A caminho do Corvo
Reportagem TSF

"A ilha do tempo", nos Açores. Onde o médico faz teatro e um GNR passa uma multa em meio ano

Reportagem TSF na mais pequena ilha dos Açores, o primeiro sítio da Europa onde quase todos já estão vacinados contra a Covid-19.

"No Corvo aquilo que mais temos, aqui, é tempo", diz, no seu consultório, António Salgado, que além de médico de família de todos é - por ser o único médico da ilha - autoridade pública de saúde, diretor clínico e presidente da unidade local de saúde.

Aos 62 anos constata que "nunca na vida'', desde que trabalha, teve "tanto tempo" como na ilha onde chegou há um ano, vindo de São Jorge - outra ilha açoriana que está longe de ser grande, mas consegue ser incomparavelmente maior que o Corvo que é, de longe, o município com menos população em Portugal.

"Aquela sensação de ter tempo disponível para ler, para passear... para fazer coisas", mesmo que essas "coisas" não possam ser muitas numa ilha pequena e de onde nunca pode sair - nem para pescar, de barco, ali perto - sem que tenha outro médico que o substitua - o Corvo nunca pode ficar sem um médico.

"Não admito que nenhum corvino me diga que não tem tempo. A gente tem tempo para tudo e mais alguma coisa. Temos que inventar formas de ocupar o tempo", sintetiza.

António Salgado está no grupo de teatro amador e é na primeira peça de teatro depois da vacinação de quase toda a população da ilha que o vemos, pela primeira vez, numa sala cheia com meia ilha lá dentro, de chapéu e bigode falso, a representar o papel de um major rico.

Com menos de 400 pessoas a viver no Corvo - no resto do país um médico de família tem uns 1500 utentes nas suas listas -, António Salgado participa em tudo: teatro; ações ambientais de limpeza do lixo que o mar traz para a costa; e até no rancho dança ao ritmo da Chamarrita, uma dança típica dos Açores.

"Olhou para nós e começou a pôr o cinto"

Tempo é também o que sobra a Alexandre Gomes, um jovem guarda da GNR colocado no Corvo, vindo de Setúbal. Em meio ano, passou uma única multa.

"Foi um cinto de segurança aqui à frente do posto. Olhou para nós e começou a pôr o cinto. Aí eu achei que tinha de fazer o meu trabalho", relata, explicando que no Corvo, onde todos naturalmente se conhecem, o fundamental não é reprimir.

Acima de tudo, a autoridade do Estado - representada pela GNR e pela PSP que só trabalha no micro aeroporto - "elucida" a população daquilo que é ou não é legal pelas leis da República.

O tempo livre do guarda Alexandre, fora do horário de serviço, é passado a andar ou a correr pela vila que se percorre, a pé, de uma ponta à outra - a passo lento - em meia hora.

"Torna-se às vezes chato de não haver nada para fazer", confessa. "Tempo aqui é uma coisa que não falta", afirma, em frente ao posto por onde passam corvinos que vão esticar as pernas, dando uma volta à curta pista do aeroporto onde não chega a aterrar e descolar um avião todos os dias.

Um aeroporto onde os pilotos não arriscam

Tempo é o que têm os primeiros corvinos com que nos cruzamos ainda no aeroporto da ilha do Faial, onde o avião para o Corvo previsto para terça-feira só se realizará no sábado, depois de sucessivos cancelamentos provocados por uma depressão de nome Lola que fica muito longe de ficar para a história uma grande tempestade.

Dia após dia, cancelamento após cancelamento, vêm ao aeroporto e ao fim de mais umas horas de espera recebem a notícia de que o voo fica para outra altura.

Por viverem numa ilha sem hospital, com poucos cuidados de saúde, uns vieram para uma consulta de pediatria com a filha e outros para uma consulta de oncologia ou uma simples TAC às costas.

Com a maior tranquilidade do mundo, sem protestos ou reclamações, regressam ao hotel pago pela companhia aérea na cidade da Horta.

Sabem que quando saem do Corvo a única coisa certa é que podem não ter data para regressar a casa. Para o mar ainda conseguem olhar e ver se está bravo; sobre o céu só os pilotos têm certezas - explicam-nos.

Com o muito vento que frequentemente atinge o Corvo, nenhum piloto corre riscos com o pequeno avião para 37 passageiros naquela que é, de longe, a mais pequena pista de um aeroporto português.

Vacinas. Uma das vantagens do isolamento

Numa ilha que até agora, em mais de um ano, apenas teve um caso de Covid-19 - vindo de fora -, o Corvo esteve nas notícias em fevereiro por ser o primeiro território da Europa onde se decidiu vacinar já toda a população com mais de 16 anos.

Uma das vantagens, ouvimos, de viver numa ilha tão isolada, sem hospital, com emergências que quando surgem têm de ser resolvidas com evacuações de helicóptero que demoram meia dúzia de horas.

