"Falta de informação." Companhia de Jesus não sabe quantas crianças foram abusadas

Jesuítas terão abusado de menores entre os anos de 1950 e 1990.

PorDora Pires com Cátia Carmo
© Orlando Almeida / Global Imagens

A Companhia de Jesus em Portugal não sabe quantas crianças foram abusadas sexualmente ao longo de 40 anos, mas defende-se, alegando que a informação é escassa e não há relatos concretos das vítimas. A instituição denuncia oito jesuítas, todos já mortos.

Estes oito jesuítas terão abusado de menores entre os anos de 1950 e 1990. As crianças, rapazes e raparigas tinham entre 9 e 16 anos. Sofia Marques, do Serviço de Proteção e Cuidado dos Jesuítas, explica que a Companhia de Jesus não sabe ao certo quantas crianças foram abusadas nestes 40 anos.

"Também não temos essa informação. Em algumas das situações identificadas não temos conhecimento de quem são as vítimas, de quantas se tratam e numa delas nem sabemos quem é o suspeito, que não está identificado. Há muita falta de informação, não conseguimos identificar, até porque temos algumas situações relacionadas com contactos ou interações individuais, de um para um, e nesses não conseguimos estimar se há ou não há ou quantas situações terão existido com os mesmos suspeitos", explicou à TSF Sofia Marques.

Ouça as declarações da responsável do Serviço de Proteção e Cuidado dos Jesuítas à TSF

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A Província Portuguesa da Companhia de Jesus dá os abusos como certos, "com elevado grau de probabilidade", mas em nenhum momento refere quantas terão sido as crianças abusadas. Lê-se apenas que podem existir mais vítimas cujas histórias ainda se desconhecem.

"Conscientes de que só a transparência e a verdade podem trazer luz e esperança ao futuro, reconhecemos ainda que possam existir outras pessoas sofridas, cujas histórias não conhecemos, e a quem também nos dirigimos. Gostávamos de sublinhar que desejamos profundamente que esta nossa atitude não seja uma mera formalidade ou simplesmente 'expectável' neste momento da história da Igreja, mas que nasça do fundo do coração e que possa exprimir a nossa mais sincera disponibilidade", pode ler-se no comunicado.

Um dos oito abusadores ainda não foi identificado, mas Sofia Marques assegura que os casos estavam registados nos arquivos da companhia há já vários anos.

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"Não são conhecidos propriamente processos canónicos ou civis que tenham sido instaurados, são documentos mais pontuais. Temos registos em alguns órgãos consultivos em que se fez referência a uma ou outra situação em ata. Também há comunicações e cartas. O andamento também varia. Estamos a falar de oito suspeitos, portanto a atuação não foi igual e os factos também não foram iguais", revelou a responsável do Serviço de Proteção e Cuidado dos Jesuítas.

O texto divulgado esta segunda-feira pelos jesuítas começa por pedir perdão precisamente a quem foi abusado, bem como às respetivas famílias, pelos abusos, mas também pela organização não ter sido capaz de proteger os menores. Os crimes foram cometidos sobretudo em colégios da Companhia de Jesus, tanto nas salas de aula como em contactos individuais. Em alguns casos eram abusos pontuais, noutros eram recorrentes.

O comunicado refere que a generalidade das crianças era tocada em zonas íntimas, mas acrescenta que encontrou registo de contactos mais invasivos.

"Estes dados agora revelados foram apurados no âmbito do Serviço de Escuta - criado em novembro de 2021 para acolher, escutar e ajudar possíveis vítimas de abuso sexual nas obras da Companhia de Jesus e onde chegaram duas denúncias - e também através de uma recolha e procura de informação interna, nomeadamente nos arquivos da PPCJ", lê-se na mesma nota.

Quanto a eventuais indemnizações às vítimas ou famílias, Sofia Marques afirma que ainda é cedo para pensar nisso.

"Neste momento, aquilo que nos é permitido e possível é fazer este caminho de reconhecimento do mal causado, da dor e, de coração, partilharmos com todos este sentimento de dor, reconhecimento e pedido de perdão. Não tendo acesso às vítimas diretamente, não temos possibilidade de perceber o que cada uma pode precisar da parte da Companhia de Jesus", acrescentou.

Os dados serão agora enviados para a Comissão Independente para o Estudo de Abusos Sexuais nomeada pela igreja católica que está a investigar os abusos de menores na instituição e que encerra os trabalhos no final deste ano.

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