Mulheres padres: "Será quando Deus quiser"

D. Américo Aguiar, Bispo Auxiliar de Lisboa, está esta semana Em Alta Voz, programa da TSF e do Diário de Notícias. O Bispo admite que a Igreja há muito deveria ter dado mais atenção às denúncias de abusos sexuais, não acredita que o fim do celibato acabe com a crise de vocações, avisa que o Estado nem sempre tem apoiado como devia as instituições da igreja que apoiam os mais desfavorecidos e, sobre a possibilidade de as mulheres virem a ser ordenadas sacerdotes, responde: "Será quando Deus quiser."

PorPedro Cruz (TSF) e Rosália Amorim (DN)
© Gerardo Santos/Global Imagens

Começo pela Comissão Diocesana de Lisboa, que investiga abusos sexuais a menores. Já há resultados concretos da investigação?

Não sei se algum dia vamos chegar a essa resposta. É um trabalho que se faz permanentemente, de criar condições de segurança, de confiança, para que as vítimas se sintam encorajadas a abrir o seu coração a um acontecimento da sua vida doloroso. Vamos imaginar um homem de 40 e poucos anos, porventura casado, com filhos, a quem tenha ocorrido esse momento dramático, doloroso, na sua vida, é preciso ser um herói, é preciso que à sua volta se criem condições de muita confiança para que ele possa abrir o seu coração e partilhar.

Já lhe chegaram casos? Estão a compilar testemunhos?

Não. Desde que foi criada a Comissão de Lisboa, em abril de 2019, que não tivemos comunicação ou denúncia de caso absolutamente nenhum que envolvesse eclesiásticos que é, digamos, a tutela com que esta comissão foi criada. Mas isso não quer dizer que não existam.

Esta criação de uma comissão nacional independente vai permitir ter uma noção mais clara, depois do seu ano de trabalho, da quantidade de casos que, eventualmente, possam ter existido?

Espero que sim. O nosso objetivo e desejo é que, nem que seja um, que possamos corresponder a esse sofrimento, a esse grito de atenção e que possamos acompanhar a pessoa, porventura, ajudá-la naquilo que o Papa dizia que são feridas profundas de difícil cicatrização. E tudo o que pudermos fazer, um que seja, porque não tenho informação nenhuma em especial, nem sei se a cultura do nosso país faz que possamos olhar para a realidade portuguesa de modo diferente da espanhola, da francesa, da australiana, da inglesa, da irlandesa, não faço a mínima ideia. Mas o que eu sei, e daquilo que depende o nosso grupo de trabalho e o espírito das comissões, tivemos uma reunião todos em Fátima, penso que em maio de 2020, e a maioria das comissões são constituídas, não por eclesiásticos, portanto, os eclesiásticos são uma amostra muito residual nas comissões, e o que eu noto é que, da parte desses leigos que se disponibilizaram a ajudar a Igreja neste caminho, é um total empenho, dedicação e até alegria por poderem ajudar como psiquiatras, como pedopsiquiatras, como antigos magistrados, como outras profissões, ajudarem com o seu saber a que possamos estabelecer um caminho que possa criar as condições de confiança nessas pessoas que, porventura, possam ter sido vítimas.

Há pouco disse, e agora repetiu, que talvez ainda não estejam criadas essas tais condições de confiança para que as pessoas venham apresentar as suas denúncias. O que é que falta para criar essa confiança?

Não sei dizer. Tenho falado com alguma frequência, nestes dois anos, com a APAV [Associação Portuguesa de Apoio à Vítima], que tem um projeto chamado CARE, que é um projeto muito interessante que tem o apoio da Gulbenkian e apoio estatal. E eu pergunto-me assim: nada impede que uma vítima possa fazer a sua denúncia junto da APAV através do CARE, nada impede que qualquer pessoa possa fazer uma denúncia junto das autoridades policiais, nada impede que uma pessoa possa fazer denúncia noutra entidade qualquer, nacional ou internacional, portanto, não há nada que impeça, à partida. Agora, o que é que temos de fazer, como Igreja em primeiro lugar e como sociedade de modo transversal, para que qualquer pessoa que tenha tido esta vivência se sinta confortável e segura para avançar? Há uma coisa que temos de evitar como sociedade, e como Igreja como é óbvio: evitar que a pessoa se possa sentir vítima outra vez. Ou seja, que numa denúncia num contexto qualquer de maior ou menor visibilidade ou mediatismo que a pessoa, no fim, conclua que voltou a ser vítima. Isso não podemos permitir como é óbvio.

