A estratégia que transformou a vacinação "cambaleante" numa referência mundial

Entre as prioridades da task force esteve a capacidade de resposta do sistema, alargando e uniformizando os postos de vacinação, em colaboração com as autarquias, e criando cerca de 300 centros de vacinação Covid-19 em todo o território continental.

O arranque "cambaleante" da vacinação levou a task force a criar um estado-maior para planear e controlar um processo que, cerca de 240 dias depois, termina como uma referência internacional, refere um documento a que a Lusa teve acesso.

Iniciado a 27 de dezembro de 2020, os primeiros meses do plano de vacinação para combater o vírus SARS-CoV-2 "foram inseguros e cambaleantes, originando, uma descredibilização, por parte da opinião pública, em grande parte devido aos inúmeros casos de suposta vacinação indevida", avança o documento da task force que vai ser publicado na Wikipédia sobre a organização e estratégia desenvolvida desde fevereiro.

Em 03 de fevereiro, o vice-almirante Henrique Gouveia e Melo, um submarinista com mais de quatro décadas de vida militar, assumiu a liderança da estrutura que já integrava, na sequência da demissão do coordenador Francisco Ramos e numa altura em que o país tinha poucas vacinas e cerca de 02% da população vacinada, muito longe da meta de 85% agora quase atingida.

"Foi de imediato tomada a decisão de reforçar a estrutura de planeamento e controlo do processo, ao nível estratégico", refere o documento, sendo uma das primeiras medidas a criação do estado-maior do coordenador da task force, constituído por civis e militares dos três ramos das Forças Armadas, num total de 36 elementos.

Entre as prioridades deste estado-maior, esteve a capacidade de resposta do sistema, alargando e uniformizando os postos de vacinação, em colaboração com as autarquias, e criando cerca de 300 centros de vacinação Covid-19 em todo o território continental.

Dedicou também a sua atenção a "restringir a fuga interpretativa das normas, melhorando a sua clareza e simplicidade, reforçando os mecanismos de reporte obrigatórios e os mecanismos de verificação e auditoria interna, penalizando desvios", ações que "foram essenciais para a credibilização do plano de vacinação".

Outra das medidas adotadas por Henrique Gouveia e Melo para assegurar a vacinação do maior número de pessoas no mais curto espaço de tempo foi a simplificação do plano de três para duas fases, estabelecendo dois níveis de prioridades.

O primeiro - salvar vidas e garantir a resiliência do Estado - passou pela vacinação das pessoas mais vulneráveis por escalão etário decrescente e dos profissionais de saúde e de outras áreas como bombeiros, e o segundo - libertar a economia -, imunizando a população em geral, de acordo com a maior disponibilidade de vacinas.

Segundo o documento, neste planeamento inicial, foram identificados "quatro possíveis nós de estrangulamento" do processo - o ritmo de entrega das vacinas a Portugal, a capacidade de distribuição no tempo adequado, a capacidade de vacinação e capacidade de agendamento.

Na prática, a task force debateu-se com um fluxo de entrega de vacinas pelas farmacêuticas, durante todo o plano, "irregular e na maioria do tempo deficitário".

"Em antecipação a um período de maior escassez de vacinas na Fase 2, o coordenador da task force incentivou a negociação, por parte do Estado português, e a angariação de vacinas, através da compra ou da permuta com outros estados, permitindo manter um bom stock em períodos de maior escassez. Esta ação permitiu manter um bom ritmo de vacinação e ascender paulatinamente as maiores taxas de cobertura vacinal, quer a nível europeu, quer a nível mundial", refere o documento.

Outro contratempo identificado pela task force teve a ver com as restrições impostas pelos reguladores a cada tipo de vacina e o aparecimento da variante Delta (inicialmente conhecida como indiana), que "condicionaram o planeamento".

"Face às diversas restrições impostas às vacinas da AstraZeneca e da Janssen, existiu uma necessidade de permanente ajuste do planeamento e execução para maximizar a eficiência do processo", adianta.

