"A vacinação é só um dedo." Precisamos da mão toda para combater a pandemia

A metáfora é usada por Rui Gaspar, professor auxiliar de Psicologia na Universidade Católica, para explicar porque é que a vacina não dispensa as outras medidas de proteção contra a Covid-19.

Na passada terça-feira, na reunião do Infarmed, a Escola Nacional de Saúde Pública da Universidade Nova de Lisboa apresentou um estudo que conclui que disparou, a percentagem de pessoas que não usou máscara durante a época de natal e ano novo. Passou de 25 para 60 por cento em menos de um mês e este aumento inclui quem estava em grupos de 10 ou mais pessoas.

Perante esta conclusão, a TSF perguntou a Rui Gaspar, coordenador da pós-graduação em Comunicação em Saúde Pública na Católica, o que pode explicar este comportamento. O especialista começa por falar de algo a que chama de "contágio social".

Afinal, o ser humano também age por "imitação" daquilo que vê aos outros. Se os outros não usam máscara, porque motivo hei-de ser eu a usá-la? Ainda mais quando estou em família, num ambiente "seguro"?

"Poderá ter havido, na altura das festas, uma certa pressão, quase que escondida, para não usar máscara (...) Porque é que estás a usar isso??? Aqui não há ninguém contagiado". Foi quase uma "nova norma" aplicada em família, no Natal, explica o especialista.

Depois, a máscara é uma barreira, é desconfortável e exige muito esforço, até financeiro. As pessoas estão notoriamente cansadas, a "fadiga pandémica instalou-se" e pode estar a contribuir para um certo relaxamento. Mas, então, como fazer os portugueses voltarem a cumprir como antes?

Mostrar bons exemplos

O professor da Universidade Católica acredita que isso é possível, nomeadamente, se forem salientados bons exemplos. Mostrar, não apenas, que o uso de máscara está a cair, mas, sobretudo, que a maioria ainda o faz. O mesmo se aplica à distância física de dois metros, que o estudo da Escola Nacional de Saúde Pública, também revela que é cada vez menos mantida.

Salientado que não quer entrar em questões políticas, Rui Gaspar nota que seria importante lançar apoios, já que "estamos constantemente a comprar máscaras". O investigador recupera a ideia antiga da disponibilização generalizada de máscaras gratuitas, e não apenas para os profissionais de saúde.

Depois há a questão da vacina, que também terá contribuído para algum "excesso de confiança" que se gerou na sociedade. Rui Gaspar defende que a comunicação a este propósito "pareceu que se estava a dizer que esta é a principal medida e as outras passam para um plano secundário, o que não é verdade".

"A vacinação é só um dedo"

Para explicar porque não é verdade, o professor universitário recorre a uma metáfora: "quão difícil seria nós fazermos as tarefas do dia-a-dia, se só pudéssemos usar um dedo?(...) É impossível! Se tiver uma mão, conseguirei fazer melhor (...) O discurso tem de ser nesta linha: a vacinação é um dedo (...) higiene das mãos, uso da máscara, distância física, etiqueta respiratória" são os outros, "mais um que se junta, que é a vacinação".

Rui Gaspar ilustra, desta forma, o facto de a vacina não dispensar todas as outras medidas de combate à infeção, que é preciso manter.

"Os portugueses habituaram-se aos números"

A frase de António Costa, após a reunião no Infarmed, "tem muita verdade", considera o professor de Psicologia. Chama-se "dessensibilização": "quanto mais casos, mais mortes, nós vemos, menos isso tem impacto em nós". Uma situação que é preciso contrariar e há forma de o fazer, salienta Rui Gaspar.

É preciso mostrar que, por detrás de cada número, há uma pessoa, há várias pessoas, há famílias inteiras afetadas e é "preciso comunicar" isso mesmo. O especialista defende que essa comunicação pode mesmo passar por dar a conhecer situações concretas, para que se entenda que "hoje, não foram só mais 155 mortes".

LEIA AQUI TUDO SOBRE A PANDEMIA DE COVID-19.

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