O (des)tempo da justiça em 2021

O tempo da justiça, neste ano de 2021, marcou o ritmo de um país, muitas vezes suspenso e à espera... outras vezes surpreendido pela vertigem e cadencia das decisões do ministério público e dos tribunais.

José Sócrates foi acusado de seis crimes, 1599 dias depois de ter sido detido. Azeredo Lopes foi ilibado de responsabilidades no assalto ao paiol de Tancos, mas há muito que tinha deixado de ser ministro. Cabrita demitiu-se seis meses depois de um acidente no carro em que era "o passageiro" ter morto um trabalhador.

Rendeiro fugiu à justiça e foi apanhado. Jurou que não voltava, mesmo depois de detido, mas a decisão não lhe cabe a ele. E, quase no fim do ano, Manuel Pinho, antigo ministro de... Sócrates, é preso, interrogado e fica em prisão domiciliária. pedaços de um ano de altos e baixos, onde se vê que o tempo da justiça quase nunca corre de acordo com os outros "tempos".

O tempo da justiça não é o tempo da sociedade, da politica e dos media. O tempo da justiça, neste ano de 2021, marcou o ritmo de um país, muitas vezes suspenso... e à espera... outras vezes surpreendido pela vertigem e cadencia das decisões do ministério público e dos tribunais.

Foram exatamente 1599 os dias que José Sócrates, antigo primeiro-ministro, teve que esperar, entre o momento em que foi detido, no aeroporto de Lisboa, e a tarde em que conheceu a acusação.

Sobraram seis crimes, dos mais de trinta de que estava indiciado. O animal feroz, agora em liberdade, não esperou nem um minuto para reagir. "Caíram todas as mentiras da acusação", disse Sócrates à saída do Camus da Justiça que ele, enquanto primeiro-ministro, inaugurou. Menos dias, menos tempo, mas ainda assim... demasiado para quem estava ministro - Azeredo Lopes, arguido no caso do "desaparecimento das armas no paiol de Tancos", acaba por não ser acusado pelo Ministério Público.

Afinal, o ministro de nada sabia, de nada soube e nada podia ter feito. A decisão chega quatro anos depois do crime. O tempo da justiça, não bateu certo com o tempo da política. Sem condições, políticas, para esperar tanto tempo pela... justiça. Azeredo Lopes deixa o ministério da Defesa em outubro de 2018. Um ano e pouco depois do escândalo, mas dois anos e meio antes de saber que não seria acusado. Tarde demais.

Parece pouco tempo, mas ainda assim foram precisos seis meses até se descobrir que o carro do passageiro Eduardo Cabrita, ministro da Administração Interna, seguia a uma velocidade de 163 quilómetros por hora quando atropelou e matou um funcionário ao serviço da Brisa, que fazia manutenção da autoestrada que liga Évora a Lisboa.

No dia em que o motorista que transportava o passageiro foi acusado de homicídio por negligência, Cabrita perdeu-se nas palavras, por volta da hora do almoço.

"Eu era só o passageiro", disse o ainda ministro.

Quatro horas depois, o passageiro deixava o comboio do Governo e pedia a exoneração. Costa já não podia aguentar mais o amigo Eduardo.

Cabrita resistiu a quase tudo. À morte de um cidadão ucraniano às mãos do SEF, à polémica com as golas antifogo, que eram inflamáveis, à festa de campeão do Sporting, que provocou um aumento do ao tempo pré-eleitoral.

João Rendeiro teve tempo. Para viajar por vários destinos até chegar a local desconhecido. Condenado, com sentença transitada em julgado, o antigo banqueiro não ficou à espera. Passou por Londres, pelo Dubai e acabou a dar uma entrevista à CNN Portugal num lugar "desconhecido, mas à beira mar".

"O meu relógio e o meu coração estão na hora de Lisboa", rematou o ex-banqueiro. Foi a 22 de novembro.

Passaram exatamente 20 dias entre a entrevista e a detenção. Pouco tempo. A PJ anunciou, com pompa, a captura de Rendeiro, num hotel na África do Sul. Foi a 11 de dezembro.

O processo corre agora nos tempos da justiça Sul Africana, mas o homem que está condenado, fugiu e foi capturado já disse para onde não volta: "Não volto para Portugal", disse à saída de uma das audiências pós-detenção.

Continua detido. A extradição, a acontecer, pode levar vários meses.

Quatro anos - 48 meses depois de ter sido constituído arguido -, Manuel Pinho, antigo ministro da Economia, foi preso para ser interrogado. A caução para ficar em liberdade é de seis milhões de euros, mas Pinho não tem esse dinheiro, segundo o advogado, Ricardo Sá Fernandes.

Em causa acusações de crimes de fraude fiscal e branqueamento de capitais no âmbito do caso EDP. Pinho não vai para a cadeia, para já, mas fica em prisão domiciliária. Está em casa de amigos, porque não pode sair do país para utilizar o apartamento que tem em Nova Iorque, nem a casa que tem em Espanha. Fica preso em casa emprestada, não se sabe por quanto tempo, porque a outra casa de pinho, em Portugal, está em obras.

Estranho tempo da justiça, este, que manda ficar em casa um homem que está sem casa.

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