Além disso, com o surgimento da variante Delta, que é a predominante em Portugal, a meta estimada da cobertura vacinal para atingir proteção coletiva foi elevada de 70% para cerca de 85% da população vacinada com pelo menos uma dose.

Relativamente à distribuição no ritmo e tempo planeados, a capacidade logística dos Serviços de Utilização Comum dos Hospitais "revelou-se eximia na qualidade e profissionalismo dos serviços prestados e, em nenhum momento do processo, o ritmo de distribuição condicionou o plano de vacinação", assegura o documento da task force.

Outro dos desafios iniciais da equipa de Gouveia e Melo passou pela capacidade e urgência da vacinação, tendo sido planeado e testado um modelo, desenvolvido pelas Forças Armadas e pela Direção-Geral da Saúde, de imunizar a população portuguesa, o que levou à criação de cerca de 300 centros, "com a inexcedível colaboração das autarquias".

Mas o "maior desafio" seria a capacidade de agendamento de milhões de pessoas, o que obrigou os Serviços Partilhados do Ministério da Saúde a um "enorme e permanente esforço de atualização dos seus processos, bem como ao desenvolvimento de novas soluções web e centralizadas", com as inerentes "dores de parto" de um processo que estava a decorrer em tempo real, salienta a task force.

Nesse sentido, foi possível evoluir de uma fase em que o agendamento era efetuado por chamada telefónica, implicando um número significativo de recursos humanos, para uma marcação em massa e de forma controlada, através de SMS, do autoagendamento e da modalidade "casa aberta", que passou, posteriormente, a dispor de um sistema de senhas digitais.

"Para além da vacinação por critério etário por ordem decrescente, a task force empenhou-se em efetuar uma vacinação proporcional à densidade populacional em todo o território nacional. Não perdendo o foco, resistiu à pressão de vacinação de grupos específicos, que não se enquadravam no núcleo mais restrito da resiliência do Estado, de regiões específicas, e mais tarde de zonas de maior incidência. Esta estratégia revelou-se um sucesso para a proteção da sociedade e do país como um todo", salienta o documento.

O estado-maior da task force foi constituído por uma civil e 35 militares da Marinha, do Exército e da Força Aérea e do Estado-Maior General das Forças Armadas, que tinham a responsabilidade do planeamento estratégico, do controlo de execução, da verificação dos resultados e da comunicação estratégica.

Na prática, esta estrutura incluiu um Gabinete do Coordenador da task force, os núcleos de Comunicação Estratégica e de Normas e Simplificação, o Chefe do Estado-Maior do Coordenador, as divisões de Operações Correntes, de Planeamento Estratégico, de Gestão da Informação e de Apoio e os oficiais de ligação às Administrações Regionais de Saúde, aos Serviços Partilhados do Ministério da Saúde, ao Serviço de Utilização Comum dos Hospitais, à Direção-Geral da Saúde e à Sala de Situação do Ministério da Saúde.

Este grupo, segundo o documento, numa "permanente pressão e constantes desafios, trabalhou afincadamente e com grande entrosamento entre os diversos núcleos e divisões, num permanente ambiente de boa disposição, grande espírito de equipa e sã camaradagem, contribuindo de forma muito significativa para o sucesso da missão".

Apesar da estratégia desenvolvida, a task force destaca que o processo "não seria possível sem a dedicação incansável e profissional de todas as pessoas envolvidas, direta ou indiretamente, na distribuição, no transporte, no agendamento, na preparação e na inoculação das vacinas, em especial as equipas de saúde, auxiliares e voluntários" dos centros de vacinação Covid-19.

"Este sucesso, contudo, não seria possível sem a adesão massiva por parte da população portuguesa a este processo de vacinação. Portugal, com larga tradição em campanhas de vacinação, demonstrou ao mundo que possui uma sociedade com maturidade, esclarecida e que confia na ciência", conclui o mesmo documento.

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