Monkeypox: que doença viral é esta e a que sintomas estar atento?

Foi identificado em Portugal e vários países um surto de varíola dos macacos (monkeypox). Esclareça as principais dúvidas sobre esta doença rara.

PorCarolina Rico
© Melina Mara/The Washington Post via Getty Images
Que doença é esta?

A varíola dos macacos é uma doença viral rara provocada pelo vírus monkeypox, do género Ortopoxvírus.

Trata-se de uma doença zoonótica (transmitida de animais para humanos) em muitos aspetos semelhante à varíola, mas geralmente menos grave, já que é menos transmissível e menos mortal.

Jaime Nina, investigador de medicina e higiene tropical, explica à TSF o que se sabe sobre esta doença

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Como se transmite?

A doença é transmissível através do contacto próximo com pessoas ou animais infetados ou materiais contaminados, como roupas.

Macacos e roedores como ratos ou esquilos, incluindo os mantidos como animais de estimação, podem ser portadores de monkeypox e transmitir o vírus a humanos.

Habitualmente esta doença não se dissemina facilmente entre os seres humanos, mas pode ser transmitida pelo contacto com lesões da pele de uma pessoa infetada, fluidos corporais (através de sexo desprotegido, por exemplo) ou através de gotículas expelidas por espirros ou tosse de pessoas doentes.

Em grávidas, a infeção pode ainda passar da mãe para o feto através da placenta.

A maior cadeia de transmissão comunitária alguma vez detetada abrangeu seis pessoas infetadas sucessivamente.

Que sintomas provoca o vírus monkeypox?

Os primeiros sintomas incluem o aparecimento progressivo de erupções que atingem a pele e as mucosas, gânglios palpáveis, febre, arrepios, dores de cabeça, dores musculares e cansaço.

As lesões cutâneas geralmente começam entre um a três dias após o início da febre e podem ser planas ou ligeiramente elevadas, com líquido claro ou amarelado, e acabam por ulcerar e formar crostas que mais tarde secam e caem.

As erupções começam muitas vezes no rosto (em 95% dos casos), antes de se espalhar para outras partes do corpo, especialmente palmas das mãos ou dos pés (em 75% dos casos) e genitais (30% dos casos).

O número de lesões pode variar entre apenas algumas ou milhares em todo o corpo e passam por várias fases: máculas, pápulas, vesículas e crostas, que acabam por secar e cair.

Segundo a Organização Mundial de Saúde (OMS), o período de incubação do vírus é geralmente de seis a 13 dias, mas os sintomas podem surgir até 21 dias depois da infeção.

Com menos frequência, a doença evolui para complicações graves que podem levar à morte, incluindo broncopneumonia, sépsis ou encefalite, ou à infeção da córnea que pode conduzir à perda de visão.

A taxa de mortalidade varia entre 0 e 11%, sendo crianças alvo de exposição prolongada ao vírus as principais vítimas mortais da doença.

O que fazer se suspeitar de infeção?

A Direção-geral da Saúde (DGS) aconselha quem registar sintomas suspeitos e sobretudo se tiver tido contacto próximo com alguém que possa eventualmente estar infetado por vírus monkeypox a procurar aconselhamento clínico e "abster-se de contactos físicos diretos."

Deve evitar-se o contacto físico direto com outras pessoas, e evitar partilhar vestuário, roupas de cama, atoalhados, objetos como talheres, pratos ou outros utensílios de uso pessoal.

Deverá ainda entrar em contacto com centros de rastreio de infeções sexualmente transmissíveis, com serviços de urgência para aconselhamento e avaliação ou ligar para a Linha SNS 24 (808 24 24 24).

Se se dirigir a uma unidade de saúde, deverá cobrir as lesões cutâneas, apela a DGS.

Os profissionais de saúde já foram alertados para o risco, com objetivo de identificarem eventuais casos suspeitos e de os notificarem.

Como se trata a doença?

Não há tratamento. A infeção raramente evolui para casos se sintomatologia grave e geralmente passa por si, sem qualquer intervenção médica, no espaço de entre duas a quatro semanas.

A vacinação contra a varíola revelou-se 85% eficaz na prevenção de infeções pelo vírus monkeypox, mas foi interrompida em 1980 uma vez que a doença foi considerada erradicada no mundo em 1979.

Segundo a OMS, foi aprovada em 2019 uma vacina de terceira geração para prevenção da varíola e varíola dos macacos, mas ainda não está disponível no mercado. Está também em desenvolvimento um medicamento antiviral.

Que surtos foram registados no passado?

O vírus foi identificado pela primeira vez num macaco em cativeiro em 1970, e no mesmo ano entre humanos, numa criança de 9 anos na República Democrática do Congo.

Desde aí a doença atinge ocasionalmente o continente africano, tendo sido reportados no passado casos em dez países: Benim, Camarões, República Centro-Africana, República Democrática do Congo, Gabão, Costa do Marfim, Libéria, Nigéria, Serra Leoa e Sudão do Sul.

A situação mais grave foi registada no Congo entre 1996 e 1997, com mais mortes do que o habitual. Alguns doentes testaram positivo para o vírus da varicela além de monkeypox, pelo que a infeção simultânea pode ter contribuído para a elevada mortalidade.

Em 2003 um surto com origem em mamíferos importados do Gana, que terão infetado cães da pradaria domesticados, contagiou 81 pessoas nos Estados Unidos.

Em 2017 a Nigéria registou o último grande surto, 40 anos depois da última vez que tinha registado a doença. Foram identificados 172 casos suspeitos.

Mais recentemente, em 2018, o vírus foi transmitido por pessoas que viajaram para a Nigéria para Israel e para o Reino Unido, no mesmo ano, e para Singapura em 2019.

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