao Conselho Nacional, como noticiou a Lusa nesta quinta-feira. Se isso significa que Montenegro terá paz, isso ainda ninguém adivinha e, a juntar a isso, um problema que Montenegro não endereçou na noite eleitoral: o facto de ter sido eleito com um resultado expressivo, é certo, mas com uma abstenção também ela recorde.

Passado o capítulo da união, é preciso convencer e cerrar fileiras na oposição ao governo de António Costa. Na moção que apresenta, Montenegro diz que quer assumir o partido como a casa-mãe do "espaço não socialista".

Não considerando uma fragilidade o facto de não estar no palco parlamentar, Montenegro sempre que tem aparecido é para criticar o primeiro-ministro, sendo essa estratégia apostada no desgaste do governo o caminho a seguir.

Para convencer internamente, Montenegro assegura que quer "lançar um novo ciclo no PSD" e, para isso, pretende transformar o Conselho Estratégico Nacional "no grande 'think tank' do espaço não socialista", além de criar uma academia de formação política. Além disso, promete também tirar mais partido das ferramentas digitais e até quer criar um espaço social-democrata no metaverso.

Se este é o plano para somar dentro do partido, Montenegro quer convencer os portugueses de que é preciso uma "transformação estrutural do sistema fiscal" que implique menos impostos. Na moção, por exemplo, detalha-se que a pretensão é a de criação de uma taxa máxima de IRS de 15% para os jovens e a possibilidade de introduzir um mecanismo de IRS negativo para salários mais baixos.

Na saúde, além da promessa de médico de família para todos, Montenegro dá corpo à crítica de que o PS tem um "preconceito ideológico" e propõe englobar os setores privados e social num Sistema Nacional de Saúde. Já na educação, a ideia é fazer com que haja um "verdadeiro elevador social" e, para isso, é importante "valorizar a profissão do professor ao nível de toda a carreira".

No que à demografia diz respeito, Montenegro quer estimular a natalidade com medidas como benefícios fiscais para famílias com mais filhos ou uma rede de creches gratuita, sendo igualmente favorável à imigração, sobretudo a qualificada.

E, se conseguir convencer, o passo seguinte é mesmo vencer. A ambição não é pequena: ganhar todas as eleições. Para isso, quer pôr já em marcha o programa eleitoral para as legislativas de 2026, mas nunca esquecendo as regionais e europeias que também quer, obviamente, que caiam para o lado do PSD.

Olhando para os últimos resultados (e também para as sondagens), o PSD não está hoje em condições de chegar ao poder sozinho e há uma incógnita que nunca foi desvendada em absoluto: o que fazer com o Chega que é atualmente a terceira força política no país?

Lê-se na moção que o partido não ultrapassará "linhas nucleares", mas abre espaço a entendimentos ao avisar que o PSD não será "cúmplice da perpetuação do PS no poder". A que custo? Na noite eleitoral, Montenegro afastou-se da resposta clara ("Nunca foi meu tema de campanha, jamais será o tema hoje!") e deixou apenas a garantia de que estávamos perante "o princípio do fim da hegemonia do PS em Portugal".

Veremos se assim vai ser, mas perante estes desafios, chegamos novamente a Júlio César a quem é atribuída a frase: "os dados estão lançados". É que estão mesmo e essa é a imagem que melhor traduz o novo futuro do Partido Social Democrata.

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