Há pouco falou no Papa Francisco. Estas comissões diocesanas e depois a comissão nacional independente surgiram, precisamente, muito por insistência do Papa Francisco. Esse trabalho não deveria ter começado já há várias décadas?

Acredito que sim e quero acreditar que cada um, no seu tempo, faz aquilo que lhe é possível e aquilo que, enfim, as circunstâncias convidam ou condicionam.

Mas peca por atraso?

Tudo o que é irmos ao encontro destas pessoas, que foram vítimas destes crimes, peca sempre objetivamente, sempre. Tudo o que não foi feito, e que deveria ter sido feito é sempre motivo de prolongar, porventura, a dor da pessoa que viveu estas circunstâncias. Agora sabemos, ao olhar para trás também, que seja o Papa João Paulo II, seja o Papa Bento XVI, seja responsáveis de vários níveis de responsabilidade, que há homens e mulheres nesta história que foram dando o seu contributo e permitindo que se fosse avançando paulatinamente naquilo que é a precedência, primeiro das vítimas - as vítimas têm de ter o primeiro lugar na nossa preocupação e na nossa atenção -, e, a partir daí, tudo aquilo que decorre, enfim, a nível diocesano, a nível nacional e a nível internacional, como é óbvio.

A Igreja em Portugal, e não só, lidou sempre com estes casos como se fossem casos isolados ou casos pontuais, desvalorizando-os muitas vezes, de certa forma. E pergunto se foi a pressão social, se foi a opinião pública, que levou a Igreja a mudar de atitude.

Acredito que sim. Aliás, faz parte. Somos membros de uma sociedade, somos cidadãos, somos influenciados por tudo aquilo que está à nossa volta, das várias instituições, agremiações, fraternidades, confrarias e irmandades fazemos parte, e, pessoalmente, diariamente, sinto-me condicionado, empurrado ou inspirado para fazer as mais diversas coisas. E é óbvio que se olharmos para trás a Igreja, nos seus responsáveis primeiros, a Igreja comunidade, foi sendo sensibilizada, empurrada na urgência e na necessidade e, acima de tudo, naquilo que o Papa Francisco diz: isto não é favor nenhum que a Igreja faz, não é uma concessão, é uma obrigação que ela tem. E ainda bem que estamos nesta fase e bom que seria que um dia destes os responsáveis pudessem estar aqui a dizer que o resultado final era positivo, que se tinha resolvido, que se tinha esclarecido, e que estávamos já noutra fase de toda esta vivência.

A ideia que fica é que foi preciso o Papa Francisco forçar para que esta realidade começasse a ser levada mais a sério. Foi preciso o Papa dizer "façam as comissões"? Ou seja, a Igreja com a autonomia que tem em cada diocese, em cada paróquia, em cada país, não deveria já ter avançado nestas investigações?

A realidade da Igreja é muito diferente de norte para sul, do interior para o litoral, do continente para as ilhas, da Europa para a Ásia, da Ásia para a América. Ou seja, a Igreja vista como um todo é um aglomerado de culturas, vivências, sensibilidades totalmente diferentes. Cabe à figura do Papa, quando ele acha que chegou a altura ou quando, porventura, toma uma decisão, de ser, digamos, vinculativo. E o Papa quando, pela primeira vez, em fevereiro de 2019, convocou todos os presidentes das conferências episcopais do mundo para uma reunião presencial em Roma, para tratar de um assunto muito específico - este -, foi algo que nunca tinha acontecido. Portanto, o Papa tomou a iniciativa de chamar a Roma todos os responsáveis das conferências episcopais de todo o mundo, partilhar com eles a sua leitura, a sua preocupação, o seu sofrimento, e aquilo que ele achava que devia acontecer em cada igreja particular, em cada diocese, independentemente do continente, independentemente do ponto de situação em que cada uma estivesse. Não tenho conhecimento de toda a realidade das dioceses do mundo inteiro, mas às vezes leio coisas que me dizem que há dioceses que há muitos anos se debruçam sobre esta questão, mesmo antes de ela ser tão pertinente. Como há outras que teimam em desvalorizar, porventura, a pertinência, a prioridade, e o sofrimento deste acontecimento. Ora, o que é o que Papa fez? Acabou por ajustar e convidar e impor que todas passassem, pelo menos, a ter uma comissão diocesana para avaliar e acompanhar esta temática e isso concretizou-se no verão do ano seguinte.

