Especialistas querem centro de ciências comportamentais permanente de apoio ao Governo

Coordenadora deste grupo de trabalho disse que esta será uma das propostas do relatório final que será entregue ao Governo esta segunda-feira.

PorLusa
© Patrícia de Melo Moreira/AFP

A task-force das ciências comportamentais, que aconselhou o Governo na tomada de decisões no combate à Covid-19, sugere a criação de uma estrutura permanente, independente e com financiamento próprio, para ajudar na tomada de decisão política.

A coordenadora deste grupo de trabalho, a psicóloga clínica Margarida Gaspar de Matos, disse à Lusa que esta será uma das propostas do relatório final que será entregue esta segunda-feira ao Governo, depois de a task-force ter terminado o seu mandato no final de dezembro.

"Em Portugal não há estruturas deste género permanentes, mas elas existem noutros países e nós entrevistámos os diretores para perceber qual a melhor forma de criar este centro de ciências do comportamento, com independência científica e não política, que esteja ligada ao Governo e possa, com algum peso de decisão, aconselhar, na linha do fizemos com a task-force", explicou à Lusa a especialista.

Margarida Gaspar de Matos deu o exemplo dos irlandeses e dos ingleses, cujos governos contam com o apoio de estruturas permanentes no apoio científico à tomada de decisões.

Num balanço ao trabalho da 'task-force' disse que foi positivo e contou que foi muito desafiante, relatando que os seis especialistas deste grupo - um antropólogo e cinco psicólogos - reuniram sempre via zoom, por causa da pandemia.

"Nós organizámo-nos por grupos de trabalho. Um deles, o da comunicação, esteve mais dedicado a ver os materiais e as mensagens visuais que se passavam, enquanto outro coligia dados de universidades que faziam investigação. Estes eram grupos de trabalho de 'sprint'. O outro era mais de maratona e fazia a revisão da literatura que se publicava, em Portugal e no estrangeiro", explicou.

Eram estes os especialistas que faziam depois as recomendações ao Governo sobre as mensagens a passar e de que forma, explicou Margarida Gaspar de Matos, acrescentando que a velocidade a que as coisas iam mudando, por imposição da pandemia, como por exemplo, quando apareceu a variante Delta, ainda dificultava mais o trabalho.

"Recomendávamos todas as semanas. Mas depois os políticos é que decidiam", afirmou.

Contou ainda que, como as recomendações acabaram por ter muita variação, por vezes foi preciso fazer um "alerta vermelho" pois senão as pessoas baralhavam-se.

"Aqui não foi por não se perceber de comunicação, foi porque a realidade era mesmo muito instável", disse a especialista, acrescentando que a mensagem deve ser sempre simples e muito clara: "para o senhor do quiosque perceber tudo e não ter de estar a discutir com os transeuntes sobre se se deve fazer assim ou assado".

Margarida Gaspar de Matos disse ainda que este grupo, como funcionava em regime de 'task-force', em emergência, não conseguiu fazer investigações no terreno, mas que uma estrutura permanente poderia permitir isso.

"Por vezes poderíamos testar com grupo de pessoas e ver logo que tipo de mensagem resultava melhor. Mas não conseguimos, pois estivemos sempre a trabalhar em estado de emergência. Não dava para muitas investigações de campo", afirmou.

Sublinhando a importância de uma estrutura permanente, lembrou que o grupo de trabalho das ciências comportamentais era formado por pessoas que não se conheciam e que trabalharam sempre à distancia e 'pro buono'.

"Qualquer euro que tivéssemos de gastar, era mais prático oferecer ao país, pois de outra forma as coisas não aconteciam", reconheceu, sublinhando a importância de criar uma estrutura permanente, com um coordenador que escolha equipa e com uma alocação financeira.

"Tem de ter poder de decisão, conseguir vencer a imensa burocracia que temos e precisa de alocação financeira. É difícil conseguir este equilíbrio, mas tem de ser", considerou a especialista, acrescentando: "O país lucrava se conseguíssemos fazer valer este centro e com a maior rapidez".

Margarida Gaspar de Matos referiu ainda que devia haver "uma mensagem muito clara sobretudo sobre a vacinação das crianças", acrescentando que as posições contrárias que surgem sobre esta vacinação dão uma má imagem da ciência.

"Se temos um método científico, não é possível fazer o mesmo e de cada vez temos um resultado diferente. Não pode ser assim ... uns enviesam para um lado, outros para outro e o ruído é patológico. E dá uma má imagem da ciência", afirmou.

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