"Ainda estou a habituar-me a ter pessoas a tratarem-me bem." Éris é transexual e teve de fugir da violência da família

Inaugurado há quatro anos, o Centro Gis, em Matosinhos, não para de aumentar as respostas e apoios à comunidade LGBTI. A Casa Arco-Íris - uma resposta de emergência para vítimas de violência doméstica - foi a primeira a abrir portas, em 2017. Três anos depois, nasceu a Casa com Cor, que dá albergue enquanto as pessoas reconstroem a sua vida de forma autónoma. Éris foi a primeira moradora desta casa.

Éris Carvalho assumiu há pouco mais de dois anos que não se sentia bem num corpo masculino. Isso obrigou-a a sair de casa. O Centro Gis foi um porto de abrigo e deu-lhe um lar provisório.

"As pessoas só vão para a Casa Arco-Íris quando estão mesmo a precisar de ajuda, por causa da violência doméstica. Eu ainda tentei resolver por mim própria, mas claro que nunca iria resultar." Sem a presença do pai e da mãe, Éris cresceu rodeada de violência física e verbal, sem nunca conhecer e vivenciar um ambiente de conforto e respeito. Chegou já adulta à Casa Arco-Íris, uma resposta de emergência para pessoas LGBTI, naquele dia de 2020.

"No dia 22 de março tive de sair de onde estava a viver. Quando cheguei à Casa Arco-Íris, uma coisa em que eu reparei foi o silêncio. Ninguém me chamava nomes. Não havia um 'paneleiro' para aqui, ou 'há algo de errado contigo' para ali... Não havia insultos, não havia faltas de respeito, não havia ameaças, não havia nada", conta.

Ainda durante a pandemia, Éris deu um passo para um nova vida, segura e independente. "A Casa com Cor foi uma transição da Casa Arco-Íris. Propuseram-me ir para lá, ser a primeira pessoa a ir para lá, porque eu sempre fui bastante autónoma. Nunca precisei de grande apoio, porque tive de aprender tudo sozinha. Tinha de fazer as coisas, senão, quando era mais nova, batiam-me."

A Casa com Cor deu-lhe tempo para se reorganizar. "Só o facto de ter existido um teto seguro já fez a diferença toda". Éris já tem a sua casa e tirou um curso de Multimédia, mas está desempregada. Aos 35 anos, continua com o tratamento químico para a transição de género. Espera ser chamada em breve para a primeira cirurgia de transição, no Porto. Questionada sobre se se sente feliz, Éris responde que "a palavra feliz é um bocado forte". "Sinto-me bem."

O Centro Gis foi criado em Matosinhos, em 2017, pela Associação Plano i, que procura dar respostas concretas a um conjunto de questões sociais atuais, nomeadamente a desigualdade, a discriminação, a violência, a exclusão e a pobreza. A atividade desta associação passa pela organização de atividades e projetos de sensibilização, formação, educação, intervenção e consultadoria dirigidas a indivíduos, grupos, comunidades e instituições.

O centro apoia a comunidade LGBTI, com vários tipos de apoio do psicológico ao jurídico. Até agora, já se contam mais de 800 utentes. Paula Allen, psicóloga e membro da direção da associação Plano i, diz que a resposta do centro continua a ser abrangente.

Na pandemia, e em pouco mais de um mês, o número de pedidos de ajuda aumentou cinco vezes. Paula Allen afirma que a explicação é simples, a dependência obrigou muitas pessoas a regressar a casa do agressor, por falta de condições financeiras, devido ao impacto da Covid-19 na economia.

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