"Foi um grande susto, muito mau." As marcas que a síndrome pós-Covid deixa nas crianças

Cláudia Santana atravessou um período difícil ao lado do filho de cinco anos. O menino enfrentou a síndrome inflamatória multissistémica, um quadro clínico grave e raro que tem sido detetado em crianças na recuperação da Covid-19.

PorCristina Lai Men e Catarina Maldonado Vasconcelos
© Adelino Meireles/Global Imagens

"Foi um grande susto", e a mãe não esconde. Três semanas depois de regressar do hospital, apareceram os sintomas. Ricardo ficou com febre. Mais dois dias volvidos, começaram os vómitos, mal-estar e dores de estômago. Estava a piorar rapidamente, e a mãe levou-o até às urgências. Ricardo tem cinco anos e foi infetado com o coronavírus em janeiro, tal como toda a família.

O menino enfrentou a síndrome inflamatória multissistémica, um quadro clínico grave e raro que tem sido detetado em crianças na recuperação da Covid-19. Cláudia Santana é enfermeira pediatra, mas reconhece à TSF que ficou assustada. Ainda hoje o filho é vigiado e medicado. Ricardo tinha estado dez dias no hospital, com Covid-19. Foi para casa ainda a fazer "desmame do corticoide" e outra medicação para a vesícula.

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"Felizmente não ficou com sequelas a nível cardíaco", regozija-se Cláudia Santana, que rememora muitas vezes períodos em que se sentiu alarmada com as marcas que a Covid-19 deixou no filho.

Ricardo e a mãe, Cláudia, estavam a partir bolachas, "para ficarem bem picadinhas". Agarraram no rolo da massa para as verem ceder sobre pressão. "Demos-lhe o rolo da massa para a mão e não sei bem o que aconteceu. Ele batia nas bolachas e só dizia mal da Covid; 'que me afastaste da minha família, que me levaste embora'. Esteve aos gritos a bater nas bolachas, foi uma descarga..."

A recuperar, Ricardo não ficou com sequelas físicas da síndrome inflamatória, mas a mãe admite que a experiência do filho a alterou profundamente. Está "constantemente à procura de febre e de coisas que não existem", consciencializa-se. "Fiquei um bocadinho maluca depois disto tudo."

No filho, as más memórias começam a passar como nuvens. "Eu tive Covid, fui internado, fui para o hospital e foi muito mau." O semblante de Ricardo ficava carregado sempre que se lembrava do vírus que o afastou de casa. "Ficava triste, mas o peso já não é tão grande", realça a mãe. Agora, Ricardo já fala sobre o assunto.

A síndrome inflamatória multissistémica aparece entre quatro a seis semanas depois do pico da infeção pelo SARS-CoV-2, mas, em muitos casos, as crianças nem sabem que tiveram Covid.

A síndrome inflamatória atinge vários órgãos e pode deixar cicatrizes, em especial no coração. Não se sabe se são alterações transitórias ou permanentes, mas, pelo menos durante seis meses, as crianças não podem fazer exercício físico.

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