Patrícia Akester/Filipe Froes
Em Alta Voz

"A pandemia ainda não acabou e há novas variantes a caminho"

Durante dois anos, nas páginas do Diário de Notícias, com regularidade, Filipe Froes, médico, especialista em doenças respiratórias e Patrícia Akester, cientista do direito, escreveram a quatro mãos sobre a pandemia. Tentaram tornar simples o que era confuso, ajudaram-nos a perceber a evolução da doença, o que fazer com ela, e como enfrentar o dia-a-dia durante o tempo mais duro da pandemia. Dessas crónicas resulta o livro que é publicado na próxima segunda-feira: "A pandemia que revelou outras pandemias".

Filipe Froes diz que o inverno vai trazer mais casos, mais mortes e novas variantes, e defende a continuação da vacinação em massa. A parceira de crónicas, Patrícia Akester, destaca a liderança de Gouveia e Melo e espera que o Almirante dê o salto para a política.

A Pandemia que Revelou outras Pandemias - Contributos para o Conhecimento é o título do livro, com prefácio do almirante Gouveia e Melo que coordenou a task force de vacinação contra a Covid-19. De que outras pandemias falam no livro, exatamente?

Patrícia Akester (PA) - Falamos da pandemia em sede de saúde, essa é a premissa básica, mas por causa dessa pandemia desvendámos outras, do foro social, económico, e político, são pandemias em sentido metafórico. No foro político, porque a existência da pandemia e o estabelecimento de certas medidas por parte dos governos, levou alguns movimentos totalitários pelo mundo fora, como a China, a tomar certas medidas de cerceamento de direitos, liberdades e garantias. Assistimos, por exemplo, à questão das tracing apps que permitiam, supostamente, evitar cadeias de contágio, mas também permitiam saber onde as pessoas se encontravam a cada momento. Portanto, geravam questões de privacidade, mas isto são apenas alguns exemplos, porque também surgiram outras questões de foro político. Em termos económicos, e obviamente com a economia parada, surgiram problemas financeiros, houve famílias que ficaram desempregadas, muitos negócios que foram à falência, o que também levou a problemas sociais.

Ou seja, a pandemia com a brutalidade do seu impacto destapou sociedades que estavam frágeis?

PA - Exatamente. Houve problemas sociais a muitos níveis, aliás, logo na primeira fase de confinamento em Portugal, cometeu-se um erro crasso de que as pessoas não se aperceberam, como a ausência de acesso a centros de apoio a pessoas alvo de abuso. É uma fase em que essas pessoas ficam entregues aos seus abusadores, o que é claramente um problema social. Além disso, não nos podemos esquecer do aumento de problemas de saúde mental e do aumento da taxa de divórcios. Estando em confinamento, as pessoas foram obrigadas a ficar em casa e a conviver umas com as outras. Por acaso, sei disso porque sou de Direito, e sei que houve muita gente com menos trabalho durante a pandemia, mas também sei que os juristas do direito de família tiveram imenso trabalho. Penso que nessa altura, o que era verdade permaneceu e o que era mentira caiu por terra.

Houve um aumento da pobreza, como o INE e a PORDATA confirmam. Na área da saúde também aumentaram as desigualdades?

