Médico de família: "Dizer a uma pessoa de 84 anos que não podemos aceitar os ovos é muito mau"

PorRoberto Dores
© Savio Fernandes/Global Imagens (arquivo)

António Branco é um médico de família que trabalha pelas aldeias alentejanas por opção. "É muito giro. Eu sempre quis ser médico de aldeia", assume o clínico, natural do Porto, mas que viria a fixar-se no Alentejo.

Aos dias de hoje exerce entre Monte do Trigo, Oriola e Vera Cruz, três aldeias do concelho de Portel, num dia a dia que quase se confunde com o célebre João Semana, embora à escala dos novos tempos. "O João Semana era uma personagem com a sua piada, pelo tipo de medicina que fazia. Estava sempre de serviço, era sempre chamado a todo o lado, a toda a hora, de dia ou da noite. Isso comigo não acontece, mas eu também não vivo em Portel", ressalva.

Ainda assim, confessa que vai "tocando" em todas especialidades. "Um médico de família numa aldeola como Vera Cruz tem de ser obstetra, ginecologista, ortopedista, cardiologista", revela, garantindo que, por vezes, assume tratamentos para que os seus pacientes tenham a melhor qualidade de vida possível até ao dia da consulta com os colegas especialistas. "Às vezes é a diferença entre chegarem vivos a esse dia ou correrem o risco de morrer", faz notar.

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É à boleia das novas tecnologias que tem procurado facilitar a vida de alguns dos seus pacientes, mesmo aos de idades mais avançadas, para evitar deslocações. António Branco recorre a fotos enviadas pelos Messenger. "Pedem-me que veja os pontos brancos que têm na garganta e outras coisas. Agora tenho meios ao dispor para prescrever as receitas. Eles recebem-nas no telemóvel e vão à farmácia comprar os medicamentos. E funciona", garante.

Em terras pequenas onde todos se conhecem é especialmente elevada a proximidade com o médico. Mantêm-se os convites para almoços ou jantares, a par de ofertas de animais, frutos ou produtos hortícolas. Mas como é que se gere uma desfeita perante o impedimento imposto pela lei aos dias de hoje?

"Há uns anos ia para casa com o carro carregado. Parecia uma mercearia", confessa, admitindo o mal-estar por hoje ter que dizer que não pode aceitar. "Dizer a uma pessoa de 84 anos que não podemos aceitar os ovos que nos quer oferecer é muito mau. Há quem ande às seis da manhã a apanhar ovos das galinhas todas, para levar ao senhor doutor." O médico recorda a reação de uma paciente em particular quando o clínico lhe disse que não podia aceitar os ovos. "Respondeu-me que os ovos eram bons e que tinham sido apanhados no próprio dia. Não é fácil para as pessoas quererem dar e não conseguirem."

Até que chega o pior lado da interioridade ao nível da medicina. Aquele momento em que é preciso avançar para os exames complementares de diagnóstico. "Para um velhote de 87 anos, que nem sequer gosta de sair de casa para ir à consulta, ter de ir para Évora, para o meio da confusão, fazer três exames é o caos." Falamos de cerca de 80 quilómetros entre a ida e o regresso, mas falamos também de, praticamente, um dia inteiro longe de casa.

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