O senhor bispo escreveu há umas semanas que é preciso olhar para estes crimes dentro da Igreja, mas que não se pode deixar de fora outros setores da sociedade. Mais uma vez, não parece uma desculpa?

Eu apanhei nas orelhas e apanhei com razão de apanhar, mas convencido de que estava a dizer uma coisa que se entendia. Vou então recapitular aquilo que disse e contextualizar. Ponto um: a Igreja tem o dever e a obrigação de fazer o seu trabalho, independentemente dos outros. Ponto dois: a nossa preocupação são as vítimas. Ponto três: temos de criar condições de confiança, de segurança, e não permitir que nenhuma vítima, porventura, em razão de denúncia, se sinta novamente vítima. Agora, eu que desde abril de 2019 acompanho o fenómeno e, quer na Procuradoria-Geral da República quer nas autoridades policiais e de investigação, os números e os relatórios, vejo que, infelizmente, o fenómeno da pedofilia é grave, profundo e transversal à nossa realidade como sociedade. O que eu disse foi que a Igreja tem de fazer a sua parte, não é favor nenhum, é obrigação, é prioritário, é exemplar, mas é também momento de, ao mesmo tempo, olharmos todos como sociedade para a situação e sermos capazes de fazer alguma coisa. E podemos dizer "mas o que é que falta fazer?" É o tal ambiente de confiança, porque existe a APAV, existe a polícia, existe a procuradoria, existem tantas e tantas possibilidades, e-mails, telefones e endereços. Se existem porque é que as pessoas não denunciam? E essa é a questão que se coloca a mim como bispo, como padre e como cidadão: o que é que eu tenho de fazer mais para que isso aconteça? Depois, o que eu estava a tentar dizer, e sem atribuir culpas a ninguém, porque isto não se resolve uns contra os outros, isto resolve-se se todos fizermos a nossa parte em conjunto para o bem das potenciais vítimas, é, o que é que temos de fazer todos juntos, nós Igreja, nós Ministério da Educação, nós as ordens profissionais, nós o futebol, nós o desporto em geral, o que é que temos de fazer mais para que o assunto seja encaixado no coração de cada um como prioritário e como inadmissível? E isto não é nem acusar nem sacudir a água do capote, porque eu compreendo que a leitura inicial possa ser a que foi tida, mas não era esse, nem é esse, o objetivo. É que como sociedade portuguesa, europeia e mundial, sejamos capazes de dar um sinal de que isto é inadmissível e inaceitável.

© Gerardo Santos/Global Imagens

Em França foram revelados mais de 700 casos, em Espanha, soubemos nesta semana, quase 300. Em Portugal, a Igreja, até hoje, admitiu publicamente cerca de uma dezena de casos e considerando-os sempre como pontuais. Acredita que ainda hoje há menores a serem abusados em Portugal por membros do clero?

Se há, seria demasiado grave, inaceitável e intolerável. Porque se este ato hediondo é praticado por qualquer pessoa é muito grave, se é praticado por um padre considero que num top de gravidade ele está no top. Eu comparo ao pai, ao avô, alguém de extrema ligação e confiança. Mas com mais gravidade porque nenhuma destas pessoas, todos os dias ou semanalmente, está num ambão, está numa celebração, a anunciar Cristo vivo, a anunciar a fraternidade, a verdade, o respeito, a dignidade da pessoa humana, portanto, esta pessoa tem responsabilidades acrescidas perante os jovens, perante a sociedade em geral, portanto, se o pratica é muito mais grave do que qualquer cidadão anónimo de outra profissão ou outra relação. Se isso hoje acontece, significa que nós, Igreja, não fomos ainda capazes de colocar no coração de todos os membros da comunidade que a tolerância zero e a transparência total são para concretizar efetivamente.