Filipe Froes (FF) - Estava tudo concentrado na pandemia e, na continuação daquilo que disse a Patrícia, que em saúde estamos a assistir a várias pandemias. Estamos a assistir à pandemia das consequências da Covid, mas temos também o pandemónio do long Covid. Estamos também a assistir à pandemia do atraso e do desvio de recursos, agravada pela exaustão e cansaço dos profissionais de saúde. Refiro-me, por exemplo, às pessoas com doenças crónicas que não foram devidamente compensadas e às pessoas que perderam rastreios oncológicos. Uma das coisas que encontramos muitas vezes na consulta são doentes do foro oncológico que chegam com situações de maior atraso e estádios mais avançados. Depois, temos outras duas ou três pandemias que me parecem extremamente relevantes: a pandemia da saúde mental e as consequências futuras que terá, e a pandemia da resistência aos antimicrobianos, em resultado do aumento exponencial de antibióticos, sobretudo na população hospitalizada com Covid. Mas ainda há pandemias fora da área da saúde que a Patrícia certamente referirá, mas que me parecem extremamente importantes. A pandemia da desinformação, que teve um acréscimo de atividade nesta altura, e a pandemia da politização do conhecimento. Numa das nossas crónicas - se não me engano foi a última, a 14 de junho de 2022 -, falamos sobre o número de um milhão de óbitos nos Estados Unidos, e explicamos nessa crónica que esse número, provavelmente, é indicador de que não morreram seis milhões de pessoas, morreram muitas mais. Devido à politização do conhecimento e à desinformação, muitas destas vidas que se perderam nos Estados Unidos, poderiam ter sido salvas. Há um estudo que revela que cerca de 320 mil pessoas, se tivessem sido vacinadas nos Estados Unidos quando abriu o calendário de vacinação, e se não tivessem sido vítimas da desinformação e da politização do conhecimento, teriam sido salvas. Portanto, estas pandemias na sua extensão são enormes, e é evidente que subjacente a isto tudo está o agravamento das desigualdades, isso é incontornável.

Já estamos a pagar o preço do adiamento dos diagnósticos? Quando é que poderemos almejar recuperar dessa situação?

FF - Indiscutivelmente, verificamos nas consultas e no recurso aos serviços hospitalares, pessoas que faltaram a rastreios oncológicos, nomeadamente de cancro da mama, cancro do cólon, e cancro do pulmão. Neste momento, já existem estudos noutros países que relacionam a perda de oportunidade desse rastreio com um maior número de pessoas que não foram diagnosticadas, que têm formas mais avançadas, e um acréscimo de mortalidade. Portanto, há uma relação já estabelecida entre a perda de rastreio e o aumento da mortalidade e morbilidade associadas. Em relação às doenças crónicas, temos dois aspetos absolutamente curiosos: temos a consequência da pandemia do atraso em muitas patologias, nomeadamente Doença Pulmonar Obstrutiva Crónica e Insuficiência Cardíaca, e temos o facto de a própria Covid ter sido responsável pelo aparecimento de outras doenças crónicas. Falamos de doenças como a diabetes, que aumentou em prevalência após a infeção por Covid. Ou seja, passámos a ter doentes mais descompensados por um lado, e por outro, mais doentes com cronicidade em resultado da pandemia. Como é que vamos resolver isso? Estamos a fazer um esforço muito grande, mas não nos podemos esquecer que os profissionais de saúde estão exaustos e, muitas vezes, a sua capacidade de flexibilidade já está reduzida. Mas os profissionais têm um alto empenho e alta motivação, estarão certamente à altura do desafio, e espero que num intervalo de um ou dois anos esta situação possa estar totalmente recuperada. Infelizmente, alguns danos já serão irrecuperáveis e irreversíveis, porque haverá pessoas com formas avançadas de doença que já não voltam atrás.

Desde que começou a pandemia, houve uma grande onda de desinformação. Ficou alguma lição daquilo que aprendemos?

PA - Acho que ficam duas coisas: por um lado, o forte impacto da desinformação em sede de hesitação vacinal e, por outro, o facto de as entidades governamentais, privadas, e os media, terem de fazer um percurso importante em termos de informação alicerçada em conhecimento. Após a desinformação, tem de haver uma campanha no sentido de fazer prevalecer a informação. Fizemos vários artigos sobre isso porque verificámos que isso contribuía de forma bastante nefasta para a hesitação vacinal, embora não tanto em Portugal. Mas mesmo na UE houve países em que a desinformação teve graves consequências a nível dos números de vacinação. É preciso haver ação, a montante e a jusante, relativamente à desinformação, porque ela não vai parar. Aliás, o almirante Gouveia e Melo, no prefácio que escreveu, diz e muito bem que estamos numa fase de obscurantismo digital. Não vai deixar de existir o fenómeno da desinformação, e o que acontece é que se propaga de forma mais rápida e mais forte do que até o próprio vírus. O que é preciso é haver informação consolidada em conhecimento a priori, mas também depois da campanha de desinformação.

Nesse prefácio, o almirante Gouveia e Melo fala na "capacidade humana de superação de desafios e de aprendizagem". Teremos aprendido uma lição quanto à capacidade e coordenação da Europa para futuras necessidades de vacinas e para enfrentar outras pandemias ou doenças?

