A estrela da sorte que sobreviveu às obras na calçada no Porto

Há mais de 30 anos que o quiosque de Conceição Lima, na Rua Fernandes Tomás, no Porto, tem à porta uma estrela desenhada na calçada. A proprietária tem 83 anos e diz que esta é a estrela da sorte. Não a quer perder e conseguiu que sobrevivesse à obra da autarquia de substituição dos passeios.

Parece uma rosa-dos-ventos desenhada na calçada e atravessa-se no caminho quando calcorreamos a renovada Rua Fernandes Tomás. O cinzento do passeio, pintado aqui e ali com tampas de saneamento, é como que iluminado com a estrela branca, de pedra, desenhada à porta do número 925. Conceição Lima tem 83 anos e é a proprietária.

"Estou aqui há 65 anos. A estrelinha é ideia minha, todos temos uma estrela e esta é para dar sorte ao estabelecimento, dar alegria... com a minha idade preciso de alegria."

A estrela branca em pedra, com o centro cinza escuro, é como que a assinatura do calceteiro que há mais de três décadas colocou a calçada na rua. "Uma ocasião andavam a levantar a rua e aqui na viela escreveram Porto na calçada, porque o sapateiro era portista e pediu. Eu vi, pedi uma estrelinha à minha porta e eles aceitaram fazer."

E passou a ser a estrela da sorte da D. Conceição. "Isto aqui é um negócio de família, quando casei fiquei com este negócio e para mim a estrelinha é uma coisa de estimação. Se tirassem eu ficava muito triste, lutei muito para que ficasse aqui e ficou!"

Este ano, a Rua Fernandes Tomás esteve em obras durante vários meses para substituição dos pavimentos e Conceição Lima decidiu lutar pela sua estrela... Contou com a colaboração e compreensão da autarquia, falou com engenheiros, tentou apelar aos arquitectos... Conta que fez de tudo. "O arquitecto não deixava mas depois deixou, o mestre-de-obras não queria fazer, mas depois o arquitecto mandou. Depois vieram dizer que já tinha sido aprovada e fiquei com a minha estrela."

Conheceu o autor da obra há mais de 30 anos, conta que costumava oferecer-lhe um "chicla". "É um rapaz que andava aqui a arranjar a rua, andaram aqui muito tempo e eu chamava-os para dar um chicla. Um chicla é um cálice de vinho do Porto, vinha um de cada vez mas sem o chefe. Uma ocasião o chefe apanhou-os e eu disse que isto de manhã não embebedava... Agora há pouco tempo passei perto do Prado Repouso e ouvi: "olha o chicla", olhei e era um senhor que trabalhou aqui naquela altura.

O quiosque de Conceição Lima no número de 295 da Rua Fernandes Tomás parece a sala de estar de uma casa, na montra vendem-se moedas e notas de coleção. Lá dentro, um canário, um sofá, naperons no balcão, diz que é um negócio de família.

"Quando casei continuei com o comércio, quando o meu marido morreu eu parei dois anos, mas depois recuperei. Parar é morrer, toca a trabalhar e tenho a minha estrelinha da sorte!"

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