Mas acredita que acontece?

Não posso dizer que sim ou que não. Era bom que pudesse garantir que não, não posso garantir que isso não aconteça, infelizmente. Nem da parte de um sacerdote nem da parte de qualquer outra pessoa, não posso, infelizmente.

Vamos mudar de tema. Há hoje um número de ordenações muito reduzido e uma Igreja cada vez mais envelhecida, quer na Europa quer em Portugal, são realidades semelhantes. O que é que se passa? Há menos pessoas a sentirem esse chamamento para a Igreja na sua opinião?

É assim, matematicamente está certíssimo.

Ou a sociedade atual está menos espiritual e está mais materialista?

O Papa tem uma mensagem de Ano Novo muito interessante, em que diz que é muito importante provocarmos o diálogo entre os guardiões do passado, da história, que são os mais velhos, e aqueles que constroem o futuro, que são os mais novos. Neste encadeamento destas duas gerações que são, normalmente, as que mais sofrem. Uns por terem a sensação do outono da vida e outros pela razão de terem dúvidas quanto à concretização dos seus sonhos. E estamos num tempo, de facto, que, primeiro, se olharmos para trás para as multidões sacerdotais, tínhamos famílias com número de filhos generoso, e hoje temos casais com um, e até costumo dizer a brincar, e não têm meio porque meio não é possível.

Ouça aqui a entrevista na íntegra.

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Está à vista na estatística.

Exatamente. E isto é um problema, não só para a questão vocacional sacerdotal, é um problema para muitas áreas daquilo que significa o país ter capacidade de corresponder a tantas e tantas vocações e profissões que são necessárias para que a sociedade funcione. Mas é óbvio que se me perguntar se hoje, tal como no passado, é normal que uma família coloque a hipótese a um jovem, seu filho, seu sobrinho, seu neto, a questão sacerdotal, a questão missionária, a questão de consagração espiritual especial, se calhar é uma possibilidade mais rara. Estamos num tempo novo, estou convencido, cada vez mais, de que estamos a viver o momento de viragem epocal, acelerada pela revolução digital, mas ainda mais pela pandemia. Há aqui um conjunto de coisas que estão a acelerar o mundo que eu, com 48 anos, olho para a malta nova e falo com eles, até por causa das Jornadas da Juventude, e já me sinto afastado.

Muitas vezes estes momentos de crise levam a um chamamento à Igreja e não a um afastamento. Há um certo desencantamento?

Mas temos fenómenos contrários. Ou seja, depende muito daquilo que é o trabalho em cada diocese, em cada congregação, em cada instituto religioso, o trabalho que está a fazer, primeiro, de se tornar visível perante os jovens e, depois, de os cativar. Por exemplo, uma coisa que vemos é que há jovens que se sentem cativados pela ação. Há jovens que, rapidamente, têm o gosto e a vontade de ir para um país distante, para uma atividade de missão, em que vão ajudar na engenharia, na sociologia, no ensino, no sociocaritativo, mas não se sentem tão cativados se eu os convidar para ir ali à igreja não sei de onde, todas as sextas-feiras, para a adoração do Santíssimo e para o terço às 09h30. Como há o contrário, há jovens que têm apetência e sentem-se mais convidados para algo mais espiritual, mais interior. E o nosso trabalho, e o trabalho da dita pastoral das vocações, das dioceses, dos institutos e das congregações, é também sermos capazes de ter uma linguagem e ter uma presença junto dos jovens que eles entendam, que eles decifrem, porque, às vezes, tenho noção de que o que digo e como digo não é totalmente percetível da parte dos jovens.

Mas o tema da vocação, ou da falta dela, tem que ver também com o celibato? É isso que os afasta?

Acredito que sim. Acredito que há jovens que, porventura, possam ponderar essa possibilidade e ao fazerem essa avaliação e a rezarem sobre o assunto do sim, do não, do talvez, que essa circunstância seja entrave ou seja obstáculo, a que aceda ou responda positivamente a essa possibilidade. Mas também vai permitir-me que diga que acredito que Deus chama, e quando chama, também vai colocando a graça, a força e a perseverança naqueles que chama para que possam corresponder dessa maneira. Não estou a dizer que o ser ou não ser, o dizer que sim ou dizer que não, na circunstância específica do celibato, impeça uma maior ou melhor correspondência, uma melhor ou menor vivência vocacional. Porque é lógico que nós estamos muito habituados a fechar muito naquilo que é o exercício sacerdotal ministerial, mas temos uma possibilidade enorme e alargada de vocações dentro da Igreja a que se pode corresponder também na situação matrimonial.