No Corvo quase todos se cruzam várias vezes por dia. "Eu tenho uma scooter e já dei alguns tombos porque cada vez que me cruzo com alguém tenho de levantar uma mão", diz o médico que, apreciando a simpatia, alerta: "Aqui, se se cruzarem com a mesma pessoa três vezes numa tarde levam uma 'boa tarde' três vezes".

Sedentarismo e pouco peixe no prato

Num concelho com tão pouca população, onde nem vale a pena ter uma única junta de freguesia - caso único no país -, que se orgulha de não ter desemprego, com falta de mão de obra que tem de vir de outras paragens, tempo é também o que não falta aos demasiados que nas horas vagas param pelos cafés.

"Cigarro numa mão e cerveja na outra", diagnostica o médico de família que sem a pressão da pandemia se preocupa mais com os maus hábitos alimentares e o sedentarismo que vê numa ilha que além das ruas da vila e da estrada que dá a volta à pista de 800 metros de comprimento pouco mais tem do que uma estrada inclinada, de seis quilómetros, até ao topo - a 720 metros de altura.

A incidência de cancro e de doenças cardiovasculares, no Corvo, é altíssima. São raros os que gostam de peixe. Preferem-se os fritos e a carne de porco, conta.

Povoada à força

Erguida das profundezas do mar por um único vulcão, a ilha do Corvo tem a forma de um cone espalmado virado ao contrário com um lado que desabou, formando uma fajã lávica, principal e quase única superfície plana - foi aí que nasceu a vila.

Para lá da vila - de ruas estreitas e sinuosas na zona mais antiga - não vive ninguém e Andreia Silva explica que até o povoamento foi diferente das outras ilhas dos Açores. Só se concretizou à terceira, em 1548, por escravos ali colocados à força, depois de duas tentativas falhadas.

Por causa dos ataques dos piratas ou do frequente mau tempo, até aí ninguém resistiu muito tempo no Corvo.

Andreia foi a última pessoa a nascer na ilha e hoje trabalha na Casa do Tempo do Ecomuseu do Corvo que reúne memórias do passado - desde a década de 1980 que as mães voam para o Faial nas últimas semanas de gravidez.

Tanto carro para tão pouca estrada

Tempo é o que tentarão poupar os proprietários de carros no Corvo, numa ilha onde todos residem na vila.

"É tudo tão pertinho, mas as pessoas habituam-se a pegar no carro para fazer 70 metros. Só não levam o carro para a beira da cama porque não podem", desabafa Andreia.

"As pessoas têm dinheiro e onde é que o vão gastar? Se nos outros sítios há carro, também acham que o devem ter, mesmo que nesta ilha não tenham para onde ir. Dá para ir até lá acima, mas aí vai-se uma vez e pronto", refere o médico.

"Existirem muitos carros é um sinal do progresso", analisa o presidente da Câmara Municipal, José Manuel Silva: "As pessoas começaram a ter algum poder de compra e a ser mais comodistas, obviamente, porque existem muitos carros que não fazem cá falta nenhuma. As coisas são como são: se os outros também andam de carro?".

"Há pessoas que, se calhar, andam mais para chegar ao sítio onde estacionam o carro do que se forem a pé", constata o autarca - "Ninguém trabalha a mais de cinco minutos a pé do trabalho".

Quando as prateleiras ficam vazias

O mau tempo que muitos dizem que tem sido causado pelos humanos que provocam as alterações climáticas foi o mesmo que ajudou a criar o Furacão Lorenzo em 2019, o mais forte ciclone tropical do Atlântico a chegar tão próximo da Europa que ano e meio depois ainda tem consequências no Corvo.

Encontramos as prateleiras das mercearias vazias de frutas, legumes, batatas, iogurtes... que assim ficam durante dias ou semanas, numa ilha que com o progresso quase deixou de ter produção agrícola própria e passou a depender totalmente do exterior.

O Furacão Lorenzo não afetou o porto do Corvo, mas destruiu o principal porto da ilha das Flores. Os abastecimentos de mercadorias deixaram de chegar através da ilha vizinha e a distância da viagem multiplicou-se por dez - de 24 para 240 quilómetros a partir da ilha do Faial.

Abastecer o Corvo passou a exigir uma janela de bom tempo, no meio do Oceano Atlântico, de três dias em vez das anteriores oito horas.

O que leva alguém a viver no Corvo?

Tempo é o que falta a praticamente todos os poucos turistas que chegam ao Corvo, em visitas rápidas, de três a quatro horas, em pequenos barcos com motores potentes que partem das Flores.

"O Corvo é para ser vivido, não é para ser visto", lamenta o presidente da Câmara Municipal, que defende que só parando por ali mais tempo se percebe o que leva "400 malucos" a escolherem como residência permanente uma ilha que identifica como uma espécie de "porta-aviões" no meio do Atlântico.

Quase todos os turistas chegam e regressam no mesmo dia, num curto espaço de tempo que segundo o autarca pouco mais permite do que colocar um eventual carimbo num passaporte para mostrar que já estiveram na mais pequena ilha dos Açores.

Mais Notícias

Outros Conteúdos GMG

Patrocinado

Apoio de