PA - Penso que sim, penso que a resposta é positiva. Liminarmente, a atitude europeia é de insolidariedade e surge no âmbito dos testes em fase liminar. Aliás, um dos primeiros artigos que escrevi foi precisamente sobre a insolidariedade europeia, tema que o Filipe e eu voltámos a abordar mais tarde. O que acontece no primeiro estágio, é um fenómeno de insolidariedade europeia, mas percebe-se rapidamente que por aí não vamos a lado nenhum. Portanto, é preciso unir esforços, é preciso coesão e solidariedade, que talvez não tenha havido até ao ponto dos testes. Em relação às patentes, houve um receio, e daí vem o título do primeiro artigo que escrevemos em conjunto e que foi publicado no DN, "2021: Por um punhado de dólares e 13% da população mundial". Por um lado, fala em insolidariedade e, por outro, fala da questão das patentes e faz uma intersecção entre os dois temas. Temos a possibilidade de o mundo ocidental conseguir fazer a necessária aquisição de vacinas e testes quando surgissem, precisamente por causa das patentes. Porque em função das patentes é que obtemos o preço, e as patentes e o preço são determinadas pelo investimento que, por sua vez, é elevado. O argumento aqui é que tem de haver patentes e proteção em função do investimento feito.

Essa solidariedade que se manifesta num segundo momento, é movida por medo, incerteza, necessidade ou pelas três coisas?

PA - Se calhar, pelas três coisas, aliás, dizem que a necessidade é mãe da invenção. Penso que pela necessidade, pela racionalidade, e por uma visão que surge - até já tinha surgido no âmbito da segunda guerra mundial -, e que tem ramificações geopolíticas, é uma coesão que surge em função da necessidade como já aconteceu noutros momentos. Tivemos essa coesão e solidariedade no âmbito da segunda guerra mundial, não necessariamente porque os países em questão tivessem especial carinho uns pelos outros, mas por necessidade. Foi uma solidariedade imposta pelas circunstâncias, foi uma solidariedade utilitária.

Estaremos a tê-la agora perante a invasão da Ucrânia?

PA - Sim, é exatamente isso que acho. Se ficou para sempre a lição, isso só o tempo dirá, mas penso que o acontece é que temos uma pandemia que termina numa síndrome solidário - penso que basicamente utilitário -, embora tenha sido absolutamente benéfico e tenha ajudado a Europa a banir o mais possível este inimigo invisível. Esse padrão comportamental está agora a ser replicado, também de forma bastante benéfica, no contexto geopolítico que temos em função da situação que temos na Ucrânia. Também já disse no Diário de Notícias que essa é a outra pandemia que temos, a pandemia de nome Putin.

Estamos agora mais bem preparados para novas variantes que possam surgir já este inverno?

FF - Na sequência do que disse a Patrícia, diria que esta pandemia com todos os aspetos negativos que teve, também teve algumas vantagens que a Europa soube aproveitar. Uma delas, foi o acordar da Europa ao revelar as suas fragilidades e dependências e, nomeadamente na questão das variantes, foi tomada uma medida pela União Europeia que me parece extremamente importante e com impacto futuro. Falo da criação de uma nova agência de preparação e monitorização na área da saúde, a HERA, que vai certamente obrigar a uma maior vigilância de novas ameaças, onde se incluem estas novas variantes. Dentro destas novas variantes, tem havido um esforço muito grande a nível europeu, conjuntamente com o Reino Unido, para avaliar as duas grandes ameaças de variantes que se aproximam. Falo das variantes BQ1.1 e a XBB, sendo esta última conhecida por variante de Singapura por ter um acréscimo de atividade neste país, mas pensa-se que poderá vir a ser dominante no continente europeu, por volta de dezembro ou janeiro. Neste momento, estamos a assistir na Europa a um aumento da variante BQ1 e BQ1.1, e estas variantes significam uma maior capacidade de transmissão porque têm mecanismos de invasão à imunidade desenvolvida pela infeção, quer natural, quer pela vacina. Em princípio, ainda não estão associadas a um aumento da gravidade, mas se tiverem uma grande capacidade de infetar mais pessoas, mesmo vacinadas, em número absoluto acabará por haver mais gravidade. E a meu ver haverá ainda outro problema que se pode colocar: alguns dos tratamentos com anticorpos monoclonais que estão a ser mais utilizados - embora pouco utilizados em Portugal, infelizmente -, como o tixagevimab, que têm menor atividade nesta variante, o que significa que podemos ficar mais expostos. Isto implica que há uma grande necessidade de vigilância e de acompanhamento em tempo real da informação, para podermos tomar as medidas adequadas.