© Gerardo Santos/Global Imagens

Pessoalmente e enquanto bispo, o celibato é uma questão fechada ou pode, e deve, ser discutida no interior da Igreja?

Pessoalmente, acho que tudo deve ser falado, dialogado, aberto, naquilo que significa a liberdade dos filhos de Deus e aquilo que significa o modo como nos organizamos como Igreja que somos e, ao longo dos tempos, essa Igreja de 2000 anos. Lá está, andamos muito a falar do tempo mediático, do tempo político, do tempo da saúde, do tempo da ciência, também há o tempo do espírito, também há o tempo da Igreja. Às vezes eu olho para a história e digo, ainda bem que a Igreja tem um retardador, tem uma velocidade diferente porque há coisas na história da humanidade que são modas, aparecem e desaparecem, e a Igreja, às vezes, é a entidade que vai mantendo ou vai garantindo que o essencial permanece ao longo desses ventos, ciclones e dessas modas que, porventura, aparecem. Não me repugna que tudo seja falado, que tudo seja colocado na mesa do diálogo, de coração aberto, com a oração devida e, depois, em cada tempo cada responsável nesse tempo tem a obrigação e está ungido para tomar as decisões. Tivemos, ao longo dos tempos mais recentes, o Papa João Paulo II, o Papa Bento XVI e o Papa Francisco. Cada um deles tomou decisões, a eles lhes coube tomar decisões, e a Igreja acolhe. Acredito que nesta Igreja há sensibilidades diferentes sobre o assunto, mas a quem de direito há uma decisão e continuamos o caminho.

Mas o celibato é ou não é uma questão que pode ajudar a terminar com a crise de vocações?

Nós temos irmãos de outras confissões que não têm a imposição, ou a recomendação, ou a circunstância do celibato.

Todos sabemos que existem, em Portugal, os filhos do padre, as filhas do padre, que vivem vidas escondidas. Como é que isto se resolve?

O todos sabemos, eu não sei. O que é que digo em relação a esse assunto e em relação a assuntos nessa secção é assim: tem que ver com a tal tolerância zero e com a transparência total. O pior que pode acontecer na vida de um sacerdote é criar na sua mente e no seu coração a ideia de que à sua volta há condições para uma vida dupla. Ou seja, que possa entender, que possa ler, que possa sentir que no seu seminário, que na sua paróquia, que na sua diocese, que na sua religião, há folga, há circunstância ou há sinais que lhe dão conforto, esperança ou expectativa de que pode ter uma vida dupla e isso nós não podemos permitir. Nem para aquilo que significa a verdade da sua vida nem para aquilo que significa a verdade do seu exercício ministerial, seja lá em que circunstância for. A mim o que me coloca a questão é se da nossa parte há qualquer comunicação errada que faça criar no destinatário a ideia, a sensação, de que é permitido que ele faça isso. E, a partir daí, temos um problema que é preciso resolver, para bem do próprio e para o que significa a verdade do exercício ministerial.

As mulheres têm na Igreja Católica um papel fundamental, mas sempre subalterno. A questão da possível ordenação das mulheres merece ser discutida ou nem sequer é um tema na cúria?

Merece ser sempre discutida. Aliás, é como na secção do celibato e eu digo o mesmo: em todos os tempos acho que é importante podermos falar abertamente de todas as questões. E o Papa Francisco, neste seu pontificado, tem provocado e proporcionado diálogo, discussão, avaliação, reflexão e sinais. Da própria caneta do Papa têm saído nomeações, primeiras, para responsabilidades e funções que são inauguração, que são novidade. Primeiro, pessoalmente, não gosto, nunca gostei, não gosto - e posso estar errado, e aceito para levar as reguadas se for o caso -, o que tem que ver com as quotas, não gosto de quotas, não gosto que tenhamos de ter X homens e X mulheres, acho que as coisas devem acontecer pelo mérito próprio de cada um. Mas também aceito que na sociedade ideal isso é possível, na sociedade real nem sempre. E vemos que há assuntos que, se não for a imposição de quotas, que não se concretizam e, portanto, a imposição se calhar, passageiramente, deve existir para que as coisas se concretizem.

