"Não basta definir áreas marinhas protegidas, é preciso investir"

Telmo Morato, biólogo do centro de investigação e desenvolvimento da Universidade dos Açores, sublinha que tem havido uma distância entre o discurso político e as ações no terreno.

PorRute Fonseca
© José Sena Goulão/Lusa

Para o especialista em Biologia do Mar Profundo o objetivo de 30% só é viável se as áreas marinhas protegidas forem designadas para atingir objetivos de gestão e conservação muito bem definidos." Esta discussão dos 30% interessa aos políticos, porque tem objetivos quantificáveis, mas não servem de nada se não forem colocados nos sítios mais importantes. Mais importante do que estabelecer áreas marinhas protegidas, é ter objetivos de gestão e conservação muito bem definidos, só assim é possível identificar as ferramentas de gestão para atingir esses objetivos. A ideia de que ter 30% de áreas marinhas protegidas é atingir os objetivos é errada, porque podem colocar-se as áreas marinhas protegidas em sítios que não têm valor ecológico nenhum e do ponto de vista da gestão e conservação não se atingem os objetivos".

Ouça aqui as declarações de Telmo Morato

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Da Conferência dos Oceanos sairá a Declaração de Lisboa, que está a ser negociada há mais de um ano e deverá ser aprovada pelos Estados-membros. O investigador Telmo Morato sublinha que antes de mais é preciso garantir apoio financeiro, para por em prática as medidas aprovadas ou corremos o risco de ter apenas mais um texto. "Aquilo que me preocupa não é conteúdo da declaração, os políticos são hábeis a escrever textos que trazem alguma esperança sobre a gestão do mar. Mas as declarações se não vierem com pacotes financeiros que apoiem a sua execução, a probabilidade de acontecerem são limitadas. Gostava que houvesse uma mudança de paradigma, em que além de palavras bem construídas também viesse na declaração uma forma de conseguir passar das palavras aos atos".

O investigador do centro de investigação e desenvolvimento da Universidade dos Açores diz que ainda há muito desconhecimento sobre os oceanos e isso reflete-se de diferentes formas. "O conhecimento científico que normalmente informa a decisão política, em algumas áreas ainda é deficiente. Não conseguimos gerir e apoiar o desenvolvimento de uma economia azul sustentável sem conhecer o que vive nos nossos oceanos. A falta de conhecimento vem com a falta de investimento que tem havido nos últimos anos para o conhecimento dos oceanos. Há muitos discursos políticos para melhor conhecer e utilizar o oceano, mas na prática não existem ferramentas ou apoios financeiros que permitam avançar para ter melhor informação".

Proteger 30% dos oceanos até 2030, criar um tratado para proteger o alto-mar fora das jurisdições nacionais, combater a poluição dos oceanos e desenvolver a economia do mar de forma sustentável, são alguns dos temas em discussão na Conferência dos Oceanos, que arranca hoje em Lisboa sob o mote "Salvar o Oceano, Proteger o Futuro".

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