Perante estas duas grandes ameaças, que impactos da Covid-19 antevê para este inverno em Portugal?

FF - É uma excelente pergunta, infelizmente não tenho uma bola de cristal, mas tenho sempre de fazer aquilo que me é exigido: preparar-me para o pior e esperar o melhor. Diria que vamos estar a viver aquilo a que se chama "pandemia tripla", uma pandemia com Covid, com gripe e com vírus sincicial respiratório. Ou seja, vamos estar numa situação em que, apesar das pessoas estarem vacinadas contra a gripe e a Covid, vão progressivamente diminuir a sua imunidade. Com as novas variantes de Covid, poderá haver alguma diminuição da eficácia contra a infeção e, portanto, vamos ter um aumento de número de casos, um acréscimo da afluência às urgências e, previsivelmente, teremos um aumento da gravidade traduzida em internamentos em enfermaria e cuidados intensivos. Além disso, necessariamente e infelizmente, vamos ter um aumento da mortalidade, nada que já não estejamos a ver lentamente noutros países. A meu ver, isto significa que temos de tomar algumas medidas essenciais: uma delas é aumentar rapidamente a vacinação contra a Covid e contra a gripe - começando pelos mais velhos e depois alargando ao maior número de pessoas possível -, e temos de melhorar muito os sistemas de vigilância. Neste momento, temos um sistema de vigilância que está um bocadinho atrasado, temos boletins que dependem da informação hospitalar que termina na segunda-feira da sexta-feira em que emitimos o boletim. Ou seja, estamos com dez dias de atraso e também sabemos que há uma décalage entre o que se passa na comunidade e o que se passa nos hospitais, de cerca de duas semanas. Portanto, temos um agravamento no atraso desta resposta e, além disso, precisamos urgentemente de rever em que contextos podemos voltar a utilizar as medidas de intervenção não farmacológica, nomeadamente a máscara.

Na China a Covid ainda não desapareceu, apesar da sua política de Covid zero. Não terá aprendido com tudo isto ou já estará a antever o inverno e, por isso, a ser já mais restritiva?

PA - Penso que a China se mantém fiel a si própria, penso que o comportamento não mudou. O livro chama-se A Pandemia que revelou outras Pandemias, mas penso que no caso da China é uma pandemia que reitera outras que já eram subsistentes. Foram reiteradas sem hesitação, porque se não existe democracia, não existe hesitação em tomar certas medidas que criam ingerências nos direitos, liberdades e garantias das pessoas. É uma reiteração de um comportamento que já existia antes da pandemia, mas também tivemos uma pandemia em termos democráticos que não aconteceu só na China. Na Europa também houve certos momentos e comportamentos que criaram fortes ingerências nos direitos, liberdades e garantias das pessoas. Por exemplo, o facto de ter sido emanada tanta legislação em Portugal, sem cumprimento dos trâmites constitucionais, também foi preocupante. E Portugal não é um país de terceiro mundo, é um país da União Europeia que, supostamente, cumpre os trâmites constitucionais.

Gouveia e Melo diz no prefácio que houve uma mudança de hábitos e comportamentos, desde o isolamento à ausência de cumprimentos durante muito tempo. Na sua opinião, os portugueses estão mentalmente disponíveis para voltarem a medidas mais apertadas?