Mas neste caso não se trata de quotas, trata-se da abertura da possibilidade de as mulheres serem ordenadas.

Há outra questão que tem que ver com o seguinte: o serviço e o poder. Se associamos o serviço e o poder ao exercício ministerial, parece-me que é óbvio que a leitura que possa ser feita é que não se está a permitir chegar ao topo do poder. Eu não faço essa leitura, faço a leitura de que nós somos chamados ao exercício de um serviço à comunidade, cada um mediante as suas circunstâncias, as suas qualidades, em que a Igreja chama. E estou convencido de que, no dia em que Deus quiser, e vamos falar assim, no dia em que Deus quiser, que a Igreja vai chamar ao exercício de funções quem hoje não chama, as mulheres.

E o que é que está a faltar para esse passo? É só Deus querer?

É Deus querer, como sempre.

Mas é preciso uma mudança de mentalidades? Que o Papa seja mais vinculativo ao chamar mulheres para junto desse poder?

É preciso todo um caminho. Costumo dizer, a brincar, que quem conhece a Igreja por dentro sabe muito bem que quem manda nisto tudo são as mulheres.

Isso é muito bonito de dizer, mas depois as mulheres não estão no tal poder de que falava.

Não, mas é isso, a questão aqui é purificar o serviço e o poder, acho que isto é que temos de purificar. Porque se formos a uma comunidade, na catequese e em quase todos os serviços, quase todas as áreas da pastoral, a presença das mulheres é 20-0, nem há discussão. A questão principal aqui é, primeiro, interpretarmos a realidade da nossa sociedade, do nosso tempo, da nossa sensibilidade, e acredito, estou plenamente convencido, que um dia, não sei se é amanhã, se é para a semana, se o vou ver ou se não o vou ver, que com toda a naturalidade isso poderá vir a acontecer.

E se for ver, verá com bons olhos que isso aconteça, a ordenação das mulheres?

Totalmente, totalmente.

Seria também uma forma de contornar a falta de vocações?

Não queria que fosse por aí. Ou seja, nunca avalio positivamente que se avance num assunto para resolver outro problema. Tem que ver também, por exemplo, com aquela questão dos diáconos permanentes que, a certa altura, foram criados, depois houve um travão, depois houve uma retoma desse exercício dos diáconos - normalmente homens casados - e, a certa altura, a conversa é precisar de mão-de-obra, e não é esse o foco. O foco é reconhecermos o tesouro, a mais-valia, a riqueza de vocações diferentes. É esse o caminho, é entendermos que o estarmos a servir a Igreja em serviços diferentes, em ministérios diferentes, homens, mulheres, casados, solteiros, leigos, cada um na sua vocação, isto é uma riqueza e não propriamente um responder a ter ou não ter exército, a ter ou não ter funcionários, porque acho que isso é a leitura mais pobre do que pudesse ser um contexto para avançar.

Os apoios da Igreja às famílias carenciadas subiram muito nestes dois anos de pandemia?

Muitíssimo, muitíssimo. São os números que temos, quer da rede Cáritas Portuguesa quer de toda a rede das IPSS ligadas na tutela da Igreja, e mesmo as outras em geral. Ouvimos isso do padre Lino Maia da CNIS, do Manuel Lemos, da União das Misericórdias, é verdade que tivemos um salto. E tivemos um salto de gente nova, de gente que não costumava recorrer a estes apoios. A pandemia abalou profundamente alguns setores específicos que não estavam habituados, felizmente, ou não tinham sido vítimas de alguma crise mais efetiva e dura e profunda, como foi o turismo, a restauração, alguns serviços, algumas áreas da economia. Infelizmente, quando foi a crise económica ouvimos os responsáveis políticos nacionais dizerem que o setor social foi importante como para-choques, para aguentar o choque que as famílias tiveram. E, infelizmente, com a pandemia idem, idem, aspas, aspas. A rede do terceiro setor, o social, foi e está a ser fundamental para que os danos não sejam muito mais profundos do que aquilo que, infelizmente, são.

A Igreja estava preparada para isso? Soube reagir?

Infelizmente, somos profissionais da desgraça. Infelizmente, as nossas instituições vivem sempre nesta linha vermelha. As nossas IPSS nascem como primeira resposta aos problemas. Se formos às misericórdias, o que são desde há 500 anos? Uma primeira resposta a um problema novo, sempre. E aproveito para homenagear os trabalhadores, funcionários, dirigentes, desta rede maravilhosa de IPSS que temos pelo país, ligadas à Igreja e da área social pura e dura, e que vivem sempre com o terço na ponta da língua e nos dedos, que tem que ver com os orçamentos, que como dizia o Solnado, "acaba o ordenado e falta o mês". Vivemos sempre no limite, vivemos sempre a ratear para tentar corresponder àqueles que nos procuram, porque não há orçamento que corresponda a uma procura inflacionada que vamos tendo. Mas, permitam-me a expressão, graças a Deus, graças à generosidade dos portugueses, graças à solidariedade que é uma marca do ADN português, que quando falta nós somos capazes de, à Porto, fazer das tripas coração. E, portanto, somos um povo que se deve orgulhar de que, nos momentos de crise, fazemos milagres e somos capazes do pouco de cada um fazer muito para corresponder a todos.

E o Estado tem estado à altura?

Tem dias, tem dias... Ou seja, o Estado somos nós, não gosto nada que o Estado seja uma entidade estranha que ninguém conhece. E o Estado, ao longo deste tempo, está sempre aquém daquilo que é a sua corresponsabilidade no assumir dos custos destas respostas. Porque, às vezes, podemos ter ideia de que o Orçamento do Estado cobre aquilo que é o funcionamento do trabalho das instituições, mas não cobre. Ainda há dias fui fazer a bênção de uma valência nova da Misericórdia da Amadora, em que se gastaram uns milhões de euros, e que foram, quase na totalidade, meios próprios da instituição. Há um esforço muito significativo por parte das instituições para que o dia-a-dia possa acontecer. Não é o Estado que supre os orçamentos das instituições para que elas funcionem, o Estado comparticipa parte. E o que diz Manuel Lemos e o padre Lino Maia é que comparticipa sempre menos do que aquilo que devia, e do que aquilo que vai prometendo concretizar.

Vivemos numa sociedade da comunicação e do imediato. De que modo a espiritualidade esbarra neste modus vivendi?

Este tempo acelerado dos bits, dos likes, do não sei o quê, a certa altura, coloca-nos num desejo e numa vontade de procurar o deserto. O cardeal Tolentino há pouco tempo disse, de uma maneira tão perfeita que nem me arrisco a estragar, que às vezes temos necessidade de silêncio, de reflexão, de procurar os pontos cardeais daquilo que nos possa ajudar a navegar. E nesta vida tão acelerada, às vezes, temos necessidade de ter um farol, de ter pontos cardeais, além daqueles que são do GPS.

In manus tuas, quer dizer "nas tuas mãos", é o seu lema episcopal. Essa dádiva pessoal é uma entrega, um sacrifício ou uma libertação?

Tem dias, tem dias. Primeiro, dizer-vos que é uma homenagem ao senhor D. António Francisco dos Santos, era o lema episcopal dele. E quando me aconteceu esta circunstância da minha nomeação, não foram muitos segundos que passaram para concluir e para decidir que esse seria o meu lema. E tenho tido essa experiência única de que isto é para levar a sério. Aliás, logo nos primeiros dias, a minha mãe faleceu no sábado e eu fui ordenado bispo no domingo. O funeral foi no domingo de manhã e eu fui ordenado à tarde, só estando nas mãos de Deus é que é possível viver estas coisas.

Agradecemos a entrevista e desejamos um feliz Natal.

E eu também queria desejar e dizer que talvez este Natal seja o primeiro Natal em que alguns vão ter um lugar vazio na mesa. Pela pandemia, por outra circunstância, de morte, emigração, causa grave, acreditem que esse lugar está preenchido por todos os que somos, por todos os que queremos, e acreditem que amanhã as coisas podem ser um bocadinho melhores.

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