FF - Uma das coisas que aprendemos foi a comunicar, a pandemia foi um curso acelerado de comunicação. É evidente que há uma grande componente de fadiga pandémica, também reconheço que a tenho, mas quando tomamos uma decisão temos de pensar nas alternativas. Se a situação se agravar, acho que mesmo as pessoas tendo fadiga pandémica, considerando as alternativas e também por responsabilidade individual e coletiva, em determinados contextos voltarão a adotar as medidas necessárias. Não podemos confundir uma pequena minoria da população, com o grosso da população que soube de forma muito clara tomar as medidas necessárias para enfrentar este obstáculo. Estamos todos cansados, reconheço-o, mas conhecendo o contexto e as alternativas, as pessoas saberão certamente tomar a decisão que é melhor para elas, para os seus, e para os outros. Não tenho a menor dúvida, porque é disto que Portugal tem sempre dado provas quando se encontra em situações que assim o exigem.

Estará a faltar comunicação sobre o próximo inverno? Não deveríamos ter já diretrizes claras?

FF - Acho que, neste momento, o discurso político está adaptado à saturação resultante da pandemia. Mas à medida que a situação se agravar, vai adaptando-se a essa nova realidade, e há pequenos indícios de que isso já está a acontecer. Um deles, indiscutivelmente, é o anúncio de que as reuniões do INFARMED vão voltar ou, pelo menos, a primeira já foi comunicada e será, previsivelmente, para breve. Ou seja, houve um período de descanso e agora é natural que as coisas se adaptem e se relacionem com o nível progressivo da atividade. A minha grande preocupação, para ser franco, é que precisamos de monitorizar melhor o que se passa neste momento, para também podermos fundamentar melhor as medidas que precisamos de tomar. Os boletins que temos neste momento têm um atraso e isso pode causar um agravamento da capacidade de resposta.

A liderança, de que Gouveia e Melo fala no prefácio do livro, pode ser transportada para os dias de hoje e para outras áreas que não só a dos hospitais?

PA - Penso que sim, aliás, é uma das mais importantes lições a nível nacional. O que verificámos em Portugal foi a emergência de uma forte fé no almirante Gouveia e Melo e na sua equipa. Foi uma equipa que funcionou sob a égide do almirante e sob a ordem e disciplina imprimidas pelo almirante. Curiosamente, isso gerou a tal fé, mas a solidez, a metodologia, o facto de tudo ser alicerçado em conhecimento e dados empíricos, tudo o que foi feito pelo almirante, levou a um movimento inesperado. Surgiu na saúde, mas pode e deve ser extrapolado por ele, se assim entender, para o campo político.

O primeiro líder da task force não foi Gouveia e Melo, mas ele já lá estava. Ou seja, de repente, parece que pelo facto de ter entrado um homem de farda, tudo mudou. O almirante era vice-coordenador da task force, portanto, se antes houve erros, também terão sido da sua responsabilidade. O que é que muda perante a opinião pública, quando a mesma pessoa que estava numa comissão que tinha manifestamente um presidente que não estaria à altura da função, assume a presidência?

PA - Penso que a farda tem um efeito simbólico, mas foi muito mais que isso. A farda criou essa noção metafórica de solidez, rigor, método e disciplina num âmbito de caos. Ação gera reação e comportamento gera comportamento, e o que temos são anos e anos de caos político, económico e financeiro, e acresce a tudo isso o caos criado pela pandemia. De repente, aparece uma figura de farda que simboliza todo um outro padrão comportamental e toda uma outra maneira de ser, e acho que cria fé num ambiente em que já há falta de fé.

Mas o almirante já estava na comissão.

PA - Certo, mas tinha um papel diferente.

FF - Acho que a pergunta tem a ver com a liderança. De facto, ele estava lá, mas não estava no sítio certo, não era o líder. O que percebemos é que temos de ter a pessoa certa, no sítio certo, na altura certa. E o que tínhamos era um vice-coordenador de uma comissão, não sendo o líder, e quando passou a liderar deu o exemplo de liderança, e a vacinação deu o exemplo de superação nacional.

PA - E o que estava a tentar dizer, na sequência da pergunta da Rosália, é que isso pode ser extrapolado para o plano político. Porque o líder marca a marcha de um país a muitos níveis, e foi isso que mudou.

FF - Pode ser extrapolado a todos os níveis

Estão de acordo nisso?

FF - Estamos completamente de acordo. Em saúde, conheço colegas excecionais que infelizmente não estão no cargo de liderança que deviam estar para podermos resolver problemas, mas não são essas pessoas que escolhem os cargos